Capítulo 46 Luisa

1440 Palavras
Luísa Narrando Eu ainda tento entender como um dia que começou tão comum terminou comigo sentada num restaurante chique, de frente pra um homem que parece ter saído de um filme… mas fala igual cria de favela, com uma marra que não combina nada com o jeito cuidadoso que ele me trata. Desde que ele me pegou no colo mais cedo, eu não consigo tirar essa sensação do peito. É como se, quando eu tô nos braços dele, o mundo ficasse leve. Como se eu ficasse leve. Como se nada do que aconteceu tivesse peso suficiente pra me alcançar ali. Os braços dele firmes, o peito largo, o jeito que ele me segura como se eu fosse frágil e preciosa ao mesmo tempo. Eu fecho os olhos e ainda sinto o calor dele na minha pele, o cheiro dele no ar, a forma como ele me colocou no banco do carro sem esforço, como se eu não pesasse nada. Ele é bonito. Bonito num nível que intimida. O rosto marcado, os olhos escuros que parecem ler cada pensamento meu, as tatuagens que sobem pelo braço e somem na camisa. Mas não é só isso. É cavaleiro. É educado. É atento. É protetor. Protetor até demais. E isso enche minha cabeça de perguntas. — "Quem é esse homem?" — me pergunto, observando ele do outro lado da mesa. — "Por que ele age como se tivesse uma responsabilidade comigo? Por que ele me olha como se já me conhecesse há anos? Por que ele sabe tudo sobre mim e eu não sei nem o nome dele?" E por que, mesmo eu sabendo que isso não faz sentido nenhum… eu me sinto segura? Segura demais pra alguém que eu conheci na praia, que apareceu do nada, que tem cara de quem pode tudo e todos ao redor. Seguro. Essa é a palavra. Ele me faz sentir segura. Eu balanço a cabeça, tentando espantar os pensamentos, quando percebo ele parado na minha frente, com o copo na mão, me olhando com aquele meio sorriso torto. O braço apoiado na mesa, o corpo inclinado pra frente, os olhos fixos em mim. Esperando. — "Ele esperou eu sair dos meus pensamentos" — percebo, sentindo um calor subir pelo rosto. — "Ele não me apressou. Só ficou ali, olhando." Eu pego minha taça, bato de leve no copo dele. — A nós dois. Ele sustenta meu olhar. Os olhos escuros brilhando com a luz do restaurante. — A nós dois. — ele repete, a voz grave, firme. — "A nós dois" — penso, sentindo o peso daquelas palavras. — "Como se fosse uma promessa." O jeito que ele fala não é de brinde. É de quem tá selando um compromisso. E eu, b***a, tô ali, segurando minha taça, aceitando. A gente começa a comer, e ele não tira os olhos de mim. A cada garfada, eu sinto o olhar dele. Não é incômodo. É… diferente. Como se ele estivesse realmente interessado em cada movimento meu. — Me explica uma parada — ele fala, apoiando o braço na mesa. — O que tu faz mesmo? Eu engulo a comida antes de responder. — Eu sou formada em design gráfico… fotografia… essas paradas. — falo, ainda meio sem jeito de falar de mim. Ele franze a testa, a cabeça inclinada. — Fotografia como? Eu dou um sorrisinho, mais confortável agora. — Eu sou fotógrafa. As lojas me chamam pra fotografar as modelos vestindo as roupas, pra divulgação, catálogo, redes sociais… Ele faz uma cara de quem tá realmente tentando entender, os olhos percorrendo meu rosto. — Então tu que faz as fotos que fazem a galera querer comprar as roupas? — Basicamente isso. — Maneiro pra c*****o. — ele fala com uma admiração tão sincera que me pega desprevenida. — "Maneiro pra c*****o" — repito mentalmente, sentindo um calor gostoso no peito. — "Ele acha maneiro o que eu faço." A gente continua conversando enquanto come, o papo fluindo leve, natural. Como se a gente já tivesse feito isso outras vezes. Como se fosse normal. Ele pergunta das modelos, eu conto umas histórias engraçadas. Ele ri, aquela risada solta que me faz rir junto. Eu pergunto o que ele faz, ele desconversa, diz que tem uns negócios, que resolve umas paradas. Não aperto. Sei que não vou conseguir resposta hoje. Quando eu termino de comer, ele limpa a boca com o guardanapo, os olhos ainda em mim. — Quer sobremesa? Eu balanço a cabeça. — Não… eu só quero ir pra casa. Ele me encara. A sobrancelha erguida, o sorriso de canto. — Pra casa por quê? Tu podia muito bem terminar esse dia comigo… em uma das minhas casas. Eu ergo a sobrancelha. O coração dá um salto. — Então pelo jeito você é um magnata mesmo, hein? — provoco. — "Uma das minhas casas"? Então você tem muitas casas? Ele sorri de canto. Aquele sorriso que me desmonta. — Tu não viu nada ainda. Mas vou te falar uma coisa… — ele se inclina um pouco pra frente, a voz mais baixa — nenhuma casa sem você tem valor nenhum. Meu coração dá uma batida estranha. Uma batida que eu não sei nomear. — "O que esse homem faz comigo?" — penso, tentando disfarçar o calor que sobe pro rosto. — Eu quero um milk-shake de ovomaltine. — falo, mudando de assunto. Ele chama o garçom com um gesto, sem nem olhar pro lado. — Um milk-shake de ovomaltine pra ela… e um pudim pra mim. A gente fica ali, dividindo a sobremesa. Ele me deixa provar o pudim, eu ofereço o milk-shake. Risadas pequenas, olhares demorados, aquele silêncio confortável que só existe quando duas pessoas tão bem juntas. Até ele perguntar: — Quer mais alguma coisa? — Não. — respondo, satisfeita. — Então espera só um minutinho. — ele fala, pegando o telefone no bolso. Ele se afasta um pouco da mesa, o telefone no ouvido. Eu não escuto tudo, mas o jeito que ele fala não é de quem pede. É de quem manda. A postura muda, o olhar endurece, a voz fica mais grave. Mesmo de longe, dá pra sentir a autoridade. Quando ele volta, senta na minha frente e fala, naturalmente: — Depois tu avisa tua mãe que tu vai passar a noite fora. Eu quase engasgo com o último gole de milk-shake. — Eu não posso! — falo, os olhos arregalados. Ele me encara, calmo. — Pode sim. Tu tem 23 anos. E eu vou cuidar de você. Bem melhor do que outros que dizem ser teus amigos. O jeito que ele fala isso me dá um arrepio. A certeza na voz. A tranquilidade de quem já decidiu. O olhar que não aceita negativa. — Eu não tenho roupa, não tenho nada. — tento argumentar. — Eu saí de casa só pra trabalhar. Ele dá de ombros, como se fosse a coisa mais simples do mundo. — Sem neurose. Pra onde tu vai não precisa de roupa. Eu fico vermelha. A cara esquenta, o coração acelera. — Como assim?! — falo, a voz saindo mais aguda do que eu queria. Ele ri. Aquela risada gostosa que me desarma. — Tô brincando. — ele diz. — A gente passa no shopping, compra uma muda pra você… e pra mim também, que eu também tô sem nada. Apesar que pra onde eu vou tem roupa minha. Ele pausa, os olhos brilhando. — Se tu quiser, pode ficar sem e vestir uma minha. Eu balanço a cabeça, rindo, nervosa. O coração disparado. A mente rodando. — Você deve estar me confundindo com outra pessoa. — falo, tentando desfazer o clima. Ele me olha sério. O sorriso some. A brincadeira acaba. Os olhos dele ficam pesados, diretos. — Não tô te confundindo com ninguém. — a voz dele sai grave, firme. — Tu é única. E ele fala isso com uma certeza que desmonta qualquer argumento que eu poderia ter. Eu fico parada. A taça vazia na mão. O olhar dele preso no meu. O peitø subindo e descendo devagar. — "Única" — repito mentalmente, sentindo o peso da palavra. — "Ele me chamou de única." Eu não sei quem ele é. Eu não sei de onde ele veio. Eu não sei por que ele age como se tivesse que me proteger do mundo. Não sei o nome, não sei a idade, não sei o que ele faz, não sei de onde vem o dinheiro que paga esse restaurante, essa roupa, esse carro. Mas eu sei que, quando ele me olha, parece que nada mais importa. E isso… é o que mais me assusta. Continua...
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