As horas seguintes foram consumidas pela burocracia metódica do sofrimento humano. Redigir relatórios psiquiátricos, revisar laudos de custódia para o tribunal e dissecar a análise de dados brutos que eu acumulava em cada sessão exige uma frieza técnica que beira o desapego total. O Rio de Janeiro lá fora continuava a sua rotina de caos, mas aqui dentro, a dor era reduzida a códigos do CID-10 e prognósticos clínicos digitados em uma tela de alta resolução. O sol começou a se despedir do Leblon, despencando no horizonte do oceano e pintando o céu com um laranja ferroso. Essa luz oblíqua atravessava as persianas, criando listras geométricas que dividiam o ambiente. O controle que eu exerço sobre o tempo é rigoroso, mas até a minha precisão de máquina possui limites biológicos. Senti uma que

