Capítulo 3

1199 Palavras
Clara não conseguiu se concentrar em mais nada durante o resto da manhã. Ela até tentou abrir um dos livros que tinha levado para estudar, mas as palavras pareciam escapar de sua mente antes mesmo de fazerem sentido. Seu olhar voltava repetidamente para o caderno sobre a mesa. Dentro dele estava a carta. E agora, também, um pequeno papel onde Rafael havia anotado algumas informações do registro antigo da universidade. Sofia Almeida – Estudante de Letras (2006–2009). Havia também um endereço antigo. Mas algo mais tinha chamado a atenção de Clara naquela ficha. Um pequeno campo com o nome de um grupo universitário. Clube Literário Aurora. Clara havia perguntado sobre aquilo. Rafael explicara que, anos atrás, aquele clube era bastante ativo na universidade. Um grupo de estudantes que se reunia para discutir livros, poesia e escrita. Hoje ele já não existia mais. Mas, segundo Rafael, havia alguém que provavelmente saberia muito sobre o clube. Alguém que estava na universidade há muito tempo. E talvez… alguém que pudesse conhecer Henrique. Agora Clara caminhava pelo corredor silencioso da ala mais antiga da biblioteca. Era uma parte menos movimentada do prédio. Estantes altas. Mesas de madeira escura. E um cheiro mais forte de papel antigo. No final do corredor havia uma pequena sala com uma porta entreaberta. Na porta havia uma placa discreta: Arquivo Histórico da Biblioteca. Clara respirou fundo antes de bater levemente. — Pode entrar — disse uma voz calma lá dentro. Ela abriu a porta. A sala era pequena, mas cheia de estantes e caixas organizadas. Havia pilhas de documentos, revistas antigas e alguns livros muito envelhecidos. Sentado atrás de uma mesa estava um homem de cabelos grisalhos e óculos redondos. Ele levantou os olhos quando Clara entrou. — Bom dia. Clara sorriu educadamente. — Bom dia. O homem fechou o livro que estava lendo. — Em que posso ajudar? Clara aproximou-se da mesa. — O Rafael disse que talvez o senhor pudesse me ajudar com uma informação sobre algo… antigo da universidade. O homem sorriu levemente. — Isso geralmente significa que alguém encontrou algo curioso. Clara tirou a carta do caderno. — Mais ou menos isso. Ela colocou o envelope sobre a mesa. O homem pegou o papel com cuidado. Seus olhos passaram pelo nome escrito na frente. Sofia Almeida. Então ele olhou para Clara novamente. — Onde encontrou isso? — Dentro de um livro da biblioteca. Ele virou o envelope nas mãos. — Interessante. Clara sentiu o coração acelerar um pouco. — O senhor conhece esse nome? O homem pensou por um momento. — Sofia Almeida… — repetiu lentamente. Ele abriu o envelope e retirou a carta. Seus olhos começaram a percorrer as linhas. O silêncio tomou a sala. Clara observava cada pequena reação do homem. Quando ele terminou de ler, apoiou o papel na mesa e suspirou suavemente. — Já faz muito tempo… Clara inclinou-se um pouco para frente. — Então o senhor conhece? Ele assentiu lentamente. — Conheci. Clara sentiu uma onda de curiosidade subir dentro dela. — Quem era ela? O homem ajeitou os óculos. — Uma estudante muito talentosa. Ele apoiou os cotovelos na mesa. — Sofia fazia parte do Clube Literário Aurora. Clara sentiu o coração dar um pequeno salto. — O mesmo que está no registro dela? — Exatamente. Clara hesitou antes de fazer a próxima pergunta. — E Henrique? O homem ficou em silêncio por alguns segundos. Como se estivesse revisitando memórias antigas. Então falou: — Henrique também fazia parte do clube. Clara prendeu a respiração. — Então eles se conheciam? O homem soltou um pequeno sorriso. — Conheciam muito bem. Clara sentiu o coração bater mais forte. — Como assim? Ele recostou-se na cadeira. — Henrique Vasconcelos Duarte. Clara arregalou os olhos. Agora havia um nome completo. — Ele era um dos estudantes mais apaixonados por literatura que já vi. Clara ouviu cada palavra com atenção. — Sempre carregava um caderno cheio de poemas e histórias. O homem pegou novamente a carta. — Essa caligrafia… — disse ele — definitivamente é dele. Clara sentiu um pequeno arrepio. — O senhor tem certeza? — Tenho. Ele apontou para uma das letras. — Henrique tinha um jeito muito específico de escrever a letra "S". Clara observou. Era verdade. A curva da letra era elegante e diferente. — E Sofia? O homem suspirou. — Sofia também era muito talentosa. Ele sorriu levemente. — Escrevia contos incríveis. Clara inclinou-se ainda mais. — Eles… eram próximos? O homem ficou em silêncio por alguns segundos. Então respondeu: — Henrique era apaixonado por ela. Clara sentiu o coração apertar. — E ela? O homem deu de ombros. — Isso era mais complicado. Clara esperou. — Sofia era uma pessoa muito gentil… mas também muito focada nos próprios sonhos. Ele cruzou as mãos sobre a mesa. — Henrique nunca teve coragem de dizer o que sentia. Clara olhou para a carta. Aquilo explicava as palavras escritas ali. "Eu queria ter tido coragem de dizer tudo isso olhando nos seus olhos." — Então ele escreveu essa carta… — Provavelmente quando percebeu que estava prestes a perder a chance. Clara franziu a testa. — Perder? O homem assentiu. — Sofia recebeu uma oportunidade de estudar fora do país. Clara ficou em silêncio. — Ela foi embora pouco tempo depois de se formar. Clara sentiu o coração apertar ainda mais. — E Henrique? O homem suspirou novamente. — Ele ficou aqui por mais algum tempo. — O senhor sabe o que aconteceu com ele? O homem pensou por alguns segundos. — Depois de um tempo ele também foi embora. Clara sentiu um misto de emoções. Curiosidade. Tristeza. Esperança. — O senhor sabe para onde? O homem balançou a cabeça lentamente. — Não tenho certeza. Clara olhou novamente para a carta. Agora aquela história parecia ainda mais viva. Dois jovens. Um amor nunca declarado. Uma carta nunca entregue. Ela levantou os olhos novamente. — O senhor acha que Sofia alguma vez soube? O homem olhou para a carta. Depois respondeu: — Acho que não. Clara sentiu um pequeno peso no peito. O homem devolveu o envelope. — Às vezes a vida é cheia de histórias assim. Ele sorriu gentilmente. — Histórias que quase aconteceram. Clara pegou a carta com cuidado. Mas algo dentro dela se recusava a aceitar aquilo como o final da história. Ela levantou-se lentamente. — Muito obrigada por me contar tudo isso. O homem assentiu. — Foi um prazer revisitar essas memórias. Quando Clara saiu da sala, o corredor da biblioteca parecia ainda mais silencioso. Ela caminhou devagar até uma das janelas. A luz do sol agora atravessava o vidro e iluminava o papel da carta. Clara passou os dedos pelo envelope. Agora ela sabia mais. Sabia quem era Henrique. Sabia quem era Sofia. Sabia que aquela carta tinha sido escrita por um amor que nunca chegou ao destino. Mas uma pergunta ainda permanecia. Onde estava Henrique agora? Clara olhou novamente para o nome no final da carta. Henrique Vasconcelos Duarte. E pela primeira vez desde que encontrara a carta, uma nova ideia começou a surgir em sua mente. Talvez… Talvez ainda fosse possível encontrá-lo. E se fosse verdade… Talvez aquela história ainda não tivesse terminado.
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