Marcelly
Coloquei a bolsa nas costas e saí da minha sala procurando o Lucas e a Raquel. Hoje era véspera de feriado, então pensa em como estávamos animados. Vi os dois vindo na minha direção juntos e acompanhei eles até a saída.
Raquel: A gente viu seu pai... – Falou, e o Lucas ficou em silêncio. – Ele é um gostoso, né? Por que tu nunca comentou isso?
Marcelly: Cala a boca, Raquel. – Repreendi e o Lucas olhou puto pra ela.
Lucas: Eu não quero falar sobre ele, aquele p*u no cu. – Falou baixinho. – Ele meteu maior bronca pra cima de mim.
Marcelly: Ué, cara, ele não é teu pai? Queria o quê?
Lucas: Vocês duas tão do lado de quem? Num fode, pô, sabem que eu não gosto do cara e tão nessa.
Nem puxei mais assunto – nesse caso era melhor a gente realmente não comentar mais nada. A gente desceu e cada um foi para suas casas.
Minha mãe estava dormindo no quarto, devia ter chegado de manhã do plantão. Almocei e fui dar um jeito na casa, pra não ficar limpando amanhã. Depois deitei no sofá e dormi.
(...)
Marcelly: Vai ser na casa do Lucas, mãe, por favor. – Pedi novamente.
Adriana: Tu é chata, hein, Marcelly? p**a que pariu.
Marcelly: É feriado e hoje não tem ensaio.
Adriana: Você vai, mas não me inventa de chegar de madrugada. Dorme na Raquel, que mora lá do lado, ou vem de manhã.
A lógica da minha mãe era sempre essa: eu não voltar de madrugada. Ela preferia que eu chegasse às sete da manhã, quando já estava claro, do que no escuro. Dei um beijo na bochecha dela em agradecimento e subi pra me arrumar.
Lucas inventou de fazer uma resenha na casa dele, chamou a gente quase agora pô – foi tudo de última hora. Fui tomar meu banho e me arrumar. Escolhi um vestido curto branco e um tênis branco nos pés. Finalizei meu cabelo e fui fazer a maquiagem.
Quando estava quase pronta, mandei mensagem avisando a Raquel que já estava indo. Me despedi da minha mãe e subi a comunidade. Eles moravam mais pra cima de mim, e o Lucas mesmo morava no alto, onde normalmente ficava a casa dos envolvidos.
Raquel: Ainda bem que você chegou, já estava quase indo pra vó do Lucas e o bonito me fala que a resenha é na casa do pai.
Marcelly: E o pai dele vai estar lá?
Raquel: Você não conhece o traste do Lucas, não? Certeza que tá aprontando.
Pior que ela estava certa. Se bobear, o pai dele nem tinha consentido essa festa. Já deixei avisado que, se tivesse bandidos lá, eu iria embora.
Quando chegamos, já tinha uma porrada de gente. Algumas eu até conhecia, outras eram amigos de não sei onde do Lucas. Busquei ele com o olhar e o vi trocando papo com uma menina. Fui até ele junto com a Raquel.
Raquel: Lucas – chamou a atenção dele, que desviou o olhar da menina e virou de frente pra nós – jurava que ia ser na sua vó.
Lucas: Lá não tem nem espaço. Meu pai foi viajar e eu animei essa festinha aqui, pra ele se redimir comigo.
Marcelly: Se redimir de quê? – Franzi a testa.
Lucas: Da treta que arrumou na minha vó. Ele acha que eu sou criança, vou mostrar que não.
Marcelly: Tá provando o contrário. – Falei, e ele ficou quieto. – Vamos beber, Raquel.
Já tinha saído da minha casa, então iria ficar aqui. Mas não achei certa essa atitude dele. Assim, ele não tava provando nada – pelo contrário, tava parecendo uma criança desesperada pela atenção do pai.
Peguei um copo de gin pra tomar junto com a Raquel. Chegaram alguns conhecidos da escola e a gente se misturou. Apesar dos pesares, eu estava curtindo a resenha. O som tocava só funk ritmado e todo mundo dançava. Eu já tinha perdido a noção do horário quando percebi que era madrugada. O cheiro de maconha já tinha me deixado tonta pra c*****o – tava caindo de sono, na brisa sem nem colocar um baseado na boca.
Lucas: Pega a noite por aqui. Fica eu, você e a Raquel. Daqui a pouco o pessoal vai embora e tá tarde pra vocês.
Raquel: Se a Marcelly ficar, eu fico.
Marcelly: A questão é se você ficar, eu fico, porque eu ia dormir na sua casa.
Ela me olhou surpresa – esse detalhe eu não tinha avisado.
Raquel: Então vamos dormir aqui, já estamos aqui.
Aproveitei mais um pouco ainda a resenha. Quando começou a esvaziar, já era quatro da manhã. Mas teve uma hora que não aguentei – tinha acordado cedo. Além de que eu estava sobrando entre a Raquel, o Lucas, um amigo dele e outra menina.
Lucas: Segunda porta à direita tem um quarto, pode pegar uma camisa minha e tomar banho.
Marcelly: Valeu, amigo.
Entrei pela casa e abri a porta. Diferente do restante da casa, aqui entregava toda a personalidade de quem morava ali: o pai do Lucas.
Abri o guarda-roupa, sem querer ser enxerida, e vi alguns relógios de marca, perfumes, coisas finas. No outro lado, roupas mais simples. Peguei uma camisa larga.
Entrei no banheiro e tomei um banho relaxante. Tive que abrir um sabonete novo e, pra minha sorte, achei o último guardado. Saí do box e me sequei.
Marcelly: p***a. – Resmunguei quando notei que havia esquecido a blusa do lado de fora.
Destranquei a porta e fui até a cama, onde tinha deixado a camiseta branca. No momento em que tirei a toalha do corpo e peguei a blusa, uma voz grave e cheia de irritação ecoou pelo quarto.
Tubarão: Moleque do c*****o, quem é que tá aqui?
Meu coração congelou. Antes mesmo de conseguir reagir, a porta se abriu com força e ele entrou.
Meu corpo ficou imóvel. O olhar dele percorreu por mim, demorando segundos a mais do que deveria. O choque no rosto do Tubarão se transformou em algo indecifrável. Minha pele ainda úmida do banho parecia estar pegando fogo – vesti a camisa apressada. Mas não fui rápida o suficiente para apagar da memória o que ele havia visto.
Ele permaneceu em silêncio e minha boca abria e fechava várias vezes, mas eu não conseguia dizer nada – estava morta de vergonha.