Clara não dormiu bem naquela noite.
Na verdade, ela m*l dormiu.
Virava de um lado para o outro, olhando para o teto escuro do quarto enquanto sua mente repetia, incansavelmente, cada detalhe do encontro no café.
O jeito como Henrique a olhou.
As pausas nas respostas.
As perguntas que pareciam simples… mas não eram.
Ele estava percebendo.
Não sabia exatamente o quê.
Mas estava percebendo.
E isso era o suficiente para deixar Clara inquieta.
Ao lado, Mariana dormia profundamente, completamente alheia ao turbilhão que se passava na mente da amiga.
Clara virou-se de lado e pegou o celular.
03:17.
Ela suspirou.
— Isso não está certo…
Mas o que exatamente não estava certo?
O fato de ela estar escondendo algo?
Ou o fato de que, no fundo, já não queria mais esconder?
Clara fechou os olhos por alguns segundos.
Mas, em vez de descansar, a imagem dele surgiu novamente.
Henrique.
Sentado à sua frente.
Olhando como se estivesse tentando decifrá-la.
E talvez estivesse mesmo.
Na manhã seguinte, Clara acordou com a sensação de que algo precisava mudar.
Ela não podia continuar naquele jogo por muito mais tempo.
Mas também não sabia como sair dele.
Durante as aulas, ela não conseguiu se concentrar.
Anotava coisas sem sentido.
Perdia partes importantes da explicação.
E, em vários momentos, percebeu que estava apenas olhando para o vazio.
Pensando.
Sempre pensando.
Até que, finalmente, o dia avançou.
E o horário chegou.
Clara parou em frente ao espelho antes de sair.
Olhou para si mesma por alguns segundos.
— Você vai só conversar — disse em voz baixa.
Mas a própria voz não parecia convencida.
Ela pegou a bolsa.
O caderno estava lá.
A carta também.
E dessa vez… aquilo parecia mais uma decisão do que um acaso.
Quando chegou ao café, percebeu algo diferente imediatamente.
Henrique já estava lá.
Sentado.
Na mesma mesa.
Como se estivesse esperando.
Clara parou por um segundo na porta.
Aquilo não era normal.
Ele nunca chegava antes.
O coração dela acelerou.
Mas, mesmo assim, entrou.
O sino tocou.
Henrique levantou os olhos.
E, diferente dos outros dias, não sorriu.
Apenas a observou.
Clara caminhou até o balcão.
Pediu o cappuccino.
Mas sentia o peso do olhar dele sobre ela o tempo todo.
Quando se virou, ele ainda estava olhando.
Esperando.
Ela caminhou até a mesa.
Sentou-se.
Colocou a xícara com cuidado.
O silêncio entre eles foi imediato.
Pesado.
Diferente de tudo que tinham vivido até ali.
— Você chegou cedo hoje — disse Clara, tentando manter o tom leve.
Henrique não respondeu de imediato.
— Queria falar com você.
O coração dela apertou.
— Falar?
Ele assentiu.
— Sim.
Clara apoiou as mãos na mesa, tentando não demonstrar nervosismo.
— Sobre o quê?
Henrique inclinou-se levemente para frente.
— Sobre você.
Clara sentiu o corpo inteiro ficar alerta.
— Sobre mim?
— Sim.
Ele a observava de forma direta agora.
Sem suavizar.
Sem desviar.
— Você não está sendo completamente sincera.
A frase veio calma.
Mas firme.
Clara sentiu o impacto.
Mas não podia admitir.
Ainda não.
— Não sei do que você está falando.
Henrique manteve o olhar fixo.
— Sabe sim.
O silêncio voltou.
Mais pesado ainda.
Clara tentou sustentar o olhar.
Mas desviou primeiro.
— Você está exagerando.
Henrique respirou fundo.
Como alguém tentando manter a calma.
— Então me explica uma coisa.
Clara sentiu o coração acelerar ainda mais.
— O quê?
— Como você descobriu sobre Sofia tão rápido?
Clara congelou por dentro.
Aquilo tinha sido rápido demais.
Detalhado demais.
Ele tinha razão.
Mas ela não podia dizer a verdade.
— Eu só… procurei.
Henrique franziu levemente a testa.
— Procurou onde?
Clara hesitou.
Um erro.
Pequeno.
Mas suficiente.
Henrique percebeu.
— Viu?
Ele recostou-se na cadeira.
— Você sempre hesita antes de responder.
Clara apertou os dedos ao redor da xícara.
— Isso não prova nada.
— Prova que você está escondendo alguma coisa.
A voz dele não era agressiva.
Mas havia firmeza nela.
Convicção.
Clara sentiu o coração apertar.
— Eu não estou escondendo nada.
Henrique inclinou-se novamente.
— Então por que parece que você já conhece essa história?
O silêncio caiu como um peso.
Clara não respondeu.
Não conseguia.
Porque, pela primeira vez, sentia que qualquer palavra poderia revelar tudo.
Henrique observava.
Esperando.
— Clara — disse ele, mais baixo agora — eu não estou tentando te acusar de nada.
Ela levantou os olhos lentamente.
— Então o que você está fazendo?
— Tentando entender.
Clara sentiu algo mudar dentro dela.
Ele não estava irritado.
Estava… confuso.
E isso era pior.
Muito pior.
Porque tornava tudo mais humano.
Mais difícil.
— Eu só fiquei curiosa — disse ela, finalmente.
Henrique não pareceu convencido.
— Curiosa o suficiente para investigar pessoas de dezesseis anos atrás?
Clara ficou em silêncio.
Aquilo soava estranho.
Até para ela.
Henrique passou a mão pelo rosto.
— Isso não faz sentido.
Clara respirou fundo.
Sentiu o coração pesado.
Cansado.
E, por um segundo…
Ela quase disse.
Quase.
— Henrique, eu…
Mas parou.
As palavras ficaram presas.
O medo veio mais forte.
E se ele reagisse m*l?
E se aquilo destruísse tudo?
Ela desviou o olhar.
— Eu só achei a carta bonita.
Henrique ficou em silêncio.
Mas algo no olhar dele endureceu.
— Só isso?
Clara assentiu.
— Só.
Mas não parecia verdade.
E ele sabia.
O silêncio se prolongou.
Pesado.
Até que Henrique falou novamente:
— Você estava com o meu caderno.
Clara sentiu o mundo parar.
Por um segundo.
Dois.
Três.
Ela levantou os olhos devagar.
— O quê?
Henrique manteve o olhar fixo.
— Ontem.
Clara sentiu o corpo inteiro gelar.
— Você esqueceu no café.
— Eu sei.
A voz dele estava calma demais.
— E você pegou.
Clara não negou.
Não conseguiu.
— Sim.
Henrique assentiu lentamente.
— E leu.
Não foi uma pergunta.
Foi uma afirmação.
Clara sentiu o coração apertar com força.
Ela não respondeu.
Mas o silêncio respondeu por ela.
Henrique desviou o olhar por um instante.
Respirou fundo.
— Eu percebi.
Clara franziu levemente a testa.
— Como?
Ele voltou a olhar para ela.
— Você sabia coisas que não deveria saber.
Clara sentiu o peso daquilo cair sobre ela.
Não havia mais como fugir.
Não completamente.
Henrique inclinou-se levemente para frente.
— E então?
A voz dele agora era mais baixa.
Mais intensa.
— O que mais você sabe?
Clara sentiu os olhos arderem levemente.
Mas segurou.
Respirou fundo.
Tentou manter o controle.
— Eu não queria invadir.
Henrique não respondeu.
Apenas esperou.
— Eu só… achei a carta.
A voz dela saiu mais fraca agora.
— E comecei a procurar.
Henrique observava.
Sem interromper.
— E então encontrei informações.
Ela fez uma pausa.
— E depois… encontrei você.
O silêncio que veio depois foi diferente.
Mais profundo.
Mais definitivo.
Henrique ficou imóvel por alguns segundos.
— Você sabia.
Não era uma pergunta.
Clara assentiu lentamente.
— Sim.
Ele soltou um pequeno riso sem humor.
— Desde quando?
— Desde o primeiro dia no café.
Henrique desviou o olhar.
Como se precisasse de um segundo.
— E você fingiu.
Clara engoliu seco.
— Eu não sabia como dizer.
Ele voltou a olhar para ela.
— Então decidiu não dizer.
A voz dele não estava alta.
Mas havia algo nela.
Algo que doía.
— Eu tentei — disse Clara.
— Quando?
Ela não respondeu.
Porque não tinha uma resposta real.
Henrique assentiu lentamente.
— Entendi.
Mas claramente não estava tudo entendido.
O silêncio entre eles agora não era confortável.
Era pesado.
Carregado.
Quase insuportável.
Clara apertou as mãos.
— Eu não fiz por m*l.
Henrique fechou os olhos por um segundo.
— Eu sei.
Mas aquilo não resolvia.
Ele abriu os olhos novamente.
— E a carta?
Clara olhou para a bolsa.
Respirou fundo.
E, dessa vez, não hesitou.
Ela abriu.
Tirou o envelope.
Colocou sobre a mesa.
Entre eles.
O tempo pareceu parar.
Henrique olhou para o envelope.
Para o nome.
Para a própria caligrafia.
E, pela primeira vez desde que chegaram ali…
Ele não parecia no controle.
A mão dele se moveu lentamente.
Pegou a carta.
Como se estivesse tocando algo frágil.
Importante.
Antigo.
Ele não abriu imediatamente.
Apenas ficou olhando.
Em silêncio.
E Clara…
Sentiu que aquele era o momento.
O ponto sem volta.
Porque agora…
Não havia mais nada escondido entre eles.
Só a verdade.
E tudo o que ela podia causar.
.