MELISSA
Eu não precisei que Miguel dissesse nada.
Havia algo errado no ar desde o momento em que atravessei os portões do prédio da família Duarte. Mitte sempre me causava essa sensação incômoda como se cada rua observasse, cada fachada julgasse. Mas naquele dia era diferente. Mais denso. Mais calculado.
Era o tipo de lugar onde erros não eram perdoados. Apenas usados.
— Minha mãe quer conhecê-la — Miguel disse enquanto caminhávamos pelo hall amplo e silencioso.
O tom era neutro demais.
— Quer ou precisa? — perguntei.
Ele lançou um olhar rápido para mim, atento.
— As duas coisas — respondeu. — Klara não faz nada por curiosidade apenas.
Isso confirmou tudo o que meu instinto já gritava.
Subimos em silêncio. O elevador parecia mais lento do que o normal, e eu aproveitei aqueles segundos para organizar minhas defesas. Não adiantava fingir ingenuidade. Klara Duarte não seria alguém a ser enfrentada com espontaneidade.
Ela era estratégia.
Quando as portas se abriram, senti imediatamente a mudança no ambiente. O apartamento era luxuoso, mas frio. Nada fora do lugar. Nada pessoal demais. Era um espaço pensado para impressionar e intimidar.
E ela estava lá.
Klara Duarte levantou-se do sofá com elegância absoluta. Vestido claro, postura impecável, olhar afiado como lâmina recém-afiada. O sorriso que abriu ao me ver não chegou aos olhos.
— Melissa Montez — disse, pronunciando meu nome com cuidado exagerado. — Finalmente.
O coração bateu mais forte no meu peito, mas mantive o rosto impassível.
— Senhora Duarte — respondi.
Ela inclinou levemente a cabeça, analisando cada detalhe meu como quem avalia uma peça rara… ou defeituosa.
— Pode me chamar de Klara — disse. — Afinal, estamos… próximas agora.
Próximas.
A palavra soou como ameaça.
— Vou deixá-las um momento — Miguel falou. — Preciso atender uma ligação.
Olhei para ele, surpresa. Ele hesitou por um segundo, como se soubesse que me deixaria sozinha em território inimigo. Mas saiu mesmo assim.
E a porta se fechou atrás dele.
O silêncio que se instalou foi pesado.
— Sente-se — Klara indicou uma poltrona à frente dela. — Fique à vontade.
Obedeci, sem baixar a guarda.
— Você é muito jovem — começou ela, cruzando as pernas com calma ensaiada. — Mais jovem do que eu imaginava.
— A idade nem sempre define maturidade — respondi.
Ela sorriu.
— Gosto de mulheres que sabem se defender com palavras — disse. — Miguel também.
O nome dele saiu da boca dela com posse.
— Diga-me, Melissa — continuou — você sabe exatamente onde está se metendo?
Segurei o impulso de responder impulsivamente.
— Sei que estou ao lado de alguém que admiro — falei. — E que isso incomoda algumas pessoas.
— Incomoda quando é inconveniente — corrigiu. — Miguel não costuma misturar sentimentos com poder.
— Talvez ele esteja mudando — arrisquei.
O sorriso dela se alargou, mas o olhar escureceu.
— Mudanças nem sempre são evolução — disse. — Às vezes são sinais de fraqueza.
A palavra me atingiu em cheio.
— Você acredita que eu o enfraqueço? — perguntei.
Ela se inclinou para frente.
— Acredito que você o expõe — respondeu. — E isso, querida, é perigoso.
Levantei o queixo.
— Não pedi para fazer parte desse mundo — falei. — Mas não vou aceitar ser tratada como ameaça sem razão.
— Razões existem — disse Klara, com suavidade c***l. — Algumas apenas ainda não vieram à tona.
Meu corpo inteiro entrou em alerta.
— O sobrenome Montez — ela continuou, observando cada micro reação minha — carrega histórias antigas. Histórias que o Conselho das Sombras não esquece.
Meu coração quase parou.
— Coincidências — consegui dizer.
— Coincidências não sobrevivem neste império — respondeu. — Elas são investigadas… e eliminadas.
O ar parecia faltar.
— Miguel não sabe tudo sobre você — ela disse. — E talvez seja melhor que continue assim.
— Está me ameaçando? — perguntei, finalmente.
Ela riu baixo.
— Não — respondeu. — Estou lhe dando uma escolha.
— Qual?
— Afaste-se antes que alguém decida fazer isso por você.
O som da porta se abrindo interrompeu o momento. Miguel voltou, atento demais, como se tivesse sentido a mudança no clima.
— Está tudo bem? — perguntou.
— Perfeitamente — Klara respondeu antes de mim. — Estávamos apenas conversando.
Levantei-me.
— Eu preciso ir — falei, a voz firme apesar do turbilhão interno.
Miguel franziu a testa.
— Agora?
— Sim — confirmei. — É melhor.
Ele me acompanhou até a porta, silencioso.
— O que ela disse? — perguntou, assim que entramos no elevador.
Olhei para ele, para o homem que eu estava começando a amar… e menti.
— Nada demais — respondi. — Apenas conselhos de mãe.
O elevador desceu, mas meu mundo inteiro parecia estar caindo.
Klara não tinha apenas plantado dúvidas.
Ela tinha armado o tabuleiro.
E eu sabia, com clareza dolorosa, que aquela mulher faria de tudo para me tirar do caminho do filho.
Inclusive usar verdades que eu ainda não estava pronta para revelar.
Ao sair para a rua fria de Berlim, uma certeza se formou dentro de mim:
O amor que estava nascendo entre Miguel e eu agora tinha inimigos poderosos.
E Klara Duarte tinha acabado de declarar guerra —
sem levantar a voz,
sem deixar marcas visíveis,
mas com a precisão de quem sabe exatamente onde ferir e eu precisava ficar bem atenta a cada alerta porque a guerra não avisa quando vem. Klara era claramente uma mulher perigosa e só de olhar para ela me dava um frio na espinha deixando o ar muito mais tenso, mas o que ela não sabia é que eu estava preparada para o que viesse sem ter medo.
Miguel era totalmente diferente dos seus pais e isso tornava meu plano muito mais difícil, porque eu precisava dele para chegar até Romero, mas o destino tomou outra direção me deixando de mãos atadas sendo obrigada a recalcular a rota.