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1397 Palavras
O ar na sala ficou mais pesado depois daquela frase. “Não muda… mas muda o que vai acontecer daqui pra frente.” Luna sentiu isso como uma ameaça, mesmo que ninguém tivesse levantado a voz. Theo se mexeu no colo dela, inquieto, como se também sentisse a tensão. — Mama… eu quero ficar no colo — ele murmurou. — Tá aqui, meu amor… tá aqui. Ela passou a mão nas costas dele, tentando manter a calma. Dorian deu um passo para trás, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado agora. — Ninguém aqui vai te obrigar a nada — ele disse, mais baixo. — Mas a gente também não pode fingir que isso não existe. Lucian cruzou os braços. — Seu nome não apareceu ontem por acaso na rua. Luna levantou o olhar na hora. — O quê isso quer dizer? Lúcio soltou o ar devagar. — Quer dizer que tem gente te procurando. O corpo dela ficou rígido. — Lucas? Danilo negou antes mesmo da pergunta terminar. — Não só ele. Silêncio. Marta, que até então estava quieta, se aproximou um pouco. — Luna… o seu nome circula em mais lugares do que você imagina. Ela engoliu seco. — Eu não entendo… Dorival foi direto, sem rodeios. — Você não desaparece assim sendo quem você é. A frase foi simples… mas pesada. Dorian olhou para os irmãos, depois voltou para ela. — A gente viu suas fotos na rede, nas revistas… você não era só uma modelo. Lucian completou: — Você era um nome de alto valor. Visibilidade, contratos, influência… isso cria interesse de todo tipo. Luna apertou Theo. — Eu não sou “valor”. O silêncio que veio depois não foi discordância. Foi reconhecimento. Danilo passou a mão no rosto. — A questão é que ontem, quando você apareceu na chuva… alguém já sabia. Luna ficou fria por dentro. — Isso é impossível. Lúcio deu um meio passo. — Você tem certeza disso? Ela não respondeu. Porque, no fundo, uma lembrança começou a incomodar. O abrigo. Os olhares estranhos. A noite em que tudo deu errado rápido demais. Dorian percebeu a hesitação dela. — Você lembra de alguém te seguindo antes de fugir? Luna apertou os olhos. — Eu… eu não sei. Tudo aconteceu muito rápido. Lucian inclinou a cabeça. — Rápido demais geralmente não é acidente. Silêncio. Theo bocejou no colo dela, pequeno, cansado, alheio ao peso da conversa. E isso pareceu quebrar um pouco a tensão. Marta respirou fundo. — Chega. Todos olharam para ela. Ela apontou levemente para Luna. — Ela acabou de sair da rua. Com uma criança. Não vamos despejar isso tudo de uma vez na cabeça dela. Dorian assentiu lentamente. — Marta tem razão. Mas Lucian não desviou o olhar. — Só que ignorar não vai resolver. Lúcio concordou. — Se tem alguém atrás dela, a gente precisa saber antes que chegue aqui. Danilo olhou para Luna com mais cuidado agora. — E se já estiverem observando? O silêncio voltou, mais frio. Luna sentiu um arrepio subir pela espinha. — Eu não trouxe perigo pra vocês… — ela disse baixo. — Eu só quero ir embora quando for seguro. Dorian respondeu rápido. — Talvez você não consiga mais ir embora como imagina. Ela levantou o olhar na hora. — O quê? Ele não recuou. Mas também não foi agressivo. — Se tem gente te caçando… você já não tá mais sozinha nisso. Lucian completou, mais direto: — E essa casa também não é mais neutra. A frase ficou no ar. Pesada. Irreversível. Luna sentiu o coração bater mais forte. Theo encostou o rosto no ombro dela, sonolento. E naquele instante, ela entendeu uma coisa que ninguém precisou dizer em voz alta: Ela não tinha entrado apenas em uma casa segura. Tinha entrado no centro de algo que agora… também tinha sido colocado em risco por causa dela. Theo já estava dormindo quando Luna o colocou na cama. Ela ficou alguns segundos parada ao lado dele, olhando o peito pequeno subir e descer com calma. O rosto dele finalmente parecia tranquilo… como se, por algumas horas, o mundo tivesse esquecido de alcançá-lo. Luna passou os dedos de leve no cabelo dele. — Eu te protejo… sempre — sussurrou. Depois saiu do quarto. O corredor parecia mais frio do que de manhã. Quando ela desceu a escada, a sala já estava ocupada. Os cinco estavam lá. Como sempre. Mas o clima mudou assim que ela apareceu. Dorian foi o primeiro a perceber que algo tinha mudado no olhar dela. Lucian fechou o notebook que estava na mesa. Lúcio endireitou a postura. Danilo parou de mexer no celular. Dorival apenas observou. Luna parou no último degrau. Respirou fundo. — Eu pensei em tudo o que vocês falaram… Silêncio. — E eu estando aqui… eu coloquei vocês em risco, né? Ninguém respondeu de imediato. Ela continuou, mais firme agora, mesmo com a voz tremendo no fundo: — Eu vou embora. A frase caiu como uma pedra na sala. — Obrigada por terem me salvado… de verdade. Mas eu vou. Vou dar um jeito. Lucian franziu o cenho na hora. — Isso não é simples assim. Ela ignorou. — Eu não quero ninguém em risco por causa de problemas meus. Lúcio deu um passo à frente. — Luna— Mas ela não deixou terminar. — E sobre esse negócio de casamento… eu não sabia disso. Ela respirou mais forte, como se aquilo tivesse voltado a machucar. — Meu pai já tentou me casar com mais de dez homens diferentes em tentativas diferentes. O ar mudou na sala. Dorian ficou mais rígido. Ela continuou, agora com a dor aparecendo mais clara na voz: — Uma dessas vezes… o Lucas Lopes me “salvou”. Foi assim que eu conheci ele. Ela soltou uma risada curta, sem humor. — Mas enfim… ele só foi mais um monstro da minha vida. Silêncio pesado. Luna apertou as mãos. — Eu e meu filho só precisamos de um lugar isolado. Um lugar seguro… longe de tudo isso. Ela olhou para cada um deles. — Me deixa sair daqui… e esquece que vocês me encontraram. O silêncio depois disso foi diferente. Não era vazio. Era contenção. Como se algo dentro daqueles cinco homens tivesse sido pressionado até o limite. Dorian foi o primeiro a falar. Mas não levantou a voz. — Você não vai sair agora. Luna deu um passo para trás. — Eu não estou pedindo permissão. Lucian levantou devagar. — E nós não estamos te prendendo. Lúcio passou a mão no rosto, claramente tentando manter o controle. — Só que você não entendeu o que acabou de dizer. Danilo deu um passo mais perto da escada. — Você acabou de confirmar que existe um histórico de tentativas de controle da sua vida. Dorival finalmente falou, baixo, firme: — Isso não é só “problema seu”. O ar ficou pesado de novo. Luna respirou mais rápido. — Eu não quero mais isso pra ninguém. Dorian deu um passo à frente agora. — E acha que sair sozinha vai resolver? Ela não respondeu. Ele continuou, mais controlado ainda: — Se você sair agora, com tudo isso em volta… você volta pra rua. Ou pior. Silêncio. Lucian completou: — E dessa vez, a gente não vai conseguir te proteger. A palavra “proteger” fez Luna travar por um segundo. Danilo olhou direto pra ela. — Não é sobre te prender aqui. Lúcio assentiu. — É sobre te manter viva. Marta, que estava em silêncio no canto, falou por fim: — E sobre manter essa criança viva também. A última frase bateu mais forte do que todas as outras. Luna fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, a resistência dela ainda estava lá… mas rachada. Dorian percebeu. E falou mais baixo ainda: — Você não confia em ninguém agora. A gente entendeu isso. Ele respirou. — Mas sair no meio disso sem entender o que tá acontecendo… não é liberdade. É exposição. Silêncio. Theo se mexeu lá em cima, como se sentisse a tensão mesmo dormindo. E naquele momento, a decisão de Luna deixou de ser só sobre ir embora. Passou a ser sobre uma pergunta muito mais perigosa: Ela realmente tinha um lugar seguro pra voltar… ou essa era a primeira vez em muito tempo que ela estava perto de ter um?
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