Capítulo 08 Luisa

1094 Palavras
Luísa Narrando A voz dele parecia a do grandão tatuado da praia. Mas também podia ser coisa da minha cabeça. Por que ele não falou quem era? Por que ligou? Por que perguntou se eu tinha chegado bem? Abri os olhos devagar. E fiquei olhando pro telefone. Meu dedo quase tocando o botão de ligar. — E se eu ligar de volta? — pensei, o coração acelerando só de cogitar. — O que eu vou falar? "Oi, desculpa ter desligado na sua cara, quem é você mesmo?" Balancei a cabeça. — Melhor não. Quando de repente… — LUUUÍSAAAA! — AMIGA! Eu levei um susto tão grande que quase derrubei o celular. Olhei pra porta da casa. Yasmin e Luara entraram como um furacão, rindo alto. — Meu Deus! — falei, colocando a mão no peito. — Vocês querem me matar do coração? Yasmin veio correndo até mim. — Bom dia, bela adormecida! Laura já se jogou na cadeira do jardim. — A gente veio saber da fofoca. Revirei os olhos. — Vocês estavam lá, sabem da mesma fofoca que eu. Yasmin cruzou os braços. — Sabemos o que a gente viu. Queremos saber o que a gente NÃO viu. Laura concordou, balançando a cabeça. — Depois que a gente voltou do quiosque, vocês dois ficaram se olhando. — A gente não ficou se olhando — respondi rápido demais. Yasmin arqueou uma sobrancelha. — Tá. Então explica por que você ficou com essa cara de boba a noite inteira depois que ele foi embora. — Eu não fiquei com cara de boba. — Ficou sim — Laura confirmou. — A gente falou com você umas três vezes e você nem respondia direito. Passei a mão no rosto, sentindo o calor subir. — Gente… Yasmin se aproximou mais. — E aí? Ele falou alguma coisa? Fez alguma coisa? — Só ajudou com a cadeira. A roda tinha travado na areia. — E vocês conversaram? — Quase nada. — Mentira. — Verdade. Laura estreitou os olhos. — Então por que você tá com essa cara de quem passou a noite pensando nele? Abri a boca pra negar, mas fechei. Porque ela tinha razão. — Tá bom — suspirei. — Talvez eu tenha pensando um pouco. Yasmin bateu palmas. — Sabia! — Mas não foi nada demais, juro. Ele só foi educado. Me ajudou. E foi embora. Laura inclinou a cabeça. — Educado? Um cara daquele tamanho, todo tatuado, com cara de poucos amigos… foi educado? — Foi. — E você achou estranho? — Eu achei… diferente. As duas trocaram um olhar rápido. — Diferente como? — Yasmin perguntou. — O jeito que ele me olhou. Fiquei em silêncio por um segundo, lembrando. — Não teve pena. Não teve aquele olhar de coitadinha que todo mundo tem. Ele só me olhou como se eu fosse… normal. Laura ficou séria. — Isso é raro. — Pois é. Yasmin mordeu o lábio, pensativa. — E aí? Cê acha que ele vai aparecer de novo? Dei de ombros. — Não sei. Talvez sim. Talvez não. — Mas você queria que aparecesse? A pergunta ficou no ar. Fiquei olhando pro jardim por alguns segundos antes de responder. — Talvez. Laura sorriu. — Então a gente já sabe o que fazer. — O quê? — Voltar pra praia hoje. Yasmin concordou com a cabeça. — Se ele aparecer, ótimo. Se não aparecer, a gente pelo menos pegou sol e comeu um pastel. Soltei uma risada. — Vocês são doidas. — Doidas, não. Determinadas. Olhei pra uma, depois pra outra. Elas estavam com aquele brilho nos olhos de quem já tomou uma decisão. — Já que vocês tão tão animadas… — comecei. — JÁ! — as duas responderam juntas. Ri de novo. — Tá bom. Vamos. Yasmin já estava no celular. — Vou pedir um carro maior. Laura se levantou. — Vou lá em casa preparar minha bolsa. Enquanto elas se agitavam, eu fiquei parada. O sol aquecendo minha pele. O celular ainda na mão. Aquele número desconhecido ainda na tela. E uma sensação estranha no peito. — Será que ele vai estar lá? — pensei, o coração batendo um pouco mais acelerado. Não sabia a resposta. Mas uma coisa é certa. A noite passada tinha mudado alguma coisa dentro de mim. E eu doida pra ir atrás pra descobrir o quê. Manobrei minha cadeira devagar pelo jardim até a porta da sala. As meninas continuavam animadas atrás de mim, falando ao mesmo tempo, como sempre fazem quando inventam alguma coisa. — A gente precisa sair logo antes que o sol fique muito forte! — Yasmin disse, os olhos brilhando de empolgação. — E antes que a praia fique cheia — completou Laura, já remexendo a bolsa. Entrei no meu quarto e fui direto para o guarda-roupa. Abri a porta e comecei a puxar a cadeira mais para perto para alcançar a parte de baixo, onde deixo minhas coisas de praia. Enquanto isso, ouvi minha mãe da cozinha. — Vocês vão almoçar pela praia pelo jeito, né? Peguei minha bolsa grande de palha e comecei a colocar as coisas dentro: toalha, óculos de sol, protetor solar, carteira. — Acho que sim, mãe! — respondi. Ela apareceu na porta do quarto, cruzando os braços e olhando a movimentação. — Pelo jeito vão ficar lá a tarde inteira. Yasmin respondeu antes de mim. — A gente sempre fica! Minha mãe riu. — Eu sei como vocês são. Peguei o biquíni da gaveta. Preto. Simples, mas lindo no corpo. — A gente deve voltar só mais tarde — falei, tentando parecer casual. Minha mãe arqueou uma sobrancelha. — Mais tarde quanto? Respirei fundo antes de responder. — Acho que até a noite, mãezinha. — Até a noite? Ela me olhou com aquela cara de mãe desconfiada. Dei de ombros. — Até a noite. — Mas por dentro pensei outra coisa: "Com certeza até a noite. Porque um homem daquele tamanho… não vai pra praia em plena sexta-feira só pra passar algumas horas." Alguma coisa me dizia que ele ia estar lá de novo. E eu queria descobrir se essa sensação era loucura da minha cabeça… ou não. Balancei a cabeça, afastando o pensamento, e voltei a me arrumar. Coloquei o biquíni preto e puxei por cima um vestidinho leve de praia, cheio de flores pequenas. O tecido era soltinho e confortável, perfeito para o calor. Passei hidratante nas pernas de novo e depois peguei o protetor solar. — Luísa, você já passou protetor hoje? — minha mãe perguntou. — Já, mas vou retocar antes de sair. Continua...
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