A noite engoliu a Rocinha de um jeito brutal, cobrindo o céu com aquele breu pesado que só quem é cria da favela entende. A escuridão era rasgada só pelas luzes amareladas e trêmulas dos postes e o brilho intermitente que vinha dos becos. O ritmo do morro tinha mudado. O som de tiro esporádico lá pra banda da mata aviso claro da nossa contenção pra qualquer miliciano ou cana que tentasse subir de patinete já se misturava com o grave estourado dos paredões de som. Os moleques já tavam testando as caixas pro baile de favela do fim de semana, a batida pesada tremendo o concreto das lajes. Saí da boca de fumo sentindo a carga do dia pesar na p***a das minhas costas. O cansaço não era só na carne; era uma neurose fodida na mente, uma fumaça densa que eu só espantava na base do ódio puro. Subi

