Antes que eu pudesse falar de mim

316 Palavras
Antes que eu pudesse falar de mim, eu já olhava, atônita, o meu reflexo no espelho. Eu encarava aquela imagem que eu não sabia o significado Me divertia com o reflexo daquela pessoa que era parecida comigo, mas talvez não fosse exatamente eu O que seria “exatamente eu”? Antes que eu pudesse falar de mim Eu unia as portas espelhadas do meu guarda-roupa e me escondia no vão entre as duas, para ver meu próprio reflexo dividido em 6 partes Eu me divertia com as 6 partes e imaginava como seria se existissem 6 eus 6 pessoas exatamente como eu mas ainda não sabia quem era eu Antes que eu pudesse falar de mim Já existia uma voz a dizer quem eu sou, então eu deixei que essa voz falasse por mim Essa voz era a minha mãe e a mãe dela a igreja que eu frequentava meu pai um tanto ausente na infância, e o anseio pelo seu abraço Essa voz era Deus, conforme me apresentaram. E também era o modo como eu nunca deixei que Ele se apresentasse, neurótica obsessiva que sou, com medo do incerto e do desconhecido Essa voz era meu superego rígido que continha bem mais que as 6 partes do reflexo das portas do guarda-roupa Era um amontoado de vozes de gente que eu lembro, e de gente que eu jamais vou saber. o Outro é quem sabe Embora eu queira que ele se cale Antes que eu pudesse falar de mim, eu já implorava para que os outros falassem primeiro e me dissessem do meu próprio desejo Antes que eu pudesse falar de mim eu escondia meu desejo e o buscava no desejo do outro. queria morar lá, naquele mundo distante Antes que eu pudesse falar de mim me vi sem voz e sem saber se um dia iria enfim falar de mim agora eu falo.
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