CAPÍTULO 1: O TRONO DE FERRO E SANGUE

749 Palavras
O radinho de pilha no meu ombro tava estalando num chiado brabo, o puro suco da neurose da madrugada, aquela sinfonia macabra que só quem é cria de favela de verdade reconhece de longe. Era o som da minha orquestra do m*l, o aviso de que o canil tava ouriçado na parte de baixo do morro, querendo arrumar kô com quem manda na p***a toda. A frequência da milícia e dos canas tava monitorada, mas os cara insiste em tentar a sorte no terreno dos outros, achando que o miolo tá desguarnecido. — Visão, Monstro! Pega a visão aqui na escuta, chefia! Os verme do Bope tão tentando embicar a barca e subir pela 19 de mansinho, na atividade de sapatinho, mas o bonde da contenção já tá todo posicionado no miolo, com os fuzil engatilhado e o dedo coçando. É pra segurar o avanço na contenção ou é pra derreter esses filha da p**a sem massagem nenhuma? — A voz do Menor veio rasgando o aparelho, estourada na mais pura adrenalina de quem tá com o coração batendo na garganta e a pistola destravada na cintura. Eu nem pisquei, a fisionomia fria como o gelo, sem esboçar um milímetro de reação ou de desespero. Tava jogado num sofá de couro legítimo bem na laje da "Torre", a mansão de quatro andares com fachada de vidro blindado que eu mesmo ordenei erguer no ponto mais estratégico e alto da Rocinha. Dali de cima, no topo do mundo, eu tenho o raio-X completo de cada beco, cada viela, cada biboca e cada movimento dessa p***a de cidade do Rio de Janeiro inteira. Uma cidade hipócrita que me odeia nas capa de jornal, que me chama de demônio nos canal de televisão, mas que desce o asfalto pra cheirar do meu pó da mais pura qualidade e sustenta o meu império de milhões de dólar toda semana. O vento cortante da madrugada batia na minha cara com força, mas eu não sentia p***a nenhuma de frio. O ódio que corre nas minhas veias é o puro veneno concentrado, um combustível pesado que me mantém em brasa, na neurose total, 24 horas por dia, sem direito a descanso. Quem dorme na favela vira alvo, e eu nasci pra ser o caçador. — Derrete esses comédia, p***a — respondi no ato, a voz saindo direto do fundo da garganta, rouca pra c*****o de tanto gritar ordem de execução no rádio, berrar com soldado o****o e fumar do bom da maconha da mais pura, direto do Paraguai. — Se botar a cara no visual dos guri, é sem ideia nenhuma, sem neurose. Não quero saber de p***a de tiro de aviso, não quero ouvir papo de negociação. Quero saber de corpo estirado no chão, bueiro escorrendo sangue e os cana voltando de ré pro asfalto pra aprenderem de uma vez por todas que aqui dentro do meu território o Estado não bota o pé sem pagar pedágio de vida. O Rio de Janeiro é nosso, o asfalto chora e o morro governa! Traguei o beck grosso de Skunk que tava prensado entre os meus dedos cheios de anel, segurando aquela fumaça densa e quente no fundo do pulmão como se tivesse engolindo a própria alma dos meus inimigos que tombaram no caminho. Olhei pras minhas próprias mãos, analisando o tamanho da minha destruição. Tinha o puro ouro amarelo brilhando nos cordão grosso e no pulso, mas por baixo das joia o que comandava eram as cicatrizes de tiro de fuzil e corte de faca, junto com a minha digital marcada com força no gatilho de ferro. Eu sou o Noah Ferraz. 28 anos de puro ódio acumulado no lombo, sem espaço pra sentimento de o****o. Vulgo na pista, nas delegacia e no submundo: Monstro. 1,90m de puro músculo trincado no ódio, olhos azuis que parecem duas pedras de gelo seco que te perfuram a espinha só de olhar, e uma mente psicopata que trabalha dez vezes mais rápido que uma rajada completa de AR-15 na direção do alvo. No meu pescoço, a tatuagem de uma caveira com uma faca cravada na boca e duas pistola cruzada não é desenho de playboy pra fazer pose em festa do asfalto, não. É o meu cartão de visitas, o aviso prévio de que o ceifador tá na tua frente. Sou o dono absoluto da Rocinha, o cara que transformou o morro num bunker inexpugnável, uma fortaleza onde exército nenhum entra sem sair de saco preto pro necrotério.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR