Capitulo 5 O CHAMADO DO SANGUE

614 Palavras
O sol de meio-dia no Rio de Janeiro é um carrasco de ferro que não tem piedade de viva alma, parceiro. No asfalto da Zona Sul, o calor faz a calçada derreter, mas ali na "Gaiola" o bueiro mais quente e o coração nervoso da boca de fumo principal da Rocinha o clima tava dez vezes mais tenso e sufocante que o próprio inferno. O ar ali dentro fedia a uma mistura violenta de maconha prensada mofada, pólvora de cartucho queimado, respingo de loló e o suor azedo dos vapor e dos atividade que não paravam um segundo sequer de rodar o plantão. O movimento tava frenético, o puro suco do progresso criminoso que alimenta a engrenagem do meu império. Era aviãozinho menor de idade subindo e descendo ladeira feito fantasma, viciado de condomínio de luxo com os olho arregalado fazendo fila indiana com nota de cem amassada e rasgada na mão, e os meus soldados de elite, os guri da contenção, tudo com fuzil atravessado na bandoleira, com o cano quente apontado pra baixo, vigiando cada palmo, cada beco e cada laje do meu território. Na minha favela, ninguém moca sem autorização; se respirar torto, o miolo voa. Eu tava jogado num banco de plástico alto, daqueles de boteco, com um fuzil AR-15 camuflado atravessado no peito avantajado e uma garrafa de água mineral trincando de gelada na mão esquerda, usando o gelo pra resfriar a minha própria carcaça. Minha regata preta de marca tava completamente colada no corpo de tanto suor, e o mormaço daquela tarde maldita fazia as tatuagem de faca e os dragão do meu braço brilharem feito verniz. Eu tava com a mente longe pra c*****o, mergulhado na escuridão dos meus próprios pensamentos, pensando na Maya e no sangue dela lavando o chão de terra daquela nossa casinha antiga. Como sempre, a lembrança daquela menina morta é a única coisa que me conecta com o mundo real. Eu tava quase entrando na neurose total quando o ronco alto e estridente do escapamento estralado de uma moto cortou o burburinho pesado da boca de fumo. Era o Menor, meu subchefe, o cara que eu mesmo resgatei do lixo e criei na minha mão pra ser minha sombra na pista, meu executor mais fiel. Ele meteu a mão no freio da XRE 300 turbinada fazendo um zerinho violento bem na minha frente, levantando uma cortina de poeira da p***a, jogando terra pra tudo que é lado. O moleque desceu do metal com uma cara de psicopata que tinha acabado de achar o mapa da mina de ouro, os olho brilhando na pura ganância. — Visão, Monstro! Pega a visão aqui, meu patrão! — ele gritou alto, batendo a mão espalmada no meu peito num cumprimento rápido de cria, daqueles que estalam. — O plantão das dez tá fluindo daquele jeito, o lucro tá alto, mas ó a fofoca pesada de guerra que eu trouxe de bônus pra tu, chefia. Ele enfiou a mão calejada no bolso fundo da bermuda tactel de marca e tirou um pedaço de panfleto todo amassado, ensebado, sujo de graxa de motor, terra de cemitério e sabe-se lá mais que p***a de líquido nojento. — Peguei essa p***a aqui com um dos noia mais cracudo da passarela, aquele que tava tentando passar uns fios de cobre roubado ali na curva do S pra arrumar um pino de pó. O maluco quase se mijou todo pra me entregar, mas jurou de pé junto que o bagulho ali é elite pura do submundo, só os psicopata e os carrasco de verdade se enfrentando na crocodilagem — o Menor falou, esticando o papel podre direto na direção da minha mão.
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