Capitulo 5

868 Palavras
A sala da casa era simples. Havia apenas dois sofás de dois lugares velhos e uma televisão perto da janela. Pelo menos podia assistir. De vez em quando, ouvia a televisão de Valdirene de casa, principalmente a novela. Não conhecia as pessoas, mas sabia reconhecer suas vozes. O chão estava tão limpo, que dava até para ver o reflexo. Uma mulher alta, corpo com curvas generosas se aproxima. Ela lembrava Valdirene, mudando apenas a cor do cabelo num tom mais escuro que castanho– claro. – É essa aí? – pergunta olhando para Lidiane e depois para mim. Lidiane assenti. – Maria, essa é minha tia Jô. Sorrio, arrumando a alça da mochila no ombro. – Prazer em conhecer a senhora. – Espero que a Lidiane já tenha explicado tudo. – Ela ainda não me disse nada não – digo olhando para Lidiane, que estava desconfortável ao meu lado – No que vou trabalhar? – pergunto para Jô. – Não disse nada mesmo à ela? – Jô pergunta irritada para Lidiane. – Não – diz sem olhar para ela. Jô solta o ar dos pulmões bruscamente, colocando as mãos na cintura. – Vai trabalhar como p********a, querida. Franzo o cenho confusa. – Mas dona Valdirene não disse nada sobre isso não. – Se ela dissesse, você e outras não estaria aqui. – Não quero trabalhar com isso não – digo rapidamente – Ainda sou moça... Ela ergue uma sobrancelha, sorrindo de canto. Lidiane me olha arregalando um pouco os olhos. – Melhor ainda. Vai valer mais. – Eu não quero e não vou vender meu corpo! – digo o mais alto que posso, girando os calcanhares em direção da porta. – Acha mesmo que vai simplesmente embora? – diz Jô entre dentes, antes de sentir seus dedos em meus cabelos e meu corpo ser puxado para trás – Não vai mesmo! – Ela me arrasta sobre o piso – Vai me pagar cada centavo que a trouxe até aqui. Toda a comida que comeu e toda bebida que bebeu!. – Tia, solta ela! Você vai machucar ela! – diz Lidiane assustada. Arranho e belisco o braço de Jô tentando me soltar. Ela me solta, para me bater. – Se não quer aprender por bem. Vai aprender por m*l – Ela desfere um t**a no meu rosto, que o faz virar para o lado. Seguido por um murro e outro t**a. Não conseguia chorar, só gritar para ela parar. Inclinada sobre meu corpo, ela me segura pelo cabelo, me fazendo sentar e a olhar nos olhos. Meu rosto estava ardendo e tinha quase certeza que tinha uma parte que havia algum corte. – Você vai trabalhar para mim, até quando eu quiser. Até este dia, vai ser uma das minhas prostitutas e vai me dar lucro – diz entre dentes, antes de soltar meu cabelo. Meu corpo tremia levemente, quando Lidiane se aproxima em passos silenciosos, depois que a tia se afasta. Olho para ela com os olhos arregalados e com lágrimas molhando meu rosto. – Não era pra minha mãe ter mandado você pra cá – diz baixo – Aqui não é lugar para você não, Maria. – Por quê sua mãe mentiu para mim? – questiono em meio ao choro, abraçada as minhas pernas. Lidiane pisca algumas vezes, evitando que alguma lágrima escapasse seu rosto. – Minha mãe ganha por cada menina que ela manda pra cá. Meus lábios tremem, quando lembro de minha mãe dizendo que não conhecia a maldade humana. – Quero ir embora, Lidiane. – Também queria que fosse embora. Mas não como. Não tenho dinheiro o suficiente para mandar você embora. Só havia 100 reais na minha mochila. Só conseguiria chegar na rodoviária, não sabia nem quanto custava a passagem para o Ceará. Baixo a cabeça chorando. Lidiane se aproxima mais, estendendo a mão em minha direção. – Vem. Seguro sua mão, sentindo meu corpo reclamar ao levantar. Ela amarra meu cabelo, passando ás mãos em meu rosto. Em seguida, pega minha mochila e caminha em direção de uma escada oval. Passamos pelo segundo andar, onde algumas meninas circulavam, fingindo não ter visto a cena de Jô. Ocupadas com uma espécie de limpeza. Paramos no terceiro andar, sem ninguém por perto. Há pelo menos seis portas no corredor. Lidiane abre a quarta porta do lado direito, mostrando um cômodo um pouco espaçoso com duas beliches. – É aqui que você vai dormir – Entro no quarto, notando duas cômodas uma do lado da outra e um guarda– roupa de duas portas – Também durmo aqui, naquela cama ali – Ela aponta a beliche do lado esquerdo – Pode dormir na cama de cima. Marcela dormia lá. – E onde ela está? Lidiane caminha até a beliche, tirando o lençol e a fronha do travesseiro, virando o colchão por último. – Vou ver se encontro um lençol e uma fronha limpa, e um cobertor – diz andando até a porta – Essas duas gavetas de cima, ainda têm roupa da Marcela. Vou ver se arrumo uma caixa, pra colocar. Só não mexe nas coisas das outras meninas e nem no guarda roupa, as coisas da Kauane fica lá. Ela sai, me deixando sozinha.
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