Parte 2...
No útimo ano a saúde de minha mãe ficou um pouco debilitada, mais do que o normal com a vida difícil que ela teve.
Eu espero conseguir me formar e cuidar bem dela. Eu já trabalho aqui há três anos e vejo como o local é organizado e como os funcionários são bons com os que passam por aqui e com os internos permanentes.
Se conseguir uma vaga para minha mãe aqui na casa, vai ser mais fácil para mim, me concentrar nos estudos e me formar. Depois eu posso tentar um estágio aqui.
Não dá pra saber ao certo, mas eu posso tentar.
Com a mente mais focada e o coração aliviado, eu posso me formar em menos tempo porque fico direcionada para o curso.
Quero ser médica. Ainda não sei a àrea, mas com certeza quero trabalhar com pessoas mais velhas.
Patrícia é a enfermeira chefe desse plantão. Eu gosto dela, sei que está fazendo seu trabalho, mas ela sempre fica no pé das enfermeiras e ajudantes, como se a gente não soubesse o que está fazendo.
Eu sou bem atenta aos meus pacientes. Converso com eles, com a família. Questiono os médicos sobre a doença. Eu gosto de entender um pouco do que acontece com a pessoa que está internada.
Ficar em um hospital é muito difícil, especialmente quando são pacientes muito jovens com problemas de saúde grave ou idosos.
Enchi o copinho para a paciente do J2 e bati na porta de leve. A senhora de cabelos grisalhos virou o rosto para mim e sorriu. Devolvi o sorriso com um boa noite animado.
— Boa noite, senhora Cruz, como passou essa tarde? - coloco a bandeja em cima da mesinha ao lado da cama — Seu filho veio vê-la hoje? - sorrio enquanto encho um copo com água.
— Veio sim, mas foi tão rápido - ela puxou o lençol.
— Mas ainda bem que ele veio - meneei a cabeça — Trouxe seus remédios - coloquei as luvas de látex e arrumei tudo na bandeja — Vai tomar esses quatro agora. Na volta da ronda eu passo aqui e vai tomar esses outros aqui - mostrei o outro copinho — A senhora anda meio desligada.
— Quando a gente fica velha, tudo o que faz é tomar remédio.
Eu dei uma risadinha. Como outros pacientes, ela reclamava da quantidade de medicamentos. Era chato mesmo, mas é a vida. Minha mãe também era assim, eu tinha que reclamar com ela às vezes.
Mas eu entendo. Muitas vezes a vida se torna difícil demais.
— Tem muito mais coisas para fazer - entreguei a água — E quando sair daqui, vai descansar um pouco e depois retomar sua vida. Seu filho disse que não a deixou aqui permanente, foi só para que tivesse um cuidado a mais enquanto ele estava fora viajando. Agora que voltou, logo vai querer levar a senhora para casa.
— Ah, minha filha - sorriu pensativa — Eu já vivi muito. Meu filho não tem tempo mais para mim. Ele tem a família dele.
— Quantos anos a senhora tem? - passei o copinho de comprimidos — Se posso perguntar.
— Claro que pode - abanou a mão — Eu não ligo. Estou com setenta e seis anos.
— Olha, que maravilha - balancei a cabeça — Uma vida cheia. Já teve muitas experiências.
Ela suspirou e me deu um sorriso meio de lado. Tomou os comprimidos com a água de uma vez só.
— Pronto - me devolveu o copo.
— Daqui a pouco eu volto para que tome os restantes.
— Você não vai para casa agora?
— Ainda não - chequei o relógio na parede em frente — Daqui a uns quarenta minutos meu horário acaba. Mas antes, tenho que visitar meus pacientes - sorri.
— Você é tão boa, parece um anjo - sorriu.
— Obrigada. Eu tento dar atenção a vocês como posso.
— E seu marido ou namorado não reclama de ficar tanto tempo no trabalho? - segurou meu braço.
— Não tenho namorado e menos ainda marido- sorri.
— Não? - se espantou — Ah, mas deve ter pretendentes.
— Não sei realmente - puxei o ar e soltei devagar — Tenho tantas coisas para fazer que não presto atenção. Até seria bom - ri.
— Mas deveria, você é muito bonita e uma boa pessoa.
Eu sorri com seu elogio. Gosto dessa troca de gentileza. Muitos pacientes acabam se afeiçoando aos enfermeiros por conta dos cuidados que recebem. É normal isso acontecer.
— Talvez no futuro - dei de ombros — Agora estou focada em outros assuntos e não posso me desviar deles.
— Está certíssima - se reclinou na cama — Eu me casei muito jovem e passei mais da metade de meu casamento sofrendo com as traições de meu marido - torceu a boca — E depois de tudo, com quase trinta e oito anos de união, ele simplesmente saiu de casa para viver com outra muito mais jovem do que eu.