Dele

1368 Palavras
Capítulo 14 Lucia Bianchi O quarto virou um caos de vozes e passos, e por um segundo pensei que era o fim de tudo — o meu fim, o fim do pouco que me restava. Francesco, meu sogro, me viu nua, encolhida no lençol, e houve um olhar entre ele e aquele homem nojento que me fazia revirar o estômago até hoje. Nunca esquecerei a cara de prazer que ele esboçou, como se eu fosse um objeto cuja utilidade finalmente fora demonstrada. Mas algo me surpreendeu: — Não. — ouvi o sogro dizer, a voz engasgada numa mistura de raiva e vergonha — Pra que fazer isso? Faça algum outro corte nela que seja menos doloroso. Pode até ser lá em baixo, mas resolva. As pessoas vão comentar. Ninguém viu que entrei. Vou sair e vocês resolvem isso. Isabella precisa facilitar se não quiser se machucar mais. As vezes esqueço que me chamo Isabella... Ou chamava. As palavras cortaram meu coração e o silêncio que se seguiu parecia ainda mais pesado que os gritos. Eu tremia, agarrando o lençol como se ele fosse um remédio contra o pânico. Eles discutiram por alguns minutos, com tons que alternavam entre a ameaça e o cálculo. Um deles queria que eu servisse de espetáculo; o outro queria uma “solução” mais rápida, menos danosa à aparência — como se minha vida tivesse a ver com a aparência em primeiro lugar. O velho saiu. Senti o ódio crescer como um fogo no peito quando Giovanni voltou a se aproximar, falando com um sarcasmo que só deixava claro o quanto me considerava descartável. — O que prefere? Vai me deixar cortar lá embaixo ou vamos usar a vassoura. Porque se em dez minutos eu não tiver o que quero, vou te devolver. Será torturada e vendida aos soldados.— Era uma sentença, proferida como se fosse um fato trivial. — Eu posso cortar? — pedi, tentando recuperar um pouco da minha dignidade. — Bom, se for rápido e sem frescura, pode. Ele me ofereceu a faca. A proposta foi feita como se eu tivesse escolha. Segurei a lâmina com mãos que não respondiam ao comando. Minhas pernas tremiam como varas. Olhei para ele; vi nos olhos do meu agressor uma impaciência lasciva. Eu não era tratada como mulher; era tratada como peça. Fiz o corte. Foi pequeno — um risco, uma decisão rápida para atender àqueles que preferiam que eu “colaborasse” do que verem a cena estragar. Não consigo descrever a sensação sem que venha junto um nó na garganta: a dor, sim, mas sobretudo a humilhação de ter que escolher como me ferir para que o pior não acontecesse. Enfiei o lençol no rosto por um segundo, não por vergonha apenas, mas para sufocar o som que queria escapar: um grito que poderia ter sido ouvido por muitos e usado contra mim depois. Então esfreguei ali no sangue e entreguei a ele. Quando os passos finalmente se afastaram, fiquei ali, nua, com o corpo perto do chão e as mãos molhadas do sangue que tentei esconder com pressa. Lembrei das palavras da minha mãe — aquela frase c***l sobre o “órgão” que me deixava sem ar — e percebi com uma clareza cortante que nada daquilo tinha a ver com honra. Era apenas um ritual para satisfazer ego e controle, e eu, que sempre tentei sobreviver com o mínimo de barulho, senti que algo dentro de mim mudara para sempre. *** — Chegamos. Nem inventa que está com sono. Te dei a noite toda pra descansar. Acordei de volta ao presente com a voz de Vinícius, e o sol batendo nos meus olhos. Estávamos voltando para casa. O carro sacudia levemente pela estrada, e meu corpo doía de uma forma que não era física. Desci do carro quando chegamos em frente a casa onde me arrumei. Onde Fabiana disse que também seria minha. Coloquei a mão no peito e respirei fundo, tentando controlar o tremor que ameaçava explodir em lágrimas. — O que foi, amore mio? Nervosa? — Vinícius perguntou encostando-se no vidro do carro ao meu lado. A voz dele era um misto de provocação e cuidado; uma combinação que eu ainda não sabia desarmar. Neguei com a cabeça. Como explicar a ele que minha primeira noite fora marcada por um ritual que eu não pedi? Como contar que, de certa forma, eu já havia sido tocada e ainda assim me considerava virgem de tudo aquilo que importava — de escolha, de afeto verdadeiro? Decidi soltar de uma vez. Até porque eu não sabia nem onde colocar as mãos. — Eu já fui tocada, mas ainda sou virgem. — sussurrei, e a confissão saiu tão pequena que quase se perdeu no barulho do motor quente. Ele inclinou-se para mim, o rosto próximo o suficiente para que eu sentisse a barba roçar a pele. — Está com medo? — perguntou, como se tentasse decifrar um enigma que só ele tinha direito de resolver. — Não. — Menti — Só peço que seja cuidadoso. — disse, porque era a verdade e porque, naquele momento, era a melhor defesa que eu conhecia. Quem me garante que ele não tentasse algo parecido com o que Giovanni fez? — Bom, devo confessar que gostei de saber disso. — Me senti aliviada com as palavras dele. Ele sorriu, mas havia algo novo no olhar — um brilho que eu nunca vi antes, uma promessa que não era feita à família nem à honra, mas a mim. — Eu não ousaria machucar você. Mamma deixou bem claro isso. Agora venha. Antes que eu percebesse, ele me ergueu nos braços. Estava ainda de vestido, os tecidos cheios, e o peso do mundo parecia aliviado por um momento estranho — como se, ao me carregar, ele assumisse uma responsabilidade que não havia pedido. Caminhou pelo gramado comigo pendurada no seu pescoço, e o ar parecia mais leve do que quando entrei. — Depois você me conta sobre isso. Não consigo mais esperar, Lucia... — murmurou, e me beijou. O beijo não foi possessivo; foi urgente e doce ao mesmo tempo, como se ele quisesse marcar também as partes de mim que tinham pertencido às sombras, sem saber. Não foi um beijo de triunfo; foi, num sentido torto, um pedido de proteção da minha parte. Só que ao me colocar no chão, meus joelhos vacilaram, e deixei que ele encostasse minha cabeça no peito dele, sentindo o ritmo firme do coração que não tremeu na hora da ameaça. Porém, mesmo envolta naquele momento, a lembrança do que acontecera antes não cedia. Senti-me vulnerável entre o calor daquele abraço e a lembrança do lençol molhado. Perguntei a mim mesma quem eu estava me tornando: uma esposa de fachada, uma oferta de paz entre famílias, ou apenas a menina que um dia acreditara em casamentos com música suave? A resposta não veio. E mesmo que eu tentasse me convencer de que Vinícius seria diferente, uma voz dentro de mim me lembrava — com dureza — que “sobreviver” é um verbo que exige escolhas feias, e eu já havia feito uma. Se soubesse que não sou Lucia, me perdoaria? — Nem comecei e já está de pernas bambas? Vou te carregar de novo. Quando entramos em casa, ele me colocou no sofá e ficou ali por um tempo, olhando para mim com paciência. Não fez perguntas, não forçou confidências. Apenas ficou enquanto bebia seu vinho branco. Eu quis falar, dizer tudo pra ele: sobre o corte, o medo, a raiva, a vergonha, quem eu realmente sou. Mas as palavras formigaram na garganta e morreram quando vi nos olhos dele algo que parecia gotejar lentamente: desejo, interesse, e, talvez, algo parecido com afeto. Ele tirou a gravata e depois veio sobre mim. — Estou louco para arrancar esse vestido... Seus dedos deslizaram pelo meu rosto de um jeito tão suave e carinhoso que fechei os olhos. Ele era bem diferente dos Moretti. Eu conseguia sentir até com sua respiração, agora tão perto da minha boca. Seus olhos verdes me fitaram, e meu coração desacelerou. Eu seria dele, mesmo que meu nome fosse outro... Minha alma o havia escolhido.
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