Um dia antes do casamento...
Acordei por volta das dez e meia da manhã, com meu celular estrondando ao lado do colchão.
— Hum...? — atendi meio grogue, sem verificar o número que me ligara.
— Até que enfim! — Madá exclamou do outro lado da linha.— Seu pai está me tirando os nervos, bambina.
— Que houve? — Levantei-me, calçando as pantufas — Ele quer fazer outra aposta?
— Antes fosse — ela disse agitada —, Rodolfo recebeu uma ligação do Gustavo e resolveu preparar um grande almoço.
Ao ir para a sala não encontrei o homem que invadiu meus sonhos — e meu apartamento — noite passada.
— Papai não prepara grandes almoços em vão — falei, rumando para a cozinha, o cheiro do café me atraiu —, o que tá acontecendo?
— E você acha que eu sei? — Ela perguntou retórica.— Seu pai não me conta, Larah, só anda de um lado para o outro e beija minha boca a todo momento.
— Eu não precisava saber disso.
— Não — ela riu —, não precisava.
— Então — pesquei um pão em cima da mesa, caminhei até o fogão e destampei a panela, onde achei dois ovos fritos —, aguarde o momento certo até ele contar.
— Está aí o problema — disse Madá ao passo que eu preparava meu café da manhã —, ele quer reunir toda a família para anunciar as boas novas.
— Não — miei, jogando o corpo na cadeira —, um grande almoço bem às vésperas do meu casamento é tudo que eu não preciso, Madá.
— Foi o que eu disse — contou —, falei que você ficaria exausta, mas você conhece seu pai, bambina, teimoso feito uma burra.
— Mula — corrigi, quase engasgando-me com um pedaço do pão —, já ligou pra Linda?
— Sim — respondeu, corri os olhos para a xícara em cima da mesa e avistei um bilhete debaixo do pires, sorri e o peguei esperançosa. —, ela disse que vai termin...
“Oi, mocinha.
Caso sinta que está na estação errada, desça um ponto antes e encontre-me por volta das uma, no Gutiér.
É por minha conta.”
—... e vocês têm que estar aqui ao meio-dia em ponto — a voz da Madá entrou em meus ouvidos —, ou eu vou parir seu irmão antes da hora.
— E o Guga? — Eu quis saber, ainda encarando aquelas letras engarranchadas.
— Está no Gutiér — Madá respondeu —, e vai sair no meio de uma reunião importante para vir a esse almoço. Percebe como estou aflita?
— Percebo — falei. Gustavo não abandonava reuniões importantes à toa.
— Vou colocar a macarronada no forno — ela anunciou —, e ver se consigo arrancar alguma coisa do seu pai. Ti amo.
— Ti amo também — e desliguei.
Então fiquei ali, lendo e relendo o convite.
Era pecado cogitar esse encontro, mas cada letra dele me transportava para o restaurante do meu irmão e eu me via ali, sentada de frente para Lucas, falando alguma besteira enquanto ele ria e mostrava suas covinhas.
Mesmo não gostando de café, tomei duas ou três xícaras, porque foi ele quem fez, e aquilo deu um toque significativo e especial à bebida amarga e escura.
Depois, troquei o pijama pelo meu vestido preto, as pantufas por meu par de saltos e saí do prédio, onde consegui pegar um ônibus direto para casa sem precisar esperar muito tempo.
Enfiei o pedaço de papel em minha bolsinha, na intenção de guardá-lo para sempre, e encostei a cabeça no vidro da janela, sorrindo abobada.
Eu ainda não conseguia entender esse turbilhão de sentimentos que me invadiu de uma hora para a outra. Suspeitei que fosse carência, já que havia tanto tempo que eu não recebia um carinho sequer de Ricardo.
Mas essa carência era tão forte, que me fez pensar em Lucas durante todo o trajeto. E eu sabia que ela não me abandonaria tão cedo.
Do ponto de ônibus até minha casa não era tão longe, mas eu estava de salto e isso dificultava pra caramba minha caminhada.
Ouvi uma freada ao meu lado e, assim que o vidro do Uno Mille abaixou-se, avistei Linda, serena, sorrindo para mim.
— Entra aí — ela disse, destravando a porta.
Não hesitei, mesmo que não confiasse mais nela eu estava com calos no pé, então decidi usar meu orgulho em outro momento.
— Valeu — eu disse sentando-me no banco de passageiro, não consegui olhar em seus olhos.
— Ah, Larinha, qual é — ela falou com um tom de felicidade na voz —, que tipo de amiga eu seria se deixasse você andar a pé debaixo desse sol quente de rachar?
O tipo de amiga que almoça com meu noivo às escondidas e segura em sua mão com tanta i********e, Linda.
— Tem razão — respondi, passeando o pingente de um lado para o outro —, então, como foi ontem?
— Uma maravilha — ela falou, empolgada —, obrigada, Larinha, eu precisava de um empurrão.
— Ainda precisa — de cima de um penhasco seria perfeito.
— Por que ainda preciso? — Indagou desentendida.
— Sei lá, você nunca se abre tão facilmente. Não acho que te ajudei o suficiente.
— Ah, me ajudou sim — falou toda contente —, foi a melhor noite da minha vida! E Gustavo é... é um fofo, eu... eu não esperava tanto romantismo. Não dele.
— As aparências enganam, Linda — retruquei.
— Eu sei, é só que... sei lá, pensei que ele fosse um mulherengo que só queria s**o, mas não... eu, eu sou completamente apaixonada pelo Gustavo. Deus, como eu sou!
Olhei para ela e só vi sinceridade em seu rosto. A felicidade estava ali, incrustada em seus enormes e escuros olhos.
— Você conseguiu dizer as três palavrinhas? — Eu quis saber, interessada, ela negou com a cabeça.
— Não tivemos tempo, se é que me entende? — e me lançou uma piscadela.
— Uhum — corei por inteiro. — E ele, ele disse?
— A noite inteira, Larinha — respondeu derretida —, agora eu preciso enfrentar meu pai e... hum... aceitar seu pedido de namoro.
— Então é esse o motivo do grande almoço? — Apertei a correntinha com mais força. De melhores amigas à cunhadas, como tudo muda tão rápido!
— Tomara que não — ela falou comprimindo os lábios —, Gustavo prometeu manter segredo até que conversássemos a sós com meu pai.
— Ele vai enfrentar o tio Fernando? — Indaguei perplexa, enquanto Linda estacionava de frente para minha casa.
Ela olhou para mim e sorriu.
— Parece que eu estava errada a respeito de seu irmão, ele é um homem e tanto.
— Fico feliz por você, Linda. De verdade — e eu estava sendo totalmente sincera.
Descemos do carro em um clima mais descontraído, Linda quis me contar os detalhes de sua noite mágica e gostosa, mas eu recusei. Era estranho imaginar meu irmão fazendo coisas com alguém que eu conhecia muito antes de ter p****s.
Já estávamos no corredor de casa quando Gustavo veio, aflito, em direção à Linda.
— Precisamos conversar — falou, angustiado.
— Oi pra você também, Gustavo — ela retrucou, mas pelo canto do olho vi que seus lábios simulavam um sorriso.
— Me desculpa, tentei te falar antes — foi dizendo, depressa, com as mãos na cabeça —, eu te liguei, pela manhã, deu caixa-postal.
— Gustavo — ela disse confusa.
— Eu só quero que saiba, só quero que saiba que tudo o que te falei ontem foi verdadeiro — seus olhos castanhos estavam cheios d’água e por algum motivo segurei minha correntinha —, independente do que aconteça, é você quem eu amo, Pocahontas.
— O que tá haven... — mas antes que Linda concluísse sua pergunta, uma mulher alta, excessivamente magra, de cabelos loiros e curtos, totalmente bem-vestida e perfumada, saiu de dentro de casa e caminhou até nós.
— Emile — soltei, embasbacada.
— Oi, cunhadinha — ela falou, passando os braços em volta do pescoço de Gustavo —, o Gu já contou pra vocês que nós reatamos?
— Não — Linda respondeu com uma mágoa sutil na voz —, me surpreenderia se contasse.
Então ela seguiu em frente, com passos firmes e aquele seu porte de mulher imponente, fulminei Gustavo com o olhar e acompanhei-a.
— Bambinas — Madá nos cumprimentou assim que entramos —, Santo Dio, o que houve com você?
— Nada, Madá — Linda respondeu, depois avistou seus pais sentados num dos sofás e jogou o corpo entre eles.
— Tia Lena — estrilei, surpresa, indo ao seu encontro —, quanto tempo!
Ela sorriu e seus olhos escuros — iguais aos de Linda — reluziram. Estava tão radiante, com um turbante de estampas alaranjadas em volta dos cabelos castanhos e encaracolados, cortados pouco acima do ombro, os lábios finos pintados de vermelho, enfiada em um vestido branco e comprido, que realçou a beleza de sua pele escura e iluminada.
Ao abraçá-la, senti um cheirinho bom de frutas cítricas.
— Estava com tanta saudade! — falou afetuosa, apertando-me contra seu corpo.— A vida na fazenda é sossegada, mas sinto falta dessa agitação toda.
— Já te falei, querida — tio Fernando disse, todo amoroso —, é só vencermos essa doença que nos mudamos para cá, como nos velhos tempos.
Olhei para Linda, que ajeitava a peruca do pai, e percebi a preocupação estampada em seu rosto, mas ela sorriu para mim, confiante.
Tia Lena sofria de depressão desde que teve um aborto espontâneo, há mais ou menos dois anos. Linda quem percebeu e, sob protestos dela, encaminhou-a para a psiquiatra da clínica. Apesar dos percalços que surgem vez ou outra, os resultados têm sido bastante positivos.
— Eu sei, querido — ela falou condescendente e trocou um olhar amoroso para ele. — Tudo em seu devido tempo.
— Onde está seu pai? — Tio Fernando me perguntou. — Ele me tirou do meio da minha soneca, espero que seja algo importante.
— Estou bem aqui — papai falou, descendo as escadas, com um terno vermelho e a careca bem lustrada —, e a propósito, sua peruca está torta.
— Não é peruca — meu tio contestou.
— Você sabe que é — papai provocou e alargou o sorriso —, aí estão eles, os protagonistas do grande almoço!
Eu e Linda olhamos para a mesma direção e vimos Guga entrar de mãos dadas à namorada, sentar-se no sofá de frente para nós e fitar o tapete, envergonhado, ao passo que balançava a perna num ritmo frenético.
— Cara, você me ajuda a servir os vinhos e os petiscos?
— Claro — Madá o seguiu até a cozinha, mas antes olhou para mim de forma interrogativa.
— Guga — chamei ainda de pé —, podemos trocar um papo na varanda?
Ele concordou e levantou-se em seguida. Havia aflição em seu olhar, eu notei, e o canto de seus lábios tremia.
— Eu volto já, Emile — ele justificou-se e foi andando na frente.
Ao sairmos, eu explodi.
— Eu te fiz um único pedido, Gustavo! — Encurralei-o na parede. — E olha o que você me apronta?!
— Não é o que vocês estão pensando — explicou-se.
— Espera, o que estamos pensando mesmo? — Inquiri colocando a mão na cintura. — Ah, que você reatou com sua ex depois de t*****r com a Linda e fazer juras de amor pra ela!
— Não é is...
— É — interrompi —, é exatamente isso que está acontecendo!
— Eu não queria decepcioná-la — jurou.
— Claro que não — ironizei —, apresentar sua namorada pra mulher que te ama é uma forma muito bacana de não magoá-la, não é mesmo?
— Ela me ama? — Perguntou numa faísca de esperança.
— Vai à m***a, Gustavo! — Então entrei possessa e puxei a mão de Linda. — Vem comigo, preciso tomar uma ducha enquanto ouço seus conselhos de moda.
Ela me acompanhou, sem questionar, e quando bati a porta do meu quarto, sentou-se em minha cama, abraçando o próprio corpo de maneira desolada.
— Linda...
— Não, Larinha — ela me interrompeu, com a palma da mão para frente —, eu não vou chorar.
Sentei ao lado dela.
— Eu só ia perguntar se podia usar sua jardineira amarela que você deixou aqui.
— Você a odeia — ela meio que riu meio que fungou.
— Não odeio não — contrapus.
—Larinha? — Linda me encarou cética, eu ri.
— Tá legal, é melhor eu escolher outra roupa — levantei-me —, vou tomar uma ducha depois a gente desce pro almoço.
— Obrigada — me agradeceu sincera —, de verdade, Larinha.
— Vai ficar tudo bem — garanti.
Mas eu estava errada.
Depois de um banho rápido e de vestir a primeira peça de roupa que encontrei, segui para a sala, com Linda em minha cola. Estávamos na metade da escada quando percebemos a agitação que tomara conta dali. Tia Lena conversava animadamente com Emile ao mesmo tempo em que Papai e tio Fernando abraçavam Guga, que sorria aparentemente nervoso.
Então seus olhos encontraram os de Linda e entristeceram-se por completo.
— O que tá havendo? — Ela perguntou baixinho, um degrau acima do meu.
— Não faço a mínima ideia — cochichei —, quer voltar pro quarto e descer quando isso tudo acabar?
Ela riu.
— Não, Larinha, melhor encarar os fatos de uma vez por todas — então tocou meu ombro, de leve, e eu me virei para trás —, eu aguento qualquer tranco se você estiver do meu lado.
Aquiesci, e, agarrada em sua mão, retomamos nosso percurso.
—Bambinas — Madá nos interceptou e encarou Linda com certa angústia —, vocês querem ir até a cozinha comigo? Posso adiantar o que houve por aqui enquanto estavam no quarto.
— Não precisa, Madá — Emile foi dizendo, metendo-se no meio de nós —, eu mesmo conto a novidade.
— Que novidade? — Indaguei.
— Estou grávida! — Ela vibrou eufórica.
— Como assim grávida? — perguntei, debilmente. — Quer dizer, beem grávida?
— Larinha — Linda me chamou, mas meu cérebro já havia virado mingau.
— Muito grávida ou pouco grávida? — Insisti, segurando-a pelos ombros — Quando veio sua última menstruação? Você já fez o teste? Ok, você tá grávida. Eu vou vomitar.
— Ela precisa respirar um pouco — Madá explicou, levando-me com cuidado até a varanda. Lá, joguei o corpo no enorme banco amadeirado. — Como você está se sentindo, bambina?
— Tia — respondi com falta de ar —, eu tô me sentindo tia.
Então olhei para Linda, à minha frente, e o desconsolo que vi em seus olhos fez meu coração condoer-se por inteiro.
— Tá tudo bem — ela falou, abaixando-se, enquanto fazia um afago em minhas mãos —, fomos pegas de surpresa, acho que você está em estado de choque.
— E você? — Perguntei preocupada.
Ela olhou para Madá e forçou um sorriso, quando virou-se para mim percebi que relutava para não chorar.
— Eu tô legal — afirmou —, quer dizer, a família vai aumentar. Isso é bom, não é?
— Aconteceu alguma coisa? — Tia Lena perguntou, juntando-se a nós.
— Nada de mais, mãe — Linda garantiu —, a Larinha só tomou um susto, acho que tá com medo de surgirem rugas de repente.
Eu ri.
— É — falei, recompondo-me —, eu acho que pirei um pouco.
— Um pouco?! — Emile questionou, indignada, aparecendo de supetão, Gustavo veio atrás — Você quase me derrubou!
— A Larinha vai casar amanhã, Emile — Linda veio em minha defesa, como sempre. — Dá um desconto.
— Não foi isso que pareceu — ela retorquiu emburrada —, é como se eu não fosse bem-vinda por aqui.
— É claro que você é bem-vinda— Madá assegurou —, como Linda disse, fomos pegos de surpresa, se Rodolfo não fizesse tanto mistério...
— Agora a culpa é minha? — Papai inquiriu, enfiando a careca pela fresta da porta.
— Se tivesse dito logo do que se tratava o tal almoço, a bambina seria tratada a pão de vó.
— De ló, Madá — consegui rir por fim —, e foi m*l, Emile, eu ando uma pilha ultimamente, não tem nada a ver com você.
— Ela está sendo sincera, amor — Gustavo acalmou-a.
Amor? Amor?!
Ah, como eu queria quebrar algo na cabeça do meu irmão...
— Mãe, a senhora está bem mesmo? — Linda perguntou à tia Lena, segundos depois.
— Estou sim, querida, mas por que a pergunta?
— É que eu não vou poder ficar para o almoço, lembrei que tenho compromisso — ela aprumou-se e foi até a namorada de Gustavo. — Parabéns, Emile. Como psicóloga estou à disposição para garantir que tenha uma gravidez saudável e tranquila. E acho que posso dizer o mesmo em nome da clínica de meu pai.
— É claro que pode, filha — tio Fernando assegurou, todo orgulhoso.
Então ela deu as costas, conferiu o celular e seguiu em frente.
— Aonde você vai, Pocahontas? — Gustavo perguntou interessado.
Linda reteve os passos e virou-se para trás, depois sorriu, triunfante.
— Almoçar com o Brad. — e voltou a caminhar, sossegada.
Olhei para meu relógio de pulso.
12:50.
Remexi as pernas, ansiosa, e mesmo não estando com o papel em mão eu sabia de cor todas as palavras escritas nele. E quem as havia escrito.
Lucas, Lucas, Lucas...
—Também preciso ir— anunciei, levantando-me —, parabéns, Emile, e, hum... boa gravidez.
— Não se esqueça de seu ensaio matrimonial, boneca.
— Não esquecerei, papai. — fechei o portão e meio que andei meio que corri.
Tudo bem que eu não estava preparada para um almoço num ambiente chique, usava uma regata cinza comum; short jeans e sandália de dedo. Mas por sorte eu andava com o troco do dinheiro que Guga me dera e podia chamar um táxi, então me justificaria, falaria do acontecido e ainda alegaria que era irmã do dono do restaurante. E depois podia comer, de graça, na companhia de um homem lindo e divertido.
Seria uma boa e memorável despedida de solteira.
Já havia andado por dois quarteirões à procura de um táxi, mas o único carro que encontrei foi o de Linda, que estava parado enquanto ela distribuía chutes e palavrões.
— O que você ainda tá fazendo aí? — Gritei.
— Descontando minha raiva — ela respondeu com mais chutes —, como eu queria que o Tufão se transformasse em seu irmão nesse momento!
— Eu também queria — confessei —, mas você não vai encontrar com o Brad?
— Eu menti — ela respondeu, fungando —, eu só queria encher a cara mesmo.
— Tem alguma ideia em mente? — perguntei e, ao olhar para trás, avistei um táxi dobrando a esquina, chequei as horas.
12:57.
— Sim — respondeu chorosa e abriu a porta do carro. Fiquei parada, no meio-fio da calçada, em total conflito interno.
“Estação errada.”
“Restaurante Gutiér.”
12:58
“Eu aguento qualquer tranco se você estiver do meu lado.”
Soltei os ombros, vencida.
— Espera — chamei antes de ela entrar no Tufão —, eu vou com você.
Chegamos num boteco, que não era tão longe do meu bairro, depois de alguns solavancos e freadas bruscas do Tufão. Eu observava em silêncio Linda correr os dedos pela boca do copo, muda.
— Eu me entreguei para ele como nunca me entreguei para mais ninguém — ela disse por fim, sem tirar os olhos da bebida —, tá legal, não falei as três palavrinhas, mas precisava, Larinha?
Fiz que não com a cabeça.
— A forma como eu o olhei durante a p***a da noite toda já dizia tudo! — ela exclamou. — Tirei minha armadura para o homem errado.
— Linda...
—Não, tudo bem — falou bebendo um bom gole da cerveja —, eu me deixei levar por flores e corações que Gustavo me oferecia, mas ele é igualzinho aos outros caras com quem dormi. Igualzinho ao que abandonou minha mãe. E, bem, é seu irmão.
— Eu não vim pra cá pra defender o Gustavo — garanti —, não é porque ele é meu irmão que vou justificar suas atitudes.
— Eu até queria isso — confessou, olhando-me nos olhos —, alguém que me abraçasse e dissesse que tudo o que ocorreu ontem foi verdadeiro e que eu não fui mais uma que ele transou e caiu fora.
— Acho que agora você me entende, não é? — Perguntei, engolindo um bom gole do suco de maracujá.
Porque eu não ia, não ia mesmo, encher a cara um dia antes de subir ao altar.
— Entendo — ela respondeu. — Nunca queremos enxergar as coisas como elas são, estamos aqui, com a verdade estampada bem na nossa cara, mas preferimos nos enganar porque a ilusão às vezes é melhor que a realidade.
— Sabe, quando Ricardo me traiu com aquela moça lá no reggae, eu repeti pra mim mesma que ele havia feito aquilo por conta da nossa última briga f**a, que tinha acontecido há seis meses mais ou menos. — contei meio sem graça.
Linda sorriu.
— Assim que eu vi a Emile pensei que ela havia acabado de chegar de viagem e estava tentando uma reconciliação — confessou —, quando na verdade seu irmão só estava tentando encontrar uma maneira de me despachar.
Num ato de desespero, caímos na gargalhada. Até que seu celular vibrou, anunciando uma nova mensagem.
— Brad tá chegando — ela contou ansiosa.
— Bela também — eu disse assim que li a mensagem dela em meu aparelho —, acho que é hora de partir pra outra, não é?
— Na verdade — Linda respondeu, tirando a franja escorrida dos olhos —, essa hora já passou há anos, Larinha.
Eu aquiesci e tentei iniciar algum tipo de conversa que não envolvesse homens e suas babaquices, Linda me ouvia com atenção sobre o lance de esfumar bem os olhos para que a maquiagem ficasse impecável, no entanto alguém cortou nosso clima.
— Precisamos conversar — Gustavo falou, pondo-se em nossa frente.
— Se quer uma sessão fale com minha secretária, ela agenda minhas consultas — Linda respondeu impassiva, sem ao menos olhar para ele.
Encarei meu irmão, de pé, agoniado, olhando para ela em total desespero.
— Você sabe que não é isso que quero — ele contrapôs agitado —, eu te devo uma explicação.
Então Linda o encarou, gélida, e sorriu ao passo que virava a bebida de vez. Depois cruzou as mãos sobre a mesa e, sem desviar a atenção, respondeu calmamente:
— Você não me deve nada, porque eu nunca te pedi nada.
— Eu sei que está me odiando nesse momento, mas tudo aconteceu rápido demais. Emile me ligou dias atrás e me falou da suspeita, eu achei que era mentira, porque ela vivia fazendo isso quando eu falava em terminar, mas...
— Chega, Gustavo — cortou-o sem mudar a expressão serena —, está tudo bem pra mim, foi só uma transa, não entendo por que tanta preocupação.
—Não foi só s**o. — ele assegurou. — Tudo o que ocorreu ontem foi muito especial pra mim.
— Pena que pra mim não foi tudo isso — rebateu cheia de arrogância —, como eu disse; apenas uma transa.
— E cinco orgasmos consecutivos.
Engasguei, meu rosto pegou fogo de vergonha e eu me encolhi na cadeira.
— Sério que você acreditou? — Ela perguntou, desafiando-o. — Estava cansativo, Gustavo, maçante, tive que fingir a coisa toda pra que aquilo acabasse de vez.
Cinco vezes?
— Você está mentindo — ele apontou, magoado.
— Não, não estou — garantiu, e se eu não tivesse encontrado-a mais cedo acreditaria que estava sendo sincera. — Cai na real, Gustavo, o mundo não gira em torno do seu p*u.
— Eu estou aqui — falei por fim, constrangida, mas eles me ignoraram.
— Eu sempre me importei com você, Pocahontas.
— Que modo diferente de se importar esse seu — ela retrucou, deixando perceptível a mágoa em sua voz e a decepção em seus olhos.
Guga bufou.
— Estou sendo sincero — assegurou —, eu sempre te amei, p***a!
— Sério? — Ela perguntou, levantando-se, então parou em frente a ele, posicionando o corpo a poucos centímetros, meu irmão estremeceu, e sorriu esperançoso. — Então você passou esse tempo todo ao lado das suas namoradas enquanto guardava seu grande amor por mim?
— Você nunca me deu uma chance, c****e!
— Você nunca me pediu a porcaria de uma chance, c****e!
— Acho que vou... — fui me levantando aos poucos.
— FICA! — Os dois gritaram ao mesmo tempo e eu me sentei inconformada.
Quando olhei para a porta avistei um rapaz alto, bem vestido, de rosto quadrado e cabelos claros.
Brad.
— Sabe por que descobri que você estava aqui? — Guga perguntou, encarando-a com intensidade.— Porque foi aqui que eu vim te consolar, assim que o carinha da sétima série te disse que Percy Jackson era melhor que Harry Potter.
— Hum... eu nã...— a voz dela vacilou, e suas bochechas avermelharam-se.
Como eu ainda mantinha o olhar fixo na entrada, vi quando Bela entrou no bar, meio atordoada. Ela me viu e acenou discretamente, apontei apreensiva para o rapaz, que vasculhava o local à procura de Linda, e ela arregalou os olhos.
— Agora diz — Guga pediu, tocando seu rosto —, diz que eu não me importo com você, Pocahontas. Diz que eu não te amo.
Brad nos avistou e sorriu, aliviado, mas antes que ele viesse até nós, Anabela o interrompeu, puxando-o pelo braço, e colou a boca na dele com intensidade.
Para nossa sorte, o beijo foi correspondido com sucesso.