Paola.
Desde de que eu entrei para o mundo do crime minha vida não mudou muito.
Eu não recebia uma quantia em dinheiro pelo trabalho que fazia.
Na verdade dificilmente eu recebia dinheiro.
O chefe da pequena organização que eu participava não me pagava.
O mesmo alegava que já me dava um teto e comida.
Eu nunca me importei com isso, achava que todos os trabalhos nesse mundo era assim.
Mas pra minha surpresa não era.
Agora eu trabalharia com alguém que me pagaria metade de cada encomenda.
E ainda me deixaria viver na casa deles.
Não tinha vontade de me mudar.
Viver aqui seria bom.
Késsia e eu estávamos no quarto dela.
Ela estava me mostrando algumas coisas do trabalho.
--- Posso perguntar algo?
--- Pergunta.
--- Por que ela te traiu? Tipo, você parece ser uma boa parceira, não consigo entender.
--- Esse é o ponto, nem mesmo eu entendi.
--- Só pra confirmar, aquele seu primo gostava dela né?
--- Sim, mas acho que ele não sente isso como antes.
--- Entendo.
--- Já está pensando em cair matando?
--- Não gosto de perder tempo.
--- Claro.
Eu daria em cima dele, gostei de como ele era.
Bonito, parecia gostoso, e tinha o jeito de quem fazia sexo muito bem.
Eu não podia me dar ao luxo de deixar ele escapar.
Eu queria ele, e eu teria, não importa o quanto demorasse.
Ele não parecia ter o mesmo interesse que eu, mas quem disse que me importo?
Eu faria ele ter interesse, logo logo.
Muitas mulheres não davam em cima de homens.
Entendo e respeito, cada uma tem suas regras.
Mas eu não me importava em fazer isso.
Se eu queria algo, eu deveria ir atrás.
Assim eu acreditava.
Pra mim era importante correr atrás dos objetivos.
Finalmente minha vida estava ficando melhor.
Ao menos agora eu viveria em uma casa gigante.
Ainda não acreditava que receberia uma quantia em dinheiro.
Mas a verdade é que isso nem me importa.
Se eu viver bem já está de bom tamanho.
Já era quase horário de jantar mas eu estava faminta.
Apesar de Késsia ter me dado alguns lanches eu ainda estava com fome.
Eu não sabia se poderia mecher na cozinha.
Fui pra lá na esperança de ter alguém que pudesse me oferecer algo.
Quem estava lá era o pai da Késsia.
Ele estava fazendo algum lanche que eu não sabia o que era.
Só que minha barriguinha deu sinais quando viu.
Aquilo parecia delicioso.
--- Come ai, espero que dê pra nós dois.
Ele tinha colocado o prato cheio daquele lanche e dois litros de coca em cima da mesa.
Te falar, aquilo estava dos deuses.
--- p***a, tu come que só em fia. Quando tiver fome é só procurar aqui na cozinha po, aqui não falta alimento não.
--- Eu posso?
--- Que besteira, se eu tô dizendo é por que pode, não precisa ficar esperando ninguém te oferecer.
Eu adorava o fato de que eu viveria ali.
As pessoas ali eram acolhedoras.
Mesmo que não estivesse sempre demostrando isso.
--- Nunca vive em um lugar que eu poderia comer livremente.
--- Essas pessoas ai que cê conviveu é pior que bixo, esquece o que passou.
--- Obrigada, o senhor é um homem legal, e um bom pai também.
--- Dizer que eu sou um bom pai é o melhor elogio.
Eu queria ter tido a sorte de ter um pai como ele.
Se eu tivesse tido um pai assim talvez minha vida teria sido diferente.
Infelizmente as coisas acontecem como tem que acontecer.
Eu não iria ficar a vida toda me lamentando por ter um passado de merda.
O que eu deveria fazer era aproveitar as oportunidades.
E era exatamente isso que eu faria.
Me esforçaria para que a chance que eles me deram não tenha sido em vão.
Fui para o quarto da Késsia.
Não tinha muito o que fazer naquela casa enorme.
Quando bati na porta e entrei ela estava mechendo com o notebook.
Pareceu que ela estava trabalhando em algo.
--- O que está fazendo?
--- Trabalhando.
--- Tem outro trabalho?
--- Tenho, quer ver?
Me aproximei dela.
Com toda a paciência do mundo ela foi me mostrando e explicando tudo.
Eu fiquei impressionada, nunca tinha visto algo como aquilo.
--- Paola, você sabe ler?
Eu fiquei envergonhada em responder àquela pergunta.
Mas seria falta de educação não responder ela.
--- Não sei, conheço os números e faço alguns cálculos simples, mas nada tão avançado.
--- Não teve oportunidade?
--- Acho que tive, eu poderia ter aprendido, mas estava ocupada me preocupando com a comida e com o dia seguinte.
Késsia me olhou por um tempo.
Eu não via o sentimento de pena nos olhos dela.
Na verdade ela parecia estar pensando em algo.
--- Que tal começar a estudar?
--- Que? Nessa idade?
--- Sim, podemos contratar um professor pra você.
--- Eu não tenho dinheiro.
--- Se isso te deixa melhor logo que receber seu primeiro pagamento contratamos alguém.
Será que eu podia mesmo acreditar naquilo?
O antigo chefe também me prometeu a mesma coisa.
Mas aí quando comecei a trabalhar pra ele não recebi dinheiro.
--- Eu sei que ainda está duvidando, depois de amanhã vamos até um alvo, você pode me dizer se estou te enganando ou não.
--- Desculpe duvidar de você.
--- Não se preocupe, eu entendo o seu lado.
Ela apenas sorriu pra mim.
A pedido dela peguei uma cadeira e sentei ao lado dela.
Ver o modo como ela fazia cálculo me fazia pensar que ela era uma calculadora.
Não tinha condições um ser humano ser tão bom assim.
Eu consegui aprender algumas coisas mas foram poucas.
Tinha nem como eu aprender muita coisa.
Ela era rápida no trabalho dela.
--- Preciso de um banho.
--- Posso tomar banho no seu banheiro depois de você?
--- Claro.
Ela foi tomar banho e eu fiquei ali apenas olhando os detalhes.
O quarto dela era bonito, bem organizado.
Não tinha uma película de poeira fora do lugar.
Na verdade acho que ali não tinha um resquício de sujeira.
Um tempo depois ela voltou de banho tomado e eu fui tomar o meu.
Mas aí eu me lembrei que estava sem roupa quando estava na porta do banheiro.
Eu já tinha tomado banho, o que eu vestiria agora?
--- Qual o problema?
--- Não tenho roupa.
Ela olhou pra mim analisando meu corpo.
--- Pegue o que quiser, na gaveta tem calcinhas com etiqueta ainda.
Ela falou aquilo depois de abrir a porta do closet dela.
Entrei ali dentro analisando cada roupa.
Ali tinha tanta roupa que era difícil escolher uma.
Peguei um pijama fofinho que encontrei.
Foi o que pareceu mais confortável para dormi.
--- Nossa, ficou mais bem em você que em mim.
--- Eu sei que sou gostosa.
Rimos juntas.
--- Onde vou dormir?
--- Vai se importar de dormir comigo? Não organizamos um quarto pra você ainda.
--- Tudo bem.
Eu não importava em dormir com ela.
Não estava era acreditando que tudo isso estava acontecendo comigo.