CAPÍTULO 1

2153 Palavras
MARJORIE BLAINE |sexta-feira - Seattle - Warren AI | Apoio o pé no vaso sanitário e ajusto o Band-Aid no calcanhar. A pele está em carne viva. Experimentei todas as sandálias de salto que tenho em casa, mas nenhuma mais resolve meus calos. Agora, além deles, vieram as bolhas. Talvez o problema não seja o sapato, e sim, as horas excessivas de trabalho. Diminuir a carga horária poderia ser a solução, mas não posso me dar esse luxo. Não agora, quando estou prestes a conseguir um bom aumento de salário. Dan me espera para o nosso jantar hoje com boas notícias. Eu disse a ele que o senhor Warren está satisfeito com o meu trabalho, e há meses venho mostrando meu valor. Hoje vesti minha melhor saia lápis e meu scarpin favorito para essa reunião. Se tudo der certo, terei dinheiro suficiente para comprar quantos Band-Aids quiser e, mais importante: para a minha inseminação artificial. Me encaro no espelho, observando meu semblante cair ao lembrar desse assunto. Que merda. Não posso chorar agora. Aliás, não posso nem forçar minhas expressões. Meu botox está vencendo, e eu não quero ser uma mãe toda enrugada. — Marjorie, o senhor Warren já está livre para a reunião. — A voz suave e precisa da Ivy ecoa discretamente pelo ponto que carrego na orelha e quando não estou usando eles, ela ecoa do meu iPad, ou do celular, ou de qualquer mecanismo mais próximo a mim. Ivy é a assistente de inteligência artificial desenvolvida internamente pela Warren AI. Ela gerencia agendas, envia lembretes, organiza planilhas e, quando eu deixo, também me alerta sobre ovulações, níveis de estresse e até volume de cafeína. Basicamente, uma secretária 5G com memória infinita e zero julgamento. — Ah… eu tenho uma reunião com ele hoje — murmuro, me apressando. — Confirmado. Reunião marcada para às 18h30 na sala de reuniões da presidência. Tempo estimado para o deslocamento: três minutos. Recomendo evitar distrações no trajeto. — Sutileza nunca foi seu forte, Ivy. — A objetividade otimiza sua produtividade, Marjorie. — Ela sempre rebate com alguma frase corporativa que parece ter saído de uma palestra coach. — Marjorie, há um leve desequilíbrio na sua postura. Você está com 13% de inclinação a favor do lado esquerdo. Isso pode afetar sua lombar. — Ótimo. Além de tudo, agora sou torta. — Só um pouco. Mas já corrigi na análise de ergonomia da sua mesa e cadeira. Reviro os olhos, ajeito a postura e saio do banheiro. — Boa sorte com o senhor Warren, Marjorie. E, por favor... sem sarcasmo nos primeiros trinta segundos. — ela sugere, gentil, antes de silenciar. Sim, até a minha IA acha que eu sou explosiva demais para reuniões delicadas. Respiro fundo e saio do banheiro, seguindo até minha sala. Assim que guardo minha necessaire na gaveta, a voz de Ivy ecoa novamente. — O senhor Warren já está livre para recebê-la. — Obrigada, Ivy. — Disponha, Marjorie. Me levanto, ajusto a saia lápis e caminho com passos firmes até a sala dele. O escritório segue seu ritmo habitual, e, de longe, enquanto me aproximo, noto que as persianas da sala do meu chefe, mais conhecido como CEO da Warren AI, estão abertas. Antes que eu possa girar a maçaneta, a porta se abre. — Reservei a sala de reunião para nós dois — ele avisa. Ele está levando isso a sério. Sempre que dá um aumento a alguém, ele reserva a sala de reuniões. — Sim, senhor — respondo, acompanhando-o pelo corredor. Quando chegamos lá, ele abre a porta e espera que eu entre primeiro. — Obrigada — murmuro, aproximando-me de uma das cadeiras na grande mesa de vidro oval. O senhor Warren se senta à minha frente, entrelaçando os dedos sobre a superfície de vidro. Seus olhos me analisam com atenção. — Como está, senhorita Blaine? — Bem, obrigada. Ele assente e se inclina levemente. — E o esposo? Minha respiração vacila antes que eu consiga sorrir e responder: — Bem também. Obrigada por perguntar. Ele me observa em silêncio por um instante antes de continuar. — Há quanto tempo trabalhamos juntos? — Nove anos. Seus olhos se arregalam levemente, impressionado. — Quase uma década — reflete, balançando a cabeça. — Gosta de trabalhar na Warren AI? — Sim, senhor. Cresci muito profissionalmente. E a empresa também cresceu muito desde que cheguei aqui. Ele sorri, mas há algo predatório em seu olhar. — Lembro da nossa conversa há um tempo atrás. Você é estéril? Meu corpo se retesa. — Meu marido… — engulo em seco e limpo a garganta. — E estão guardando dinheiro para…? — A inseminação — completo, mantendo minha voz firme. — Nós estamos nos planejando financeiramente para isso. — Então o aumento de salário seria para…? Uno as sobrancelhas, pigarreando. — Para a nossa estabilidade financeira. Não que isso devesse ser da conta dele. Ele se recosta na cadeira, tamborilando os dedos na mesa. — Pode vir mais para perto? A sala é grande e você está falando baixo. Engulo minha irritação e me levanto. Quando escolho uma cadeira duas posições à esquerda da dele, ele a puxa para mais perto. — Obrigada — murmuro, sentando-me. Ele cruza os braços e me encara. — Quantos anos você tem mesmo, senhorita Blaine? Desvio o olhar, fixando-o nos saltos vermelhos refletidos no vidro da mesa. — Trinta e cinco. — Estou com quarenta e cinco — ele diz, inclinando-se. — E saudável. A pausa arrasta-se como uma faca afiada. — E fértil. Um nó se forma na minha garganta. Minha respiração se altera. Ele estende a mão sobre a mesa e toca minha aliança com a ponta dos dedos. — Mas não foi para isso que viemos aqui, certo? — ele completa. Um sorriso cínico curva seus lábios. Engulo em seco, forçando um aceno. Tento disfarçar, mas meus olhos ardem. — Você faz um excelente trabalho aqui, Marjorie. Tem sido elogiada por todos os executivos. É competente, pontual, não falta, trabalha além da sua carga horária, não se mistura com as más companhias… E, claro… — ele se levanta, caminhando até atrás de mim — está sempre bem vestida, cabelo alinhado, perfumada… Minha pele se arrepia quando sinto seus dedos roçarem meu ombro. Meu corpo enrijece automaticamente. — Eles sempre me perguntam se nós… você sabe. É uma das poucas funcionárias que têm acesso a mim. Meu estômago revira. — Acho melhor encerrarmos a reunião por aqui, senhor. Me levanto, mas ele segura meu ombro, impedindo meu movimento. — Posso te dar mais do que um aumento. Minha primeira lágrima pinga sobre a mesa. — Posso te dar um filho. Engulo um soluço. — Você não precisa passar um ano inteiro juntando dinheiro para inseminação. Posso resolver isso agora. Você diz ao seu marido que foi um milagre. Meu corpo estremece de ódio. — Eu posso te dar um filho. Você não vai precisar mais trabalhar durante um ano inteiro apenas para que eu lhe dê 500 dólares a mais por mês. Balanço a cabeça negativamente e me levanto bruscamente. — Não sou esse tipo de mulher, muito obrigada, senhor Warren. — Ao dizer isso, dou as costas, mas ele me barra. — Você tem trinta e cinco anos. Se sair por essa porta, não vai ter o dinheiro que precisa para gerar um filho do fraco que você chama de marido. Podemos resolver isso agora. Você diz a ele que foi uma benção. — Tire as mãos de mim. — digo entredentes. — Me manda embora. Ele ri. — Tem certeza? Sacrificaria sua carreira consolidada aqui para comprar um esperma? p***a, Marjorie, põe essa cabecinha para pensar — ele diz, mas a minha resposta vem em forma de um tapa que estala no rosto dele. — Vai se f***r — digo e dou as costas, com os olhos transbordando. Saio dali sem olhar para trás. Volto até minha mesa, pego minha bolsa e marcho até o elevador. — Marjorie, há um e-mail marcado como urgente de Recursos Humanos. Deseja revisar antes de sair? — a voz de Ivy ressoa novamente. — Não, Ivy. Estou indo embora. E agora não é um bom momento para conversarmos. — Seu nível de estresse ultrapassou a média das últimas duas semanas. Recomendaria respiração consciente por dois minutos antes de dirigir. — Já estou respirando, c****e. — Registro anotado. Reduzindo interação até sua frequência cardíaca estabilizar. Ignoro. Aperto o botão do elevador com mais força do que deveria. — Antes de silenciar, gostaria de desabafar sobre a reunião com o Warren? — Gostaria que você silenciasse até eu precisar de você e solicitar novamente. — digo irritada, retirando o ponto da orelha. Enquanto o elevador desce até o estacionamento, tiro os saltos e fico descalça, sentindo a frieza do chão metálico sob meus pés. As lágrimas voltam com força, sufocando-me como se estivessem presas o dia inteiro e agora encontrassem a única fresta para escapar. Quando saio do elevador, praticamente corro descalça pelo estacionamento até meu carro. Quando entro, seguro o volante com força, apoiando a testa contra ele e solto um suspiro trêmulo, enquanto meu peito sobe e desce em soluços descontrolados. Ódio. Nojo. Impotência. Meu corpo todo treme, como se quisesse se livrar da lembrança das mãos dele no meu ombro, do tom baixo e insinuante da voz, das palavras sujas que ainda ecoam na minha cabeça. "Posso te dar um filho." A frase me atinge como uma lâmina fria. Meus dedos se fecham com força ao redor do couro do volante, os nós das mãos ficando brancos. Não posso pedir demissão. Por mais que cada célula do meu corpo grite para nunca mais pisar naquela empresa, simplesmente não posso. São nove anos de trabalho, nove anos construindo minha carreira, garantindo meu lugar, lutando por cada conquista. Se eu sair agora, perco tudo. Perco meus direitos, perco minha estabilidade, perco o dinheiro que venho economizando com tanto esforço para minha inseminação para ter que planejar as despesas sem um emprego. E eu não posso me dar esse luxo. Engulo um soluço e encosto a cabeça contra o banco. Minha visão está embaçada, e minha garganta arde com a urgência de um grito que não posso dar. Fecho os olhos. Tento respirar fundo, mas o ar entra rasgado, trêmulo. Dan. Ele me espera para o jantar. Passo as mãos no rosto, tentando apagar os rastros do choro, mas meu reflexo no retrovisor me denuncia: olhos vermelhos, rosto inchado, maquiagem borrada. Dan perceberia na hora. E eu não posso contar para ele. Não agora. Não hoje. Ele ficaria furioso. Diria que eu deveria processar, denunciar, largar esse emprego. Mas ele não entende. Ele não sabe o quanto eu batalhei por essa posição, o quanto sacrifiquei. Quantos momentos com ele tive que renunciar, quantos almoços com meu pai deixei de ir para trabalhar, quantos compromissos de família eu faltei para estar em reuniões marcadas de última hora, quantas horas de sono eu anulei para manter tudo sempre no lugar, quantos saltos caros eu precisei comprar no lugar de passagens de viagens que eu poderia ter feito com Dan… Foram nove anos de dedicação, não nove dias. Aperto os olhos, reprimindo um novo soluço. Não vou contar. Vou me recompor. Meu corpo ainda treme, mas respiro fundo e forço minhas mãos a relaxarem. Pego um lenço no porta-luvas, enxugando o rosto. Retoco a maquiagem, mesmo que minhas mãos ainda estejam instáveis. Prendo os cabelos ruivos acobreados, tentando parecer minimamente apresentável. Olho para o relógio no painel. Vou chegar atrasadíssima para a nossa reserva no restaurante. Engulo em seco e inspiro profundamente uma última vez antes de ligar o carro. É só mais um dia. E amanhã… amanhã vai ser sábado, meu dia de folga, e depois de amanhã vai ser domingo e depois, segunda-feira de novo e eu vou estar bem. É o que digo para mim mesma, dirigindo pelas ruas iluminadas da cidade de Seattle, os faróis refletindo no asfalto molhado pela garoa fina. Minhas mãos ainda estão trêmulas no volante, e minha respiração segue irregular, mesmo depois de passar quase meia-hora tentando me recompor no carro. O restaurante é chique, o tipo de lugar que Dan sempre escolhe quando quer celebrar algo. Estaciono o carro a algumas quadras do restaurante. O estacionamento está cheio, então não tenho escolha a não ser parar longe. Desço do carro com os saltos ainda machucando meu calcanhar. Ajusto a saia lápis, respiro fundo e caminho até a entrada, sentindo o coração pesado dentro do peito. Assim que passo pela recepção, avisto Dan. Ele está sentado sozinho em uma mesa próxima à janela, com a postura rígida e os olhos fixos na taça de vinho em sua mão. Meu olhar corre para a garrafa ao lado dele. Vazia. Engulo em seco. — Dan… — digo quando me aproximo e puxo a cadeira, sentando-me apressada. — Me desculpa pela demora, eu… — Eu quero o divórcio.
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