Estava começando a achar que estava ficando doente.
Minha cabeça doía, a minha fome estava incerta, tempos eu comia muito, tempos eu não conseguia terminar um prato com pouca coisa. Estava irritadiça e sensível. Mamãe disse que podia ser os sintomas adiantados do meu cio, mas Jenny tinha entrado no dela um dia antes e ela não apresentou nada disso e o meu cio, segundo o curandeiro, estava para vir só depois do festival, três dias antes do inverno chegar.
Quando estava quase indo para a cabana dos curandeiros, decidi ir dar uma volta na floresta e só o que precisei para acalmar todo o meu ser foi sentir um cheirinho suave. O arbusto com flores de jasmim me fez parar, abaixar e sentar, como uma louca no meio da trilha, cheirando flores como uma viciada. A ficha me caiu quando eu percebi o que estava de fato acontecendo. Meu lobo sentia falta de Jimin.
Voltando para casa, com um buquê cheio de jasmins, eu me perguntava o que aquilo queria dizer. Será que o meu lobo estava com defeito? Talvez eu esteja sob tanta pressão e com uma negação tão forte sobre achar um alfa, que o meu lobo está completamente louco e está se viciando no cheiro que pareceu a minha salvação em um momento tão estressante no penhasco tempos atrás.
Era irritante que depois do ritual, a pressão e as conversas paralelas sobre mim e Jin tenham aumentado consideravelmente. Mesmo eu tendo tentado fugir, me afastar ou até mesmo ignorar todos os comentários, as perguntas e suposições, era impossível quando todos pareciam me reconhecer, ou como a ômega perfeita, ou como a ômega que acompanhava o futuro alfa chefe da aldeia.
Eu precisava relaxar longe de tudo e de todos, e mesmo que eu fosse odiar inflamar ainda mais o fogo sobre o meu futuro no festival, decidi aceitar a sugestão de mamãe e ir levar uma torta de maça para Jin, não antes de passar na casa de Jenny, que ainda estava se recuperando do recém-terminado cio, e na de Hoseok, para combinar um piquenique em uma das cachoeiras mais afastadas da aldeia possível. Eu precisava daquilo, principalmente com o festival se aproximando tão rapidamente.
Depois de procurar o alfa na cabana do chefe, onde fui recepcionada pelo ômega líder com muita animação, e ainda precisei vê-lo quase chorar com expectativas quando perguntei de seu filho, segui para onde Jin estava.
A construção da casa de dois andares, era na parte sudoeste da aldeia, onde começávamos a nos expandir, e mesmo que eu estivesse ali com um objetivo, minha mente e meu lobo não conseguiam descansar, por saber que eu estava bem perto de um certo ômega.
Estranhei e franzi o nariz ao me aproximar e ver que na parte da cerca da construção alguns ômegas estavam conversando e rindo baixinho, olhando mais para frente. O cheiro doce e enjoativo da excitação deles irritava o meu nariz e eu estava confusa com o que acontecia, mas antes que pudesse perguntar, vi dois alfas pulando do segundo andar, ainda aberto, no chão. Eles estavam suados, sem camisas e exalando cheiros de masculinidade. Reconheci Seokjin como um deles, que estava corado e tentava a todo custo não fazer contato visual com nenhum daqueles ômegas, que só faltavam uivar, o outro estava claramente se exibindo, mesmo não sendo tão belo quando Jin, ele tinha um corpo muito forte, pele bronzeada pelo trabalho árduo e horas embaixo do sol.
Ignorando a tontura pelos cheiros que se espalhavam ali, comecei a me aproximar de Jin, que parecia prestes a correr com a garrafa de água que tomava ao ver que alguém ia em sua direção, mas ele respirou fundo e franzindo o cenho, se virou, provavelmente reconhecendo meu cheiro, que mesmo estando no mínimo, ele ainda era um lúpus.
- Liv? – Estranhando, ele olha para os lados, provavelmente pensando no que aquela minha visita a ele gerará. – O que faz aqui nessa parte da aldeia? Está tudo bem?
Solto um suspiro, ainda tentando ignorar o enjoo, e só o puxo um pouco mais para a lateral.
- Sim, está tudo bem, Jin. – Penso que tenho que arranjar um jeito de conversar com ele sobre nossa atual situação, mas é difícil, então só estendo a cesta. – Eu fiz uma torta.
Jin estende a mão, mas antes que pegue a cesta, ele para.
- Liv, eu sei que todos estão nos pressionando, mas acho que devemos conversar antes de...
- Eu sei. – O interrompo e olho para ele. Quase não nos conhecemos, e é estranho que eu tente passar uma mensagem só por olhar, em uma i********e que não temos, mas Jin parece entender. No próximo instante, ele pega a cesta. Não solto, e ele também não puxa, a deixando entre nós.
De novo. É irritante que eu consiga sentir os olhares sobre nós.
A expectativa, a inveja, o desejo.
Tudo é irritante e eu sinto até nos meus ossos quando tudo ao nosso redor parece parar, para nos observar.
Eu sabia o que aquele ato parecia e, o que, de certa forma, representava.
Uma ômega fazendo comida e entregando para um alfa. O alfa aceitando. Era o início de um cortejo. E talvez seja por isso que eu não solte de princípio e por isso que sinto nossos lobos praticamente rosnando um para o outro. É estranho e me surpreende essa reação. Em geral, o meu lobo é muito controlado e calmo, e isso indica que realmente algo está muito errado nessa cena, mas me obrigo a sair daquela confusão. Solto a cesta muito devagar sem desviar os olhos de Jin, que parece quase com dor, ao não soltar a alça.
Ele disfarça bem. O sorriso de longe, provavelmente parece verdadeiro, mas de perto, é quase doloroso de se ver. Estou de costas para rua, mas sei bem que meu cheiro, mesmo no mínimo, não está muito agradável. Ainda assim, solto o ar com força.
- Nós precisamos mesmo conversar, mas é tudo tão complicado e...
Estranho quando Jin parece perder o interesse em mim. Não que ele tenha algum, mas pelo menos deveria prestar atenção no que eu estou dizendo quanto a nossa situação, mas percebo quando ele discretamente dá um passo para o lado e o seu olhar acompanha algo ao longe.
Olho em volta, procurando por algo que ainda não sei o que é. Pensando por um momento, ser a pessoa que Jin se resguarda por todo esse tempo e por um momento, temo. Fico com a mistura de medo e raiva, ao procurar com o olhar e com os outros sentidos a pessoa que penso ser.
A surpresa que tenho ao encontrar outro rosto conhecido, um que nem daqui até a lua eu adivinharia ser quem tem a atenção do alfa mais desejado e aclamado da alcateia, é muita. O sorriso com covinha para alguns amigos ao seu redor, a calmaria em seu cheiro amadeirado de carvalho com um toque refrescante de hortelã, e o porte de alfa gentil, me faz relembrar da noite do ritual.
Não era para o Jimin que ele estava a olhar como bobo, que ficou tenso e nervoso quando se aproximou, quando ficou em silêncio tentando não demonstrar demais.
Não era para Jimin o sorriso tão bonito e aberto, as piadas mais amenas e românticas ou a exalação de felicidade e confiança no final de tudo.
Simplesmente, não era para Jimin.
Olho de volta para ele ao entender, e tudo de repente parece se encaixar e fazer perfeito sentido. O grupo se afastou e depois de virar a esquina, é que Jin suspira, olha para a cesta em mãos, e volta a me fitar. Ele vê o meu olhar de entendimento e consigo vê-lo se apavorando, mas antes que fale algo mais, eu dou um passo para trás, para evitar o cheiro desconfortavelmente amargo do desespero alheio, e só desvio o olhar.
- Vou fazer um piquenique com meus amigos na cachoeira da gruta dos cervos daqui a dois dias. - Digo de modo distante, mas quero confirmar o que já sei. – Nós podemos conversar lá sobre tudo e sobre o festival.
- Liv, eu não sei se isso é uma boa ideia. Se alguém nos vir juntos em qualquer que seja a situação...
- Vou convidar Jimin. – Não deixo completar e me viro para ele quando, vejo seus olhos confusos, mas continuo, antes que ele abra a boca de novo. – E pedirei que ele leve Namjoon. – E... aí está o brilho que achei que fosse ver. Penso até que vejo o vermelho pintando a íris castanha, mas Jin logo pisca e desvia o olhar do meu.
- Talvez, não seja uma má ideia. – Ele limpa a garganta ruidosamente quando a sua voz sai fraca e falhada, ergue a cesta, dando alguns passos para trás. – A expansão tem sido cansativa. E as casas... – Assinto, mas preciso morder o lábio para evitar sorrir grande. – Vai ser bom para relaxar e... sabe como é, né?! Com o festival e...
- Jin? – Ele para de enrolar e me olha. – Não precisa de tudo isso comigo.
O silêncio entre nós por aqueles breves instantes de troca de olhares é quase palpável e entendedor. Jin parece até mais leve, como se tivesse tirado toda a madeira da floresta dos ombros e eu sorrio por isso.
- Vou estar lá.
- Ótimo.