Capitulo 2

1134 Palavras
Geralmente quando levantava, às cinco da manhã, dona Judith já estava varrendo o terreiro. Ascendo o fogão de lenha, colocando água para ferver, para só então ir escovar os dentes. No horizonte, o sol nascia aos poucos, iluminando tudo a sua frente com sua cor forte. Prendo meu cabelo num coque, pegando a bacia com os pratos para lavar. – Bom dia, Judith – diz Valdirene, nossa vizinha, ao pé da cerca. – Bom dia. – Bom dia, Maria – diz me olhando. Paro de lavar os pratos, agachada em frente a bacia, para olhar para a mulher branca, bem vestida e de pele sedosa. A pouco tempo havia reformado a casa, segundo ela com ajuda da filha que trabalhava no Rio de Janeiro. Não era casada, muito menos amigada. Toda semana víamos um homem diferente em sua casa. – Bom dia, dona Valdirene – digo voltando a lavar os pratos. – Já conseguiu emprego? Emprego ali, era como água no meio do sertão. Difícil. A maioria das pessoas da cidade mais próxima, queria alguém que trabalhasse de empregada doméstica e que dormisse no emprego. Não podia dormir no emprego. Minha mãe precisava de mim e o dinheiro não valia a pena. Sempre queriam pagar o mínimo possível, por bastante trabalho e responsabilidade. – Ainda não. – Lidiane disse que estão precisando de uma menina onde ela trabalha. Pensei em você – Ergo novamente o olhar, olhando para ela e depois para minha mãe que para de varrer – Lá ganha bem e você pode ajudar sua mãe. – O mundo lá fora é perigoso e Maria não conhece o mundo não – Minha mãe argumenta. – Se sempre pensasse dessa forma, comadre, nunca tinha deixado Lidiane sai de debaixo das minhas asas. – Lidiane é menina esperta – Minha mãe rebate – Maria ainda não conhece a maldade das pessoas. – Mainha – digo baixo. – Tô falando a verdade – Ela me olha – O que você conhece? O máximo que já foi sozinha, foi na cidade aqui perto. Fora isso, nunca saiu daqui – Ela volta a olhar para Valdirene – O melhor a se fazer, é ela tenta arrumar um emprego na cidade – Ela se afasta, entrando em casa. Lavo mais um prato, deixando de lado. Era uma boa oportunidade. Já havia aceitado que não encontraria nada melhor naquele lugar. – Queria ir – murmuro. – E não tá errada não – diz Valdirene – Sua mãe que não tá analisando direito. Lidiane lá ganha muito dinheiro. Você viu que reformei minha casa, não foi? – Assinto – Então. Você também pode ganhar dinheiro lá e mandar dinheiro pra cá. – Minha mãe não vai deixar – Apesar de ter dezoito anos, me sentia com a idade de Maria Júlia. – Largue a mão de ser b***a e converse com ela. Explique que vai ser bom pra vocês duas. No final das contas, Valdirene tinha razão. Minha mãe não podia me prender o resto da minha vida. Haveria uma hora, que iria ter que ir embora que, precisaria seguir com minha vida. Termino de lavar a louça, entrando com os pratos. Minha mãe misturava o ** de café a água fervendo. – Mainha. – O que foi, Maria? – diz sem me olhar. – Mainha, deixe eu ir. Ela me olha pasma. – Acha mesmo que irei deixar você ir para uma cidade onde não conhece ninguém? Se aventurar? – Aqui não tem nada pra mim. – Pode me ajudar na roça. – Até quando?! – Altero a voz irritada. Não aceitava aquele destino. – Até quando Deus permitir – Ela rebate no mesmo tom – Você nunca me deu trabalho. Não venha me dar agora. Deixo a bacia no chão, olhando dentro de seus olhos. – Vou com sua bênção ou sem. Sua expressão se torna incrédula. Sabia que uma das piores palavras a serem ditas, éram àquelas e para minha mãe eram as mais dolorosas, já que nos criará com tanto sacrifício. – Que vá então. Mas toda vez que se lembrar de mim, ande mais pra frente – diz antes de dar as costas para mim e ir para o quarto. Parada no meio da cozinha, com apenas o fogão de lenha, me senti dividida. Entre ir e conseguir realizar meus sonhos e ficar, e seguir o que minha mãe queria. Saio de casa com destino a casa de Valdirene. – Dona Valdirene – Chamo no portão de palete. Ela parece na porta da sala. – Entre – Obedeço – Falou com sua mãe? – Falei sim. – Ela deixou? Engulo em seco assentindo. – Deixou. Só não tenho dinheiro para pagar a passagem. Ela sorri, afagando meu ombro. – Se preocupe com isso não. Arrumo o dinheiro. – Arruma? – pergunto surpresa, a vendo se mover na sala bem arrumada e cheirosa. – Tem um ônibus que sai hoje daqui pro Rio. Você vai nele. – Mais já? – Pra quê perder tempo? – Ela me olha – Se quiser que outra pessoa tome seu lugar, deixe pra ir depois. – Não. Não. Não – digo rapidamente, sem querer deixar aquela oportunidade escorrer entre meus dedos. – Então vá arrumar suas coisas. Não precisa levar muita roupa não, lá eles dão. Pegue seus documentos. Assinto, deixando a casa correndo. Pego uma mochila velha em baixo das cama, tirando algumas coisas que havia dentro. – Onde você vai? – Maria Júlia pergunta, parando de limpar a casa. Ergo a cabeça sorrindo. – Vou trabalhar no Rio de Janeiro. – E a mãe? – Você ajuda ela. Só é fazer o que eu faço. – Não sei trabalhar na roça não, Maria – argumenta assustada. – Você aprendi. Eu aprendi com a idade da Maria Luíza. Ela balança a cabeça nervosa. – Não é justo você ir embora e a gente ficar para trás. Pego poucas peças de roupa, colocando na mala. Não era as melhores, mas serviria até comprar umas boas. – Não tô deixando vocês não, Maria Júlia. Quero poder ajudar a mãe de outra forma. – Você quer é se livrar da gente – diz dando as costas. Por último pego meu RG. Era o único documento que tinha além da certidão de nascimento. Saio do quarto, parando na porta do quarto de minha mãe, a encontrando arrumando os caçula. – Mãe – Chamo sem conseguir atrair seu olhar – Valdirene disse que tem um ônibus que vai sair hoje daqui. Vou nele – Ela continua me ignorando – Eu já vou, mãe – digo baixo, numa última tentativa. Dona Judith não me olha. Baixo minha cabeça, saindo de casa. Não me despeço dos meus irmãos. Odiava despedidas e sabia que se fizesse, perderia a coragem a acabaria ficando e eu não podia ficar.
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