Jess estava muito distraída, seus pensamentos a levaram longe, por isso não viu a pessoa que caminhou em sua direção, ela não notou nada até que as duas pessoas colidiram é que perceberam a presença um do outro.
- Desculpa.
Essa palavra saiu automaticamente da boca de Jess, ela nem prestou atenção à pessoa que estava à sua frente, no entanto, ficou claro que a outra pessoa iria xingar, mas parou no momento em que a reconheceu.
- Jess? É você mesmo? Nem acredito que posso falar com você tão facilmente, eu já tentei tantas vezes, mas a madre superiora não me permitiu.
- Hanna? Quanto tempo.
O que parecia em um minuto ser o início de uma grande confusão, na verdade foi o reencontro de duas boas e melhores amigas, claro, quando Damian dava um tempo para elas, pois ele era bem presente na vida de Jess.
- Quando você voltou? Por que não foi me procurar na mesma hora? Esqueceu que tem uma melhor amiga é?
- Claro que não esqueci de você Hanna, é que eu cheguei ontem, já estava anoitecendo e agora... - Ela deu uma pausa e olhou no relógio. - Não são nem oito da manhã. não é um horário aceitável para visistas, eu acho. Mesmo que sejamos melhores amigas.
- Então eu vou te descupar, mas só dessa vez, se você me escluir da sua vida de novo eu nunca mais falo com você, sua ingrata. Mas, vem comigo, eu vou te levar para tomar um café comigo.
- Você está indo para o trabalho? Não quero te atrapalhar.
- Não tem problema, por você eu chego atrasada, eu sou a queridinha da minha chefe mesmo.
Jess olhou para trás já ansiosa, só de pensar em voltar à padaria e ver aquele casal que a incomodou tanto seu coração deu um aperto, então ela optou por dar uma desculpa para a amiga, do que voltar para um lugar onde se sentiu incomodada.
- Na verdade, eu tenho que levar o pão para casa, Meus pais devem estar me esperando. Não sei se você sabe, mas a minha mãe está doente, então eu quero passar um tempo com eles.
- Sério? Eu não soube de nada, mas eu tenho passado tanto tempo no trabalho e outras coisa da vida, que eu não pude visitá-los nos últimos tempos. Mas, o que a tia Mirian tem?
- Ela está doente, mas o pior é que ela tem que fazer uma cirurgia, é um pouco urgente, mas nós ainda não temos o dinheiro, então a barra está pesada por lá.
- Meu Deus amiga, que loucura, da última vez que a vi ela parecia tão saudável. Sinto muito que vocês tenham que passar por algo assim, se eu puder fazer alguma coisa para ajudar, não hesite em me dizer. Sabe que te considero como um irmã.
- Eu aprecio muito a sua amizade e eu também te considero como uma irmã. - Jess abraçou Hanna bem apertado, ela sente muita saudade da amiga, ela não podia ter contato com as pessoas de fora do convento enquanto era noviça, apenas quando fizesse seus votos é que poderia trocar cartas, mas ela ainda não havia se decidido e agora a vida decidiu por ela. - E, eu realmente vou precisar da sua ajuda. Se depois do trabalho você puder me ajudar a elabora um currículo aceitável, eu vou te agradecer infinitamente. Preciso de um emprego o mais rápido possível.
- Isso quer dizer o que eu penso que isso quer dizer? - Um grande sorriso se formou no rosto de Hanna. - Você desistiu de vez dessa história de ser freira?
- Eu não disse isso, isso quer apenas dizer que eu voltei por tempo indeterminado. Nesse momento os meus pais precisam muito de mim e eu não vou conseguir continuar sabendo que eles não estão bem. Você pode me ajudar depois do trabalho?
- Claro que eu posso te ajudar, mulher, na verdade, eu posso fazer mais do que te preparar um currículo insoso, eu vou falar com a minha chefe e vou conseguir um trabalho para você lá na empresa. Como eu disse, eu sou a queridinha dela e ela não vai me negar algo desse tipo, na verdade, acho que até tenho a vaga perfeita para você.
- Tem certeza Hanna? Eu não quero te prejudicar de nenhuma forma. Você sabe, eu não tenho experiência nenhuma.
Mesmo se sentindo surpresa com a empolgação da amiga, Jess se sentiu um pouco sobrecarregada, pois tudo em sua vida estava acontecendo rápido demais. As mudanças pareceram muito drásticas pensando que ontem mesmo ela ainda estava no convento, no entanto, ela não pode reclamar. Se tudo está acontecendo dessa maneira é pela vontade de Deus, ela apenas tem que agradecer por tudo o que tem.
- Não se preocupe com nada, quando eu sair do trabalho, passo na tua casa e te dou a resposta definitiva.
Hanna olhou Jess de cima à baixo e disse emocionada.
- Ainda não parece real que você esteja aqui de novo.
Elas deram um último abraço e cada uma foi para uma direção. Jess não conseguiu tirar o sorriso do rosto, ela está feliz por ter reencontrado a sua amiga.
Quando ela chegou em casa, o pai havia preparado a mesa do café, ele colocou três lugares na mesa, mesmo sendo improvável que sua mãe descesse para a refeição, ela acordava um pouco mais tarde, o seu pai lhe disse. Ele estava sozinho sentado à mesa, lendo o jornal em um tablet.
- Você demorou, Já tomou café na padaria, como costumava fazer antes de partir?
- Não, ainda não tomei o café. A mamãe ainda não se levantou?
- Como eu disse antes, ela acorda mais tarde agora e quando acorda, não é sempre que ela está disposta a vir até a mesa. Minha presença não é suficiente?
Ela sabia que o pai está apenas fazendo um gracejo, então não se incomodou em responder, antes do seu tempo no convento, sua mãe sempre se levantou cedo, nunca depois das sete, estava sempre bem disposta, arrumada e com um sorriso no rosto.
O silêncio imperou na mesa, ela e seu pai nunca ficavam sem assunto, mas agora, um silêncio esmagador se instalou entre eles, tantas coisas sendo ditas através do silêncio, principalmente lamentos, diante da situação. E, o dia estava apenas começando.
- Eu encontrei a Hanna na volta para casa. Ela estava indo para o trabalho, mas parou para conversar comigo, parece que nunca nos separamos, que estivemos sempre juntas.
- Que bom, a Hanna sempre foi uma boa amiga para você. Como ela está? Você deve fazer uma visita para ela. Ela sentiu muito a sua falta.
- Eu sei, ela fez questão de me dizer. Além disso, ela me disse que vai conversar com a chefe dela, sobre um emprego para mim, lá na empresa onde ela trabalha.
Enfim meu pai olhou para mim, pois na maior parte desse tempo, ele estava concentrado em seu tablet, ele pareceu até mesmo distante. Mas, agora ele olhou verdadeiramente para a Jess.
- Isso é bom filha, espero que sua mãe possa esperar por esse tempo, para então fazer a cirurgia. Eu temo que ela...
A voz dele foi morrendo conforme ele terminava a sentença. Jess estava tão angustiada quanto ele, nem pôde se sentir feliz com a ajuda da amiga. Mais que angustiada, ela se sentiu derrotada, tudo o que ela pode fazer ainda parece pouco, ver sua mãe definhando é doloroso demais, a morte não parece distante de sua família nesse momento, essa realidade é difícil de encarar, ainda mais para ela que soube disso tão de repente. Seu Carlos segurou o braço de sua filha e lhe disse:
- Mas, será uma imensa ajuda que você tenha um emprego quando vendermos a casa, um salário a mais faz realmente uma grande diferença. Além disso, ter você e a sua mãe comigo, realmente é o que eu mais preciso nessa vida, nada mais importa. Nós sentimos muitoa a sua falta Jess, sua mãe chorava todos os dias quando você foi. Depois ela se conformou, mas essa casa nunca mais foi a mesma.
- Eu também senti muita saudade de vocês, eu rezei todos os dias para Deus os proteger e guardar e ele nos trouxe até aqui.
Enxugando algumas lágrimas, seu Carlos concluiu:
- Agora tome o seu café, pois senão ele vai esfriar.
Jess, se serviu e serviu também o pai, ela sabe que ele não tem se alimentado direito. A cabeça dela não consegue se desviar do fato de que muito em breve eles terão que deixar a segurança da casa própria para viver de aluguel. Isso será sem dúvidas, bem doloroso para todos eles quando chegar o momento, ela mesma viveu sua vida toda antes do convento nessa casa, todas as suas memórias, mais antigas estão de algum modo ligadas a esse lugar, esse bairro tão tranquilo, onde eles conhecem a todos. Seus pais lutaram em toda a sua juventude para conquistar esse bem, que tem muito mais a ver com ser família, do que com o valor financeiro. Essas paredes guardam lembranças que nem eles mesmo se recordam, como as marcações de altura de Jess, que estão todas marcadas no batente da porta do quarto dela. A mancha no chão da garrafa de vinho de seu pai que ela quebrou sem querer enquanto praticava com seu patins dentro de casa, mesmo os pais tendo a alertado para não fazer isso.
Eram coisas demais a se pensar, assim, quando ela terminou a refeição, ela decidiu ir ao seu lugar de pensar. Para ela era a biblioteca, no passado, ela já teve verdadeiras epifanías naquele lugar, quem sabe dessa vez ela poderia encontrar uma solução para os problemas de sua família, mesmo que fosse pouco provável, ela decidiu tentar.
Foi assim que ela se despediu do pai e seguiu em direção à biblioteca, ela sorriu ao lembrar do lugar.