Quarenta e cinco minutos.
Foi o tempo que gastamos para chegar até a catedral, onde, amanhã, acontecerá meu casamento. Passei o caminho inteiro com a cabeça encostada na janela, minha mão na correntinha, o pensamento longe... Haviam tantas perguntas rodopiando em minha cabeça.
Mamãe também viu rugas em papai ou isso foi apenas parte da imaginação fértil de Madá?
O que eu tô pensando?
Quando Madá fala dele seus olhos brilham e ela parece uma adolescente apaixonada, é claro que não se arriscaria numa simples teoria se esta não fosse, de fato, importante.
Confusa, eu estou tão confusa...
Quatro dias atrás eu entraria naquela igreja sem a menor sombra de dúvidas de que eu seria a mulher mais feliz de todo universo. Para sempre.
Entretanto, quatro dias atrás eu não recebia mensagens ou fotos sugestivas de que Linda e Ricardo eram amantes. E, sobretudo, quatro dias atrás eu não conheci um mocinho — lindo, inteligente, petulante, divertido e gost... — cujo olhar remetia a um oceano de turquesas. Sem falar das covinhas, afundando em suas bochechas, desmoronando cada parte de mim...
Falei? Ferradíssima!
— Está tudo bem, boneca? — Papai perguntou assim que estacionou o carro.
Fiz que sim com a cabeça e forcei um sorriso.
Silenciosamente, ele desceu do carro e em seguida abriu a porta para mim, esticou sua mão e me ajudou a descer. Só então pude ver, por detrás de seu olhar sereno, aquela pontadinha de tristeza. Não era fácil para ele deixar-me ir, tampouco para mim ir embora de vez.
Papai enlaçou seu braço no meu e, juntos, caminhamos até a igreja, subimos cinco degraus até chegar à enorme porta semi-aberta. Senti calafrios, pânico, e uma dificuldade imensa de respirar.
Soltei meu braço e recuei.
— Que há de errado, Larah? — papai quis saber, preocupado.
Puxei uma boa lufada de ar.
— Eu preciso pensar um pouco — respondi descendo os degraus —, por favor, papai, me espere aí. Não demoro.
Então me afastei, e, quando me certifiquei de que estava fora do seu alcance, explodi.
— Você não tem esse direito, sabia?! — Inquiri furiosa andando de um lado para o outro. — Invadir meus pensamentos nos quarenta e cinco do segundo tempo? Quem você pensa que é?
Não houve resposta, é claro que não haveria, contudo, eu continuei:
— É o meu casamento, Lucas! — exclamei com as mãos na cintura e abri um sorriso triunfante — E adivinha só? Eu estou na estação certa.
Alarguei o sorriso.
— Sacou? Estação certa! — e ri, meio descontrolada.
Respirei fundo e apontei para trás, em direção à catedral.
— Agora, eu vou entrar naquela igreja — decretei —, participar do meu ensaio matrimonial, e depois de amanhã você nunca mais, eu disse nunca mais, vai surgir no meu caminho outra vez. Estamos entendidos?
Encarei o silêncio da noite como um “sim”.
— É muito bom fazer acordo com você, mocinho — segurei a pequena barra do vestido e voltei. Enlacei o braço de volta no de papai e fiz um aceno positivo. — Tô pronta.
— Então vamos lá — ele disse —, vamos acabar com essa gente.
Eu ri e, juntos, adentramos no imenso local.
Toda minha inquietação foi embora assim que pisei os pés sobre o tapete vermelho. A decoração estava linda, arcos de flores enfeitados nas gigantescas colunas, pétalas brancas espalhadas pelo chão, uma pequena orquestra no alto da bancada e um cheirinho bom de morango misturado com cereja — meus aromas preferidos.
Ricardo havia pensado em tudo!
— Boneca, eu vou avisar ao Nando que a peruca dele está torta — papai comentou, soltando meu braço.
— Mas a peruca dele não está torta — contestei.
Ele olhou para mim e sorriu, travesso.
— Eu sei — depois caminhou até o irmão, como se fosse uma criança birrenta.
Revirei os olhos e avistei a mulher de cabelos loiros, cortados no estilo Joãozinho, com um vestido rosè grudado em seu corpo magro e esguio, vindo animadamente em minha direção. Era Dávila, a cerimonialista.
— Onde tá o Ricardo? — Perguntei antes dos cumprimentos.
— Acabei de entrar em contato com ele — disse ela com tranquilidade —, avisou que vai demorar um pouco, mas logo estará aqui. Enquanto isso você pode, sei lá, conversar com seus familiares, reler os votos, ignorar seus sogros.
— Que maldade — eu cobri a boca para não rir.
Dávila olhou para trás, especificamente para onde Carmem e Julius estavam, de pé, com cara de poucos amigos, depois voltou-se para mim.
— Eles não me deixam em paz — confessou — “Dávila faz isso” “Dávila faz aquilo”, eu não posso ignorá-los, mas você pode, então, faz isso por mim.
— Com prazer — respondi.
Ela assentiu, deu dois tapinhas em meu ombro e deu as costas, mas antes, reteve os passos, virou-se para mim e sorriu:
— Você está maravilhosa, Larah. — elogiou com sinceridade.
— Obrigada. — agradeci, ajeitando a tiara em minha cabeça.
Ela aquiesceu e voltou a caminhar pelo local, analisando os detalhes, avistei Linda sentada em um dos bancos, acenando para mim feito louca. Rolei os olhos e fui até ela.
— Achei que você não vinha — foi dizendo assim que me sentei. — Como está?
— Bem — respondi fitando o lustre —, como foi lá no bar?
— Eu quase beijei seu irmão — ela cochichou.
Olhei para ela e pude ver o choque em seu olhar.
— É normal — confortei-a —, pelo menos é isso que fazemos quando o cara que amamos tá lá se declarando.
— Sim — ela falou ajeitando uma mecha do cabelo —, se a namorada do tal cara não invadisse o local bem na hora.
— Mentira — cobri a boca —, e aí?
— Aí que foi uma loucura atrás da outra, Larinha — Linda contou. — Eu caminhei possessa, interrompi o beijo da Bela e do Brad e fingi estar com raiva.
— Não acredito que perdi isso. — resmunguei.
—Você tinha que ver a cara da Bela sem entender nada da situação — Linda continuou, reprimindo a gargalhada —, mas pensa que acabou por aí?
— Teve mais?
— Sim. O tonto do seu irmão entendeu tudo errado e achou que eu tava mesmo com ciúmes, aí quis brigar com o Brad.
— Deus! — Exclamei. — E a Emile?
— Começou a chorar e disse que estava sentindo uma dor muito forte.
— Assim, do nada? — Indaguei, perplexa.
— Sim — o olhar de Linda ficou vago —, foi tão estranho...
— Acha que ela tava fingindo? — Perguntei.
— Não. — A resposta veio convicta. — Tem alguma coisa de errado com ela, o médico alegou que foi emocional, mas...
— Peraí — interrompi, totalmente perdida —, médico...?
Linda riu, envergonhada.
— Depois da confusão toda, o dono do bar nos expulsou, então fomos parar no meio da rua, com Emile nos braços do seu irmão.
— Ainda sentindo dor?
— Sim — respondeu compadecida. — Não tivemos alternativa a não ser ir para o hospital mais próximo. No Tufão.
— Todo mundo? — Eu quis saber, incrédula.
— Brad convidou Bela pra ir com ele na moto, e não me pergunte sobre os dois, quando saímos do hospital eles já tinham caído fora.
Arregalei os olhos.
— Você acha que...?
—Com toda certeza do mundo — Linda respondeu entusiasmada.
— E você tá bem com isso? — Quis saber estudando seu rosto. Nenhum traço de mágoa em sua expressão.
— Ah, Larinha, eu seria uma vaca egoísta se ficasse com raiva. Além do mais, Brad não me atrai.
— Mas ele é lindo — argumentei —, isso você tem que admitir.
— É claro que o cara é lindo — então comprimiu os lábios —, mesmo com um hematoma no olho esquerdo.
— Gustavo. — concluí.
— Gustavo. — ela repetiu e nós rimos baixinho.
Linda olhou para trás e, com a expressão murcha, apontou:
— Por falar nele...
Olhei para a mesma direção que ela e encontrei meu irmão, entrando na igreja, praticamente colado com a namorada. Guga estava ainda mais bonito, os cabelos descolados super ajeitados, enfiado em um terno escuro, digno de um padrinho de casamento, que desenhava seu corpo bonito, e aquele seu sorriso sacana nos lábios. Emile olhou para nós e retorceu o nariz, depois cochichou algo no ouvido de Gustavo e sorriu, como se estivesse querendo nos provocar.
— Eles parecem felizes — Linda comentou do meu lado.
— Fingimento — cochichei —, você sabe por que Guga voltou com ela.
— Seu irmão parecia bastante preocupado — ela comentou —, acho que ele gosta mesmo dela. E a Bela tá transando com o Brad, céus!
Eu ri.
— Bela é desapegada — cochichei ainda observando o casal —, logo, logo ela entrega o Brad de bandeja pra você.
— Eu queria mesmo era esse tatuado de cabelos castanhos que fode bem pra caramba.
— Linda! — Censurei, minhas bochechas ardiam de tanta vergonha. — Estamos numa igreja se não percebeu.
—“Não levantarás falso testemunho” — ela recitou levantando a palma da mão para frente. — Tô seguindo os mandamentos.
— Você é impossível! — Retruquei.
Senti que alguém me observava e olhei para o lado.
Era Carmem, sentada em um dos bancos de madeira, me encarando com seu olhar de desprezo. De pé estava Julius, certamente dando ordens à coitada da Dávila. Desviei o olhar deles e voltei a encarar meu irmão, que batia papo com tia Lena.
— Sua mãe está estonteante — elogiei, levantando-me.
— Você não vai...
— Sim — respondi já de pé —, vou perguntar onde ela comprou esse vestido vermelho maravilhoso! Já volto.
E saí.
No meio do caminho encontrei papai e tio Nando batendo boca sobre futebol, dei um beijo nos dois e me aproximei do trio, abracei tia Lena por trás e encarei Emile, sem disfarçar minha antipatia.
— Esse vestido é tão lindo, tia! Eu juro que não vim perguntar onde foi que a senhora comprou.
Ela e Guga riram. Emile, não.
— Que seu tio não me ouça, mas o dono da loja é mais! — suspirou.— E um amor de pessoa, inclusive.
— Vou contar pra ele — Guga brincou, depois voltou-se para mim. — O dono é meu amigo, pirralha.
— O mesmo cara lá do almoço...?
— Sim, você vai gosta del...
— Não sabia que seu noivo e sua prima eram amigos — Emile comentou de súbito.
Acompanhei seu olhar e tentei, tentei mesmo, disfarçar o choque.
Mas como?
Ricardo estava sentado ao lado de Linda, conversando baixinho, com a mão enfiada nos cabelos bem arrumados. Lembrei dele mais cedo, no carro, quando estava ao telefone, e soube, diante da cena que transcorria em minha frente, que não havia ninguém da empresa perturbando-o.
E sim, ela.
Eles me viram e tudo ficou ainda mais estranho. Linda corou, forçou um sorriso sem graça e abaixou a cabeça, como se fosse incapaz de olhar em meus olhos. Já Ricardo me encarou com adoração e veio depressa até mim.
E eu?
Eu queria sacudi-los e perguntar de onde veio tamanha i********e! O que era tudo aquilo, afinal?
Há pouco mais de um mês os dois eram inimigos mortais e agora... Almoçam juntos, cochicham e discutem ao telefone. Isso é demais para mim. É demais para qualquer pessoa.
— Você está perfeita — ele disse depositando um beijo em minha boca —, fez os votos?
— Fiz ontem — menti —, e você?
— Semana passada — respondeu, então segurou minha mão e me encarou com aquela nostalgia de antes —, essa noite vai ser inesquecível, Larah.
Sim, ele estava certo.
Contudo, ela não seria lembrada de um jeito bom.
Dávila era uma ótima cerimonialista.
Organizou tudo com seu jeito autoritário, sem perder a delicadeza e elegância. A pequena orquestra começou a tocar as notas daquela música, a mesma que ouvimos em seu carro, hoje à tarde.
Ricardo estava na outra ponta, perto do altar, ao lado dos pais. Quando questionei sobre os tios — seus padrinhos —, ele deu de ombros e falou algo do tipo: “não são tão importantes, querida.” Quis perguntar o porquê, mas não tive tempo, logo o padre chegou e Dávila separou a gente.
Linda e Guga estavam do outro lado, praticamente petrificados, meus tios estavam próximos a eles, de mãos dadas, sorrindo como dois namorados. Já Papai e eu permanecíamos na entrada, com os braços ainda enlaçados, esperando o sinal da cerimonialista para começarmos o tal ensaio.
Corri o olhar e encontrei Emile, sentada num dos últimos bancos, com cara de tédio, desviei a atenção para Dávila, que fez um sinal positivo com a cabeça.
Então a orquestra embalou a clássica melodia dos casamentos e nós dois entramos, lentamente.
O caminho até o altar era extenso, e a cada passo dado, mais ansiosa e inquieta eu ficava.
Todos me olhavam nesse momento, e eu não sabia que me sentiria tão envergonhada por isso, busquei o olhar de Ricardo e ele sorriu.
Tentei enxergar suas rugas, seus cabelos brancos, mas tudo que vi foi o rapaz jovem, com reflexos claros nos cabelos, o terno branco bem ajustado em seu corpo bonito, a flor vermelha na lapela e a expressão de quem nunca envelheceria...
Talvez a teoria do velhinho não precisasse ser assim, tão literal.
Eu não estava tão longe do altar, e o sorriso de Ricardo me motivava a seguir adiante. Então as luzes piscaram por duas vezes seguidas e, instintivamente, olhei para a porta do lado, semi-aberta.
A cabeleira azul de Meg foi a última coisa que vi antes de tudo se apagar por completo.
Alguém esbarrou em mim e eu caí.
Era impossível enxergar alguma coisa ali dentro, e suspeitei que aquela parte da cidade também havia sofrido um apagão, como naquela noite da boate.
Escutei alguns gritos de susto e tentei me levantar, mas não consegui.
Maldito salto alto!
Senti a presença de papai ao meu lado, tentando, em vão, me ajudar.
Tudo estava tão, tão escuro...
Levou mais ou menos dez minutos para que as luzes se acendessem novamente. Eu ainda estava zonza com o acontecido, mas assim que levantei a cabeça, corri o olhar pelo local.
O amarelo do vestido de Linda foi a primeira coisa que consegui enxergar, depois percebi que ela abraçava meu irmão, apavorada, já tio Fernando estava abaixado, procurando, certamente, a peruca que havia caído em meio à confusão.
Entretanto, algo ali não se encaixava.
Os pais de Ricardo me fulminavam com o olhar, Emile me encarava com algo semelhante à pena e papai me dizia palavras de apoio.
Permaneci quieta, olhando em volta.
O padre de cenho franzido. A orquestra muda. Gustavo em choque. Dávila embasbacada...
Foi então que, estudando tudo aquilo, eu percebi o que havia de errado.
Todos me olhavam assim porque… porque…
— O noivo — Tia Lena gritou, horrorizada —, o noivo sumiu!
FIM