Garçom

891 Palavras
A mancha de café na minha blusa branca me faz crê que nunca mais ela será a mesma. Deveriam proibir pessoas desastradas de nos servir algo, ainda mais quando é quente. - Senhora por favor me desculpa - o garoto torna a dizer pela décima vez enquanto tento me limpar com o guardanapo. - Suas desculpas não irão resolver o meu problema. - Falo grossa e furiosa com a situação. Também não é pra menos, eu agora perdi uma blusa praticamente. - Não irei pagar esse café, vocês que se virem. - Me levanto da minha mesa e saio da praça de alimentação para ir ao banheiro do shopping. Por sorte estou com meu blazer preto, então consigo esconder a mancha enquanto passo entre as pessoas. Dentro do banheiro eu pego alguns papéis toalhas e os molho na torneira antes de esfregar na minha blusa, amenizando um pouco a mancha. - Garçom babaca - resmungo. Estou tão preocupada com a minha blusa, que nem percebi antes o quanto a minha pele foi queimada. O vermelhidão está em quase toda a extensão da minha barriga, e decido tirar minha blusa para poder ver melhor o tamanho do estrago. Fico de sutiã no banheiro, e me olho no espelho que têm em cima das pias. Passo a água gelada sobre minha barriga, e seco com os papéis toalhas, o que me parece uma boa solução para amenizar também a ardência, que só vim me da conta agora. Eu deveria processar aquela lanchonete e o garçom, onde já se viu derramar café quente nos clientes? Francamente. - Está muito r**m? - a voz do garçom desastrado ecoa pelo banheiro me fazendo levar um susto e rapidamente ponho o blazer sobre o meu corpo semi nú. - O que você está fazendo aqui garoto? - praticamente grito. - Tentando te ajudar - ele diz com a voz mansa como quem está tranquilo demais. Mas é claro que ele está, não foi ele que ganhou um banho de café. - Ajudar? Não quero ajuda de um desastrado como você. - Insulto ele sem me importar se irá ou não o ofender, estou brava demais para pensar nisso. O garoto revira seus olhos escuros e caminha até mim, penso em gritar quando sua mão puxa o meu blazer o tirando de mim, mas assim que vejo seu olhar preocupado, percebo que ele pode me ajudar. - Céus isso tá horrível. - Faz uma careta e tenta tocar na minha barriga, mas eu desvio dele. - Não toca, tá doendo - murmuro calma agora, mas ainda irritada com esse garoto. Ele enfia a mão dentro da sua calça jeans, tirando dela uma caixa de pomada para queimaduras. Franzo minha testa me perguntando o motivo dele ter isso com ele. - Posso passar? - me olha e eu assinto com a cabeça positivamente, mas ainda com receio, não mais dele, mas sim da dor que está se intensificando. Ele abre a caixa, a joga sobre a pia após tirar a pomada de dentro e passa nas pontas dos dedos um pouco do produto incolor. Trás seus dedos para perto da minha barriga, e eu tento me contrair para não sentir tanta dor. Seus olhos se erguem para mim enquanto ele está abaixado na minha frente passando suavemente a pomada na área vermelha. Perco o foco olhando em seus olhos escuros, e agora sem toda minha raiva posso até admitir que ele é bonito. Termina de espalhar o produto, e fica ereto diante de mim. O encaro esperando ele dizer algo, mas ao invés disso ele apenas me dá as costas e começa a caminhar para fora do banheiro. - Ei - chamo, fazendo - o se virar de volta para mim -, porque tinha pomada com você? Ele ri pela minha pergunta, e retorna para mais perto de mim, o que eu até gosto, por algum motivo sinto que quero conhecer melhor esse garoto, mesmo ele sendo o causador da mancha em minha blusa, e da queimadura em minha barriga. - Digamos que você não é a primeira pessoa que isso acontece. - Explica me arrancando um sorriso. - Por que é garçom, se é tão desastrado? - Encontrar um emprego não é tão fácil, e esse foi o melhor que eu tinha entre minhas opções. - Dá de ombros. Percebo que estou nesse tempo todo só de sutiã na sua frente, e pego o meu blazer para me vestir, constrangida. - Usa minha camisa - ele oferece tirando seu paletó, e depois a camisa que está logo em baixo. - Têm certeza? Como vai trabalhar sem camisa? - Tenho outras em minha mochila que está na lanchonete. - Diz e então aceito ficar com sua camisa. A visto com cuidado para não tirar a pomada da pele, e me sinto confortável com o tecido macio e o perfume do garoto nela. - Amanhã eu te devolvo. - Aviso. - Não se preocupe. - É... - mecho no meu cabelo meio desconfortável com a falta de assunto. - Qual seu nome? - Liam, e o seu? - Amélia. - Certo eu preciso voltar para o trabalho, então até mais Amélia? - uma sobrancelha se ergue em questionamento. - Até mais Liam. Ele se vira e sai do banheiro, me deixando com o sentimento de quê ainda o verei bastante.
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