Magnata Narrando
Concordei, colocando a mochila apoiada nela com cuidado. Ela segurou firme.
Empurrei a cadeira até o carro que já tava parado ali perto, um sedan preto que o Blindado tinha deixado. Abri a porta do carona, peguei ela no colo de novo — leve, os braços dela enlaçados no meu pescoço — e coloquei no banco com cuidado. O corpo dela encaixando fácil no meu, como se fosse feito pra isso.
Fechei a cadeira de rodas, joguei no banco de trás.
— Nossa… — ela soltou, me olhando. — Super ágil… já esteve com uma cadeirante antes?
Fechei a porta com calma. Olhei pra ela pelo vidro.
— Vou ficar calado pra não ser grosso, tá bom, Luísa? — falei, dando um selinho rápido nela.
Dei a volta e entrei no carro.
Liguei o motor e puxei. O carro deslizou pela orla, as luzes do Rio brilhando lá fora.
O caminho foi tranquilo. Silêncio confortável. Só o som baixo do carro e a respiração dela ali do lado. Cada curva, cada farol, eu sentia a presença dela. O cheiro dela tomando conta do carro.
— "Isso aqui é perigoso" — pensei, apertando o volante. — "Muito perigoso."
Chegamos.
Parei o carro na frente do prédio dela, mais afastado. Saí, fui até atrás, puxei a cadeira e montei rápido. Os movimentos já automáticos.
Abri a porta, peguei ela no colo e coloquei na cadeira. Ajeitei os braços dela nos apoios.
— Vou te levar até lá em cima.
— Nem pensar. — ela cortou na hora. — Eu consigo subir daqui. Não precisa entrar.
Cruzei os braços, olhando.
— Tá com vergonha de mim?
Ela soltou uma gargalhada.
— Se você não tem vergonha de mim… por que eu teria de você?
Cheguei mais perto, abaixando um pouco.
— Um homem andar do teu lado e ter vergonha de tu… — balancei a cabeça. — ou é baitola… ou é escroto.
Parei.
— Porque qualquer homem ficaria doido pra andar contigo.
Ela sorriu, meio sem jeito, os olhos brilhando.
— Deixa de ser b***a… — falou, já girando a cadeira. — Eu vou subir. Já vi que vou ouvir um monte.
Deu uma pausa, me olhando por cima do ombro.
— A gente se fala.
Levantei a sobrancelha.
— Nossa… usou e descartou foi?
Ela riu, balançando a cabeça enquanto começava a se afastar. A cadeira rodando suave na calçada.
E eu fiquei ali…
Olhando ela ir embora.
Os cachos balançando. As mãos firmes nos aros. A luz do prédio iluminando o caminho.
Com uma certeza batendo forte no peito:
Isso aqui tá longe de acabar.
Ela entrou no prédio, a porta fechou.
Fiquei mais um tempo ali, encostado no carro, os braços cruzados.
— "Você vai voltar pra mim, Luísa" — pensei, um sorriso de canto abrindo no rosto. — "Você sabe disso. Eu sei disso."
Subi no carro, dei partida. O ronco do motor cortou o silêncio da noite. E na minha cabeça, uma certeza: amanhã… ou depois… ou daqui uma semana… ela ia ser minha. E não tinha ninguém nesse mundo que ia me impedir.
Encaixei a marcha e puxei. O carro deslizou pela orla vazia, as luzes do Rio brilhando no retrovisor. A cabeça ainda tava lá na praia. Na Luísa. No beijo. Na sensação dela nos meus braços.
— "Essa mina vai ser minha ruína" — pensei, apertando o volante. — "E eu vou gostar de cada segundo."
Subi o morro já no automático. As vielas, os becos, as luzes amarelas dos postes. Os cria na contenção levantaram a mão quando passei. Respondi com um aceno, sem parar. A noite ainda tava no começo.
Foi quando vi.
Valente. Subindo na moto. Cara fechada. Postura de quem tá pronto pra fazer merda. O motor da moto já roncando, o capacete na mão.
Meti a mão na buzina. Apertei até o som ecoar no beco.
Ele olhou pra trás. O rosto dele na luz do farol. Maxilar travado. Olhos vidrados.
— "Esse aí vai fazer besteira" — pensei, já parando o carro.
Foi nessa hora que o portão da casa dele abriu.
— VITOR!
Paulinha. Cabelo solto, roupão, cara de desespero.
Ela gritou de novo.
— VITOR, PELO AMOR DE DEUS!
Valente enfiou o capacete na cabeça. Ignorou.
Ela correu até o portão, os braços abertos.
— VITOR!
Olhei pra um, olhei pro outro. Valente com a mão no guidão, pronto pra arrancar. Paulinha segurando no portão, os olhos marejados.
— "p***a" — pensei, já decidindo.
Desci do carro.
— PAULINHA! — gritei. — ENTRA.
Ela me olhou. Confusa.
— Entra no carro. AGORA.
Ela hesitou. Olhou pro Valente. Ele não olhou de volta.
— Não precisa… eu vou esperar ele voltar.
Dei um passo na direção dela. A voz baixou, mas pesou.
— Não tô pedindo. Tô mandando. ENTRA.
Ela travou. Depois obedeceu. Abriu a porta do carro e entrou.
Olhei pro Valente. Ele já tinha virado a cara. A moto roncando, o corpo tenso.
— "Depois eu vou atrás desse maluco" — decidi.
Voltei pro carro. Bati a porta.
Paulinha já tava com a mão no rosto, segurando o choro.
Olhei pra ela.
— Desenrola.
Ela me olhou.
— O quê?
— O assunto. Desenrola. Agora.
Ela respirou fundo.
— Não quero te preocupar…
Soltei uma risada sem humor.
— Já me deixou preocupada. — falei, firme. — Tô bolado com esse lance de vocês.
Ela desviou o olhar.
— Não é nada…
— Nada? — cortei. — O Valente quase saiu voando de moto agora. Tu gritando no portão. Isso não é nada não.
Ela ficou em silêncio.
Eu continuei. A raiva subindo, mas não era raiva dela. Era de ver dois que eu respeito se perdendo.
— Sabe de uma coisa, Paulinha? Eu nunca amei ninguém. Nunca tive ninguém do lado. Mas vocês dois… — olhei pra ela. — O casal que eu mais admiro nessa pørra.
Ela levantou o rosto.
— Vocês sempre tiveram respeito. Cumplicidade. Parceria. — a voz saiu mais baixa. — E agora tão deixando essa p***a de relação ir pro ralo por causa de filho?
Ela desviou.
— Eu sei…
— Então me diz. O que tá acontecendo?
Ela passou a mão no rosto.
— O Valente… ele tá pior do que antes.
— Pior como?
— Ele não aceita mais esperar. Toda conversa termina em briga. Ele acha que eu não quero… mas não é isso.
Fiquei olhando.
— Eu quero, Magnata. Juro que quero. — os olhos dela marejaram. — Mas eu também tenho meus sonhos. Meu trabalho. E ele não entende que não é sobre não querer… é sobre hora certa.
Respirei fundo.
— Já falou isso pra ele?
— Já. Mas ele só escuta metade.
Balancei a cabeça.
— Deixa comigo.
Ela me olhou.
— Você vai falar com ele?
— Alguém precisa. — falei. — Porque se vocês deixarem essa pørra acabar… vão ser dois idiøtas perdendo o que muitos não conseguem ter.
Ela sorriu fraco.
— Obrigada.
— Agradece quando vocês dois estiverem resolvidos.
Continua...