Capítulo 18 – A Coroa das Duas Luas

1137 Palavras
As Cavernas do Coração da Terra pareciam não ter fim. Cada passo que o grupo dava revelava um novo corredor, uma nova escultura, uma nova história gravada em pedra. A cada parede, runas brilhavam com luz tênue, reagindo à presença de Mayara como se reconhecessem sua linhagem. Os guardiões caminhavam com cautela. Aurora seguia à frente, iluminando o caminho com pequenas esferas de luz dourada. Kael mantinha a espada empunhada, atento a qualquer movimento. O som dos passos ecoava, misturado ao pulsar ritmado que vinha das profundezas — o batimento do coração da Terra. — Essas cavernas são um labirinto de eras — murmurou Aurora, observando um conjunto de painéis. — Veja... aqui mostra os antigos reis da floresta, antes da união das raças. Mayara se aproximou, tocando o relevo da pedra. As figuras mostravam seres de formas variadas — humanos, elfos, draconianos e espíritos elementares — unidos por uma mesma energia circular. No centro, havia uma mulher de olhos brilhantes, segurando algo sobre a cabeça. — Uma coroa... — sussurrou Mayara. — Ela a segura como se fosse a própria fonte da vida. — Talvez seja o mesmo símbolo que estamos destinados a encontrar — respondeu Kael, o olhar firme. Continuaram descendo por uma escada escavada em pedra viva. O ar tornava-se mais denso, quase vibrante. E então, o corredor se abriu em uma imensa câmara circular. O teto era tão alto que as luzes das tochas não o alcançavam. No centro da sala, uma coluna de pedra subia como um pedestal. E sobre ela — flutuando levemente, envolta em uma névoa prateada e n***a — repousava uma coroa. O grupo parou, em silêncio absoluto. Era uma peça magnífica, impossível de descrever em apenas uma palavra. Os arcos dourados se entrelaçavam com finas lâminas escuras, como se o ouro e a sombra estivessem dançando lado a lado. Pequenos cristais pulsavam, alternando entre o brilho quente da luz e o frio da noite. A energia ao redor dela fazia o ar ondular. Era uma mistura de beleza e perigo. — Nunca vi nada assim... — murmurou Aurora. — Ela é viva. Mayara se aproximou lentamente, sentindo o poder vibrar em sua pele. Cada passo a aproximava de algo que parecia chamá-la, como se uma voz sussurrasse seu nome dentro da mente. — Cuidado — disse Kael, pondo-se ao lado dela. — Essa energia... parece antiga demais. Mayara assentiu, mas não recuou. Quando seus olhos se fixaram na base do pedestal, viu que havia uma inscrição gravada em língua antiga. As letras se moviam levemente, como se respirassem. Ela se abaixou e leu em voz baixa: > “Somente no momento certo ela fará a escolha. Se outro ousar tomá-la antes do tempo, a escuridão o consumirá para sempre.” O eco das palavras pareceu despertar algo na própria coroa. Um sopro gélido percorreu a câmara, e por um instante, o brilho das tochas vacilou. — Então é uma prova — murmurou Kael. — Uma coroa que escolhe seu portador... e pune o impaciente. Mayara ficou imóvel. A lembrança da visão com sua mãe e Noctra voltou à mente — o equilíbrio, o preço do poder, o aviso sobre o abismo. Ela sabia o que aquilo significava. — Essa é a Coroa das Duas Luas — disse, com a voz baixa, mas firme. — A união entre luz e escuridão. Ela foi criada quando o mundo ainda era jovem... quando minha mãe e Noctra eram uma só essência. Aurora deu um passo à frente. — Isso quer dizer que ela pertence a você, Mayara. Mas a jovem balançou a cabeça. — Não ainda. Estendeu a mão lentamente, e a energia reagiu de imediato. As sombras se agitaram como fumaça viva, enquanto a luz ao redor da coroa pulsava. O chão vibrou, e por um momento, todos pensaram que a caverna desabaria. Kael tentou segurá-la. — Mayara, não faça isso! Mas ela já havia tocado a coroa. Um clarão envolveu a sala, lançando todos para trás. Um som ensurdecedor ecoou, e o ar pareceu ser sugado para o centro da câmara. Mayara permaneceu imóvel, os cabelos flutuando ao redor, os olhos iluminados por um brilho misto — dourado e violeta. A coroa repousava sobre suas mãos, leve como o ar, mas pulsando com energia viva. Ela sentia o poder tentando se comunicar, sussurrando em línguas esquecidas. > “Ainda não é o tempo...” A voz veio de dentro dela, clara e antiga. Mayara respirou fundo e respondeu, como se falasse com o próprio espírito do artefato: — Eu sei. Mas o tempo virá. Com cuidado, envolveu a coroa em um tecido sagrado que Aurora lhe entregara, e a guardou em sua bolsa de viagem. — Não vou colocá-la — disse, firme. — Não enquanto eu não entender completamente o que ela representa. Kael a observava com admiração e receio. — Você sente o peso disso, não sente? — Sim — respondeu ela, encarando o pedestal vazio. — Essa coroa é uma promessa... e uma ameaça. — E talvez — completou Aurora — a última esperança que temos. --- Enquanto se preparavam para deixar a câmara, um tremor percorreu o chão. Fendas se abriram nas paredes, revelando símbolos que antes estavam ocultos. As runas começaram a brilhar intensamente, e uma projeção luminosa surgiu diante deles — imagens que contavam a história que havia sido esquecida. Duas irmãs, unidas pela magia. Uma representava o dia; a outra, a noite. Juntas, criaram a vida, mas divergiram sobre como usá-la. Uma acreditava na harmonia. A outra, na força. E quando o conflito as separou, a coroa foi dividida — metade ouro, metade sombra — para um dia escolher quem seria capaz de unir novamente o que foi partido. As imagens se dissolveram no ar, deixando todos em silêncio. — Então... — disse Kael, após alguns segundos — ...essa coroa não é apenas um símbolo de poder. É a chave da restauração. Mayara assentiu. — E também da destruição, se cair nas mãos erradas. Ela olhou novamente para o objeto envolto em tecido, sentindo a pulsação dentro dele. Era como segurar o próprio coração da floresta. — Quando a guerra vier — disse, com voz firme —, talvez essa coroa seja tudo o que teremos. Aurora colocou a mão sobre o ombro dela. — E se for o destino, que ela escolha você. Mayara sorriu, mas seu olhar estava distante. Lá no fundo, sabia que aquele momento viria. Sabia também que o preço seria alto. Enquanto saíam da caverna, uma última runa brilhou sozinha na parede, atrás deles. Era simples, porém clara: > “O elo foi encontrado.” E quando as sombras engoliram a entrada, a coroa — escondida sob o tecido — pulsou uma vez mais, como se estivesse viva, aguardando o instante em que escolheria, enfim, sua verdadeira rainha.
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