Beatriz Amar através das grades é aprender outro idioma. Às vezes é força: eu fico de pé quando o mundo manda sentar. Às vezes é ilusão: converso com o vidro como se ele fosse pele. Às vezes é destino, desses que a gente não pediu e, mesmo assim, reconhece de longe. Talvez seja tudo ao mesmo tempo, um fio esticado em que caminho com o coração na boca. Na clínica, a rotina fingia normal. Eu lavava, enfaixava, anotava. Por dentro, contava dias: carta que chegou, visita que faltou, bilhete que prometi. A chefe, doutora Lídia, me chamou na salinha de porta fina. — Beatriz, senta um minuto. Sentei. — O bairro comenta — ela começou, sem perfume. — “Namorada de preso na enfermagem.” Não vou fingir que não pesa para a imagem da clínica. — Eu sou a mesma que segurou a mão do teu pai na madrug

