Só há desejo, onde há falta.

646 Palavras
Diário de Teresa Plath Dia 09/05 Quando eu era criança, tinha um constante medo de perda e abandono. Por muito tempo, através das diferentes análises as quais passei, com terapeutas que me auxiliaram nesse processo de sentir menos pânico e ansiedade, eu pensei que me veria finalmente livre desses tais sentimentos. Hoje, penso que me ver livre deles, é me ver livre de mim mesma. Não que eu me considere um amontoado de sintomas sufocantes mas, de um jeito ou de outro, negando ou aceitando, são parte do que eu sou. Eu acredito fielmente, que o primeiro passo para uma construção saudável em nosso modo de lidar com nossos demônios, é reconhecendo-os. Você já deve ter brincado de c***a cega, ou seja qual for o nome que é usado em sua região, mas se trata de uma brincadeira em que nossos olhos são vendados e saímos à procura dos outros participantes da brincadeira que fogem de nós. Ficamos temporariamente cegos, buscando pessoas que nos enxergam bem, e utilizamos apenas os sentidos que nos restam: táteis, olfativos e auditivos, para encontrar o outro e repassar a missão ao que foi encontrado pela "c***a cega". Sinto que é desse modo que vivem as pessoas que possuem demônios dentro de si, mas não os reconhecem. Vagam com os olhos vendados, procurando aquilo que não sabem onde está, utilizando sentidos que são insuficientes. Aprecio o processo psicoterapêutico porque, para mim, ele é como uma retirada dessas vendas que nós, inconscientemente, colocamos sob nossos olhos, buscando não enxergar nossos próprios demônios. Quando a venda é retirada e reencontramos a visão, estão ali diante dos nossos olhos, os demônios que vagavam ao nosso redor nos inquietando. Eles não deixam de existir após a retirada da venda, não evaporam como aconteceria em uma mágica milagrosa. Eles são apenas finalmente vistos. E isso é mais importante do que se pode imaginar. Ao olhar nos olhos desses demônios, eles perdem a força exercida sobre você, enquanto ainda estava vendado. Não somem, não vão embora, porém, se enfraquecem. Com seu novo sentido (a visão), você tem uma nova habilidade: a de reconhecê-los. Esse é o processo de autoconhecimento. No entanto, há quem se recuse a retirar a venda que lhe t**a os olhos. Também respeito quem o faça, visto que, somos altamente adaptativos, e há quem se adapte confortavelmente a algo que não lhe faz bem, apenas porque é um lugar seguro. O lugar seguro pode até ser desconfortável, contanto que seja aquele que você sempre esteve. Retirar a venda, sair de lugares seguros, são atitudes arriscadas demais quando não se está preparado. Quando estamos preparados, afinal? Quando o lugar seguro se torna demasiadamente desconfortável, quando o sintoma passa a gritar, quando os demônios vagando ao seu redor, o atormentam o bastante para que você deseje encará-los de frente, enxergando-os. Muitas vezes, é esse tamanho desespero que nos traz a coragem. Como fugir de um animal selvagem e perigoso, em que você adquire uma agilidade e força que não sabia que existiam, até precisar correr desesperadamente para salvar a própria vida. Nunca resisti às idas aos psicólogos, sempre quis me libertar de todos os sofrimentos causados pelos meus inúmeros e complexos transtornos. E por que não me libertei até agora? Por que ainda sofro? Porque não há como libertar-se de si mesmo e, mais do que isso, não há como viver uma vida sem sofrimentos, inquietações, crises existenciais e por aí vai. É uma utopia. A análise deve ser constante especialmente porque nós somos seres inconstantes. Nunca chegarei ao desejado nirvana, onde tudo se acalmará e eu serei plenamente satisfeita com o que sou. Sempre existirá a falta. Porque só há desejo, onde há falta. Mais importante do que ser "normal" em uma sociedade que visa, constantemente, normalizar todos nós ao máximo, é ser desejante. A falta está aqui, e ela nunca será preenchida. Ainda bem.
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