Capítulo 5

1058 Palavras
A equipe percorreu o terreno proposto para a construção do centro de convenções. As dificuldades eram visíveis: um lago malcuidado ocupava parte da área, havia um lixão nos arredores e os custos estruturais seriam altíssimos por conta da proximidade com a água. Tudo indicava que o local não era o ideal. Heitor reuniu todos e, com sua voz firme, deu a ordem: — Trabalhem os custos e estejam prontos para a reunião às quatro da tarde. Mais tarde, a sala de reuniões estava silenciosa quando Augusto Ribeiro entrou. — O Sr. Vasconcellos vai se atrasar, mas se unirá a nós mais tarde. O clima aliviou, e os debates começaram. Julietta, dedicada, rabiscava números sem parar. Montou um esboço de orçamento e o entregou a Ribeiro, buscando aprovação. Mas o olhar dele a fez estremecer. — Julietta… você acha que isso é o melhor que pode apresentar? — a voz dele era calma, mas carregada de crítica. — Sinto dizer que não. E garanto: o Sr. Vasconcellos também não ficará satisfeito. O choque estampou-se no rosto dela. Ribeiro continuou, mais sério: — Trabalhando ao lado de Heitor por tantos anos, aprendi uma coisa: ele sempre escolhe a pessoa certa para cada tarefa. Se ele confiou a você essa proposta, é porque enxerga um potencial que você ainda não descobriu. Agora, quanto a esse projeto… pense além das barreiras. O nome “Vasconcellos” estará nesse edital. Entenda a responsabilidade que carrega. Julietta abaixou os olhos, sentindo o peso de cada palavra. — Acredite — acrescentou Ribeiro —, quando lhe entregou o arquivo, Heitor já tinha os custos calculados em sua mente. Cabe a você superá-los. Volte ao trabalho e traga o melhor que puder. O Sr. Vasconcellos reagendou a reunião para amanhã, após o almoço. Troquem contatos e trabalhem como equipe. Este projeto é estratégico. Nosso CEO foi recentemente nomeado “Bilionário Jovem Mais Influente” e pode ser indicado ao cargo de embaixador da juventude, para incentivar startups no país. Isso trará prestígio a ele e à empresa. Façam jus à confiança que ele deposita em nós. Ribeiro conhecia como ninguém a cultura da Vértice Global e sabia usar as palavras certas para motivar a equipe. *** Julietta passou a noite debruçada sobre os cálculos com Rita e Theo. O engenheiro estrutural Paulo, jovem, entusiasmado e com domínio técnico, também se juntou ao grupo. Ele trouxe clareza às soluções e logo conquistou a confiança de Julietta, que sentiu nele um parceiro acessível e com energia positiva. Na manhã seguinte, já na sala de conferências, Julietta ajeitou seus papéis. O coração batia acelerado, mas ela estava mais confiante de que Ribeiro aprovaria, desta vez, suas ideias. Expôs suas propostas diante dele. Mas antes que o executivo reagisse, a porta se abriu e Heitor Vasconcellos entrou. O ambiente gelou em um instante. Todos se endireitaram nas cadeiras. Do alto da mesa, ele percorreu cada rosto com olhar penetrante, até soltar um leve sorriso — apenas o suficiente para quebrar a tensão sufocante que dominava a sala. — Então, como ficou a proposta? Srta. Sampaio, está pronta? — A voz de Heitor soou firme, implacável. — Sim, senhor. — Julietta deslizou o arquivo sobre a mesa. Ele folheou o documento em silêncio por alguns minutos. Então, fechou-o com um estrondo seco que fez todos se sobressaltarem. O som ecoou pela sala como um raio. Julietta sentiu o sangue sumir do rosto. — Novecentos e cinquenta milhões para este projeto? — A voz dele carregava incredulidade. — Os números estão altos demais. Virou-se para Paulo: — Quanto custou o Marina Bay Sands, em Singapura? — Aproximadamente 5,7 bilhões, senhor. — E o World Trade Center? O Burj Khalifa? — 3,9 bilhões e 1,5 bilhão, respectivamente. Heitor apoiou as mãos sobre a mesa, os olhos faiscando. — Então vamos comparar. Entendam a magnitude dessas construções e seus propósitos. Durante uma hora inteira, ele guiou o grupo em análises intensas. Ao final, todos compreendiam melhor a visão e as expectativas de Heitor Vasconcellos. — Este é apenas um centro de convenções — disse ele, pausado. — Mas, com o espaço limitado, transformaremos em um marco, um ponto que atraia atenção global. Agora me digam: que adições podemos incluir para torná-lo um lugar único? Julietta respirou fundo e arriscou: — Senhor, o lago malcuidado é um problema… mas também pode ser a solução. Podemos transformá-lo em um espaço recreativo: show de luzes, passeios de barco para crianças, caiaque, flyboard… atividades que atraiam famílias. — Podemos acrescentar um complexo comercial, áreas de jogos — sugeriu Andréia, da arquitetura. — Para ser mundialmente relevante, — acrescentou Paulo, — o centro deve acolher visitantes de todo o planeta. Podemos incluir um espaço cultural para celebrar a arte local, festivais e museus. — Gastronomia internacional também é essencial — completou. — A comida é uma das maiores atrações. Julietta voltou a falar, empolgada: — Poderíamos criar um Centro de Caridade, um palco aberto para artistas de rua — música, dança, mágica — com a renda dividida entre eles e instituições beneficentes. Seria um espaço vivo, inclusivo, que traria público espontâneo. Augusto Ribeiro sorriu, orgulhoso, diante da ousadia dela. A sessão de brainstorming ganhou força, e Heitor observava em silêncio, satisfeito por ter provocado aquele ambiente criativo. Lançou um sorriso discreto a Ribeiro, que captou sua aprovação. — Muito bem. As ideias são excelentes. Agora… incluam todas no orçamento já apresentado. — O quê?! — o grupo reagiu em uníssono. Julietta ficou boquiaberta. — Senhor… isso é impossível. Paulo tentou intervir: — Talvez possamos adquirir o terreno do lixão e das terras baldias ao lado. Assim, teríamos espaço para essas novas estruturas. Mas, naturalmente, os custos disparariam. Heitor virou-se novamente para Julietta, incisivo: — Srta. Sampaio, você calculou tudo com base nos preços de mercado. Mas este é um projeto governamental. Teremos subsídios. Reduza os custos em dez por cento. Julietta engoliu em seco. — Está bem, senhor. — E mais… corte a margem de lucro. De quinze, para quatro por cento. — O quê?! — ela não conseguiu conter a incredulidade. — Isso não faz sentido! O canto da boca dele se ergueu num sorriso calculado. — Como já disse: é um projeto governamental. Teremos concessões, benefícios fiscais, taxas de royalties. Não trabalharemos de graça, Srta. Sampaio. — Pausou, cravando o olhar nela. — Mas trabalharemos com inteligência.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR