A Caverna

752 Palavras
O calor da fogueira diminuía aos poucos, e foi isso que finalmente me trouxe de volta à realidade. Permaneci alguns segundos encarando as poucas brasas escondidas sob as cinzas, pequenas luzes alaranjadas que ainda resistiam ao vento frio que atravessava a entrada da caverna. O fogo ainda estava vivo, mas por pouco. Logo deixaria de aquecer aquele lugar. Um arrepio percorreu meu corpo, e instintivamente abracei os próprios braços, tentando conservar o pouco calor que ainda restava. Respirei fundo e fechei os olhos por um instante. — Certo... primeiro sobreviver. Depois eu surto. A frase escapou quase como um reflexo, arrancando de mim um sorriso pequeno. Não era exatamente a situação que eu imaginava viver quando saí do hospital depois de uma cirurgia de vinte horas, mas reclamar também não mudaria absolutamente nada. Apoiei uma das mãos no chão e tentei me levantar. Assim que fiquei de pé, minhas pernas vacilaram. A parede de pedra foi a única coisa que me impediu de voltar ao chão, e permaneci ali por alguns segundos até a tontura diminuir. Meu corpo parecia absurdamente pesado, como se cada músculo protestasse contra o simples fato de existir. — Tudo bem... sem pressa. Quando a visão finalmente voltou ao normal, procurei alguma pele para me aquecer melhor. Havia várias espalhadas pela caverna. Assim que puxei uma delas, ouvi alguma coisa cair no chão. Depois outra e mais outra. Franzi a testa e me abaixei devagar. Eram faixas de tecidos, algumas estavam dobradas com tanto cuidado que pareciam nunca ter sido usadas. Outras, porém, estavam endurecidas pelo sangue e marcadas por manchas amareladas que eu preferi não tentar identificar. Ao lado delas havia um pequeno pote de barro. Quando retirei a tampa, um cheiro forte de ervas tomou conta do ar. No fundo restava apenas uma fina camada de pomada já ressecada pelo tempo. Passei o polegar sobre a borda do pote e voltei a olhar para aquelas ataduras. Então você estava tentando cuidar de si... Meu peito apertou de um jeito estranho. As lembranças que recebi mostravam uma garota que passava dias dormindo, que m*l conseguia levantar da cama e era chamada de preguiçosa por todos ao redor. Mas aquelas faixas, o pote de pomada e as ervas espalhadas pela caverna contavam outra história. A Lyra original não tinha desistido. Ela estava tentando sobreviver com o pouco que sabia. Engoli em seco. — Eu queria estar aqui para te apoiar... As palavras saíram tão baixas que quase se perderam no barulho do vento. Fechei novamente o pote de barro e o coloquei ao lado das ataduras limpas, como se aquilo fosse uma forma silenciosa de respeitar o esforço de alguém que nunca teve ajuda. Respirei fundo antes de continuar. Aos poucos comecei a juntar algumas roupas espalhadas pelo chão. Não muitas. Apenas as que estavam mais próximas do caminho entre a cama improvisada e a entrada da caverna. Também dobrei duas peles que pareciam limpas o suficiente para serem usadas e separei outras que certamente precisariam de uma boa lavagem quando eu conseguisse chegar a um riacho que conseguia escutar ao longe. Foi durante esse pequeno trabalho que encontrei uma bolsinha de couro escondida sob uma das peles. O couro já estava gasto e as costuras denunciavam anos de uso. Afrouxei o cordão e despejei o conteúdo sobre a cama: uma pequena faca, uma agulha, um rolo de linha, um pedaço de carvão e um retalho de couro cuidadosamente dobrado. Sorri sem perceber. — Bom... pelo menos eu não estou completamente despreparada. Guardei tudo novamente e prendi a bolsinha na cintura. Não valia muito, mas, naquele momento, era a única coisa que realmente parecia me pertencer. Olhei outra vez para a fogueira. As brasas ainda brilhavam, fracas, insistindo em resistir. Eu precisava de lenha, precisava de água e de um banho, mas bastou dar mais dois passos para perceber que meu corpo tinha outros planos. O peso voltou de uma vez, minhas pernas tremeram e um bocejo escapou antes mesmo que eu conseguisse contê-lo. Soltei uma risada cansada. — Tudo bem... você venceu. Não sabia se estava falando comigo ou com aquele corpo exausto. Peguei as peles que separei e enrolei-as ao redor dos ombros e me acomodei o mais perto possível da fogueira. O calor era fraco, mas ainda suficiente para afastar um pouco o frio que fazia meus dentes baterem, amanhã eu buscaria lenha, água, lavaria algumas roupas e tentaria entender melhor aquele mundo. Por enquanto... A única coisa de que eu realmente precisava era descansar.
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