O relógio do Celta marcava 00:17. Seis horas e quarenta e três minutos para eu morrer, segundo o plano do meu pai.
Clara dirigia com uma mão só. A outra segurava a minha. Ela não falou nada nos primeiros dez minutos. Só aumentou o volume do rádio velho. Tocava Marília Mendonça. Perfeito para fugitiva recém-traída.
— Você tá sangrando — ela disse, olhando de canto.
Era o anel. Eu tinha apertado tanto no sutiã que o aro marcou a pele. Tirei e segurei na palma. Três quilates. Frio. Pesado. O preço da minha cabeça.
— Não é sangue — respondi. — É lembrança.
Ela morava no Subúrbio , num dois quartos em cima de uma loja de material de construção. Subimos as escadas correndo. O elevador tava quebrado desde 2019 e o síndico só prometia conserto. O cheiro era de miojo, amaciante Ypê e infância. Foi lá que eu me escondi quando terminei o primeiro namoro aos dezesseis. Foi lá que eu contei pra ela que meu pai tinha me "prometido" pro Marcos como se eu fosse lote em leilão.
Clara trancou a porta com duas voltas, empurrou o sofá contra a madeira e me entregou uma toalha.
— Banho. Você tá cheirando a traição e chuva de Salvador em novembro.
Entrei no box minúsculo. A água quente queimou meus ombros. Fiquei olhando a marca vermelha no dedo. O anel ficou por oito meses ali. Lavei o rosto até a maquiagem sair. No espelho embaçado, eu não vi a noiva perfeita. Vi a filha do Alberto Costa. Vinte e oito anos. Meia-irmã traída. Três milhões de seguro de vida na cabeça. Um diamante no sutiã.
Saí enrolada na toalha do Bob Esponja. Clara tinha feito café coado no pano, forte, e colocado na mesa o porta-retrato da minha mãe que eu trouxe na bolsa.
— Conta — ela disse.
Contei tudo. A lingerie vermelha parcelada em três vezes no cartão. A Lívia, minha meia-irmã, nua na minha cama com aquele olhar de quem já tinha ganhado. O Marcos tentando vestir a calça ao contrário. Meu pai no telefone falando da Ponte da Barra, freio cortado, sete da manhã.
Clara ouviu sem interromper. Quando terminei, tomou um gole grande do café e falou:
— Três milhões. Seu pai sempre soube precificar m*l as coisas. Você vale mais viva.
Eu ri. Pela primeira vez naquela noite, a risada não foi de nervoso.
— Ele quer um corpo às sete. Vamos dar um sumiço às sete.
O plano nasceu ali, entre o café e a toalha amarela. Eu não ia para a ponte. O HB20 preto da minha mãe ia. Clara conhecia o Jefinho, menino do porto que, por duzentos reais, dirigia qualquer carro para qualquer lugar sem fazer pergunta.
— Ele deixa o carro atravessado na pista de serviço da ponte, abre a porta, some. Com a chuva, com a neblina, a polícia vai achar que você pulou — ela explicou. — Seu pai vai ter que apresentar um corpo que não existe pra receber o seguro.
Olhei pro relógio do micro-ondas. 02:41. Quatro horas e dezenove minutos pra minha morte oficial.
— Preciso de um celular novo. E de dinheiro.
Clara abriu uma lata de biscoito Trauk em cima da geladeira. Tinha mil e trezentos reais em notas pequenas, amassadas. "Fundo de emergência pra quando meu ex aparecer bêbado". Peguei o anel.
— Isso aqui vale mais que o carro do seu pai.
— Não vendo hoje — eu disse. — Hoje eu guardo. Amanhã eu cobro.
Às três e meia a chuva apertou. Jefinho chegou de moto, encharcado, com cara de quem não dorme há três dias. Dei a chave do HB20, falei o local, entreguei os duzentos. Ele nem perguntou meu nome.
— Se alguém perguntar — eu disse —, você nunca me viu.
— Vi quem? — ele respondeu, e saiu cantando pneu na lama.
Clara me emprestou uma legging preta, uma blusa larga do Flamengo e um casaco de moletom. Joguei meu vestido de festa no lixo. Olhei pela janela. Rio estava lavada, as luzes do Farol da Barra refletindo no asfalto molhado. Pensei no homem do terno encharcado no posto. O que comprava café preto e não sorria. Por um segundo, achei que tinha visto ele de novo num sedan preto parado na esquina. Paranoia de fugitiva. Ou instinto.
Às cinco da manhã, liguei a TV de tubo da Clara no mudo. Passava o Jornal do rio . Nada sobre mim ainda. Ótimo. Morta não dá entrevista.
— Você tem pra onde ir? — Clara perguntou.
— Por enquanto, pra longe daqui. Depois, pra cima deles.
Ela pegou o porta-retrato da minha mãe. Helena sorrindo na praia do Farol, antes de sumir da minha vida. Meu pai sempre disse que ela morreu de aneurisma. Nunca deixou a gente ver atestado. Nunca deixou a gente visitar túmulo.
— Você parece com ela quando tá com raiva — Clara falou.
— Então ela devia ser bem vingativa.
Às seis e quinze, a gente saiu de novo. Clara dirigiu até o mirante da Lagoa , longe da Ponte da Barra, de onde dava pra ver as luzes dos guinchos e das viaturas sem ser vista. Às seis e quarenta e sete, um carro da empresa do meu pai parou no acostamento. Dois homens desceram com lanternas. Procuravam.
Às seis e cinquenta e nove, segurei o celular burner que Clara tinha comprado na 25 de Março. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Eu estava oficialmente morta pro mundo.
Às sete em ponto, a sirene de uma ambulância cortou a chuva. Meu pai ia receber a ligação em minutos. O Marcos ia chorar no velório. A Lívia ia escolher o vestido preto no shopping.
Tomei o último gole do café frio.
— Feliz aniversário de morte pra mim — eu disse.
Clara riu. — Presente adiantado: você tá viva, tem um diamante no peito e três milhões de motivos pra voltar.
Olhei pra ponte lá embaixo. Eles queriam meu corpo na água. Iam receber minha ausência. E ausência, quando é bem calculada, dói mais que acidente.
Guardei o anel de novo no sutiã. Senti o metal frio contra a pele. Não era mais aliança. Era munição.
Seis horas e quarenta e três minutos atrás, eu era noiva. Agora eu era um problema sem certidão de óbito. E problema, meu pai ia descobrir, não se resolve com seguro de vida.
Do lado de fora, um sedan preto passou devagar pelo mirante. Faróis apagados. Motor baixo. Não parou. Não buzinou. Só seguiu.
Clara franziu a testa.
— Você viu isso?
— Vi — respondi.
Não falei do homem do posto. Não falei do olho cinza, cansado.
Eles achavam que tinham apagado Elena Costa.
Mal sabiam que ela tinha acabado de virar sombra.