Capitulo 4

2636 Palavras
Ao chegar na empresa, sou encaminhada para o setor de RH pela mesma recepcionista que me atendeu no dia anterior, e finalmente descubro que seu nome é Hanna. Olho para a cara de sou muito melhor que você que ela faz e não me abstenho de revirar os olhos. — Aguarde aqui! — a garota diz enquanto entra em uma das salas rebolando a b***a de forma escandalosa. — Tony, meu bem, trouxe carne nova. Foi a Marla quem a mandou. — Mande-a entrar, oras! Tá esperando o quê? — Ok! Já gostei dele! — E cadê a Beth? Ainda não chegou? — Não a vi mesmo, não, mas conta uma novidade... — Hanna responde antes de virar-se na minha direção e dizer em voz alta: — Vem garota! – Ela faz gestos nada sutis com as mãos. – Esse aqui é o RH. — Sem muitas alternativas, entro na sala e cumprimento várias pessoas, que parecem curiosas, ao esticarem as cabeças na minha direção. — Antony, esta é... — Ela parece pensar um pouco. — Qual o seu nome mesmo, docinho? Ela tem sorte de eu não ser igual a Luce. Ando até a mesa que ela aponta e vejo um homem alto trajando uma blusa social e calça escura. Seus cabelos escuros caem revoltos nos olhos, mas mesmo assim consigo enxergar o castanho acinzentado que vem deles. — Maria Eduarda. Maria Eduarda Teixeira. — Ele abre seus lábios em um sorriso sincero, e eu faço o mesmo automaticamente. — E aí, Maria? Como vai? Eu sou o Tony. — Prazer. — Nos cumprimentamos, e tento não parece muito envergonhada diante dele. — Aqui está a ficha dela, Tony. Ela trabalhará como secretária direta dos senhores Ferraz e Collins. — Hanna começa, e eu confirmo. Nesse exato momento, um vulto de cabelos castanhos, tão claros quanto os meus, entra tão rápido na sala que a primeiro momento pensei que fosse apenas uma miragem. Percebo se tratar de uma mulher quando vejo-a parar diante de nós. Percebo que sua testa está enrugada e que ela franze ainda mais as sobrancelhas ao dar de cara com Hanna. — Desculpe a demora, Tony. Tive que deixar o Sam na escola e me atrasei — ela fala com tanta ansiedade que até eu estou comovida por seu atraso. — E você, quem é? — Seu olhar recai sobre mim, e noto o momento em que sua cabeça tomba para o lado. Antony explica a ela que sou nova funcionária da empresa, e vejo-a sorrir automaticamente. — Prazer, Maria. Sou Elizabeth, dona dessa p***a toda aqui! Agora vem comigo — ela diz, fato que me faz sorrir. — Vem, deixa o meu queridíssimo chefe, senão, é bem capaz da baba dele cair sobre você. — Mas, ele foi bem gen... — Ela me corta: — Tudo faixada, amiga, esse aí não vale nada! — Olha quem fala! Vai assustar a garota, Beth. — Antony grita enquanto a sigo até o fundo da sala, e passamos por Hanna, que nos observa cautelosamente. — Vem, eu sou da turma do fundão — ela cochicha. — E, Hanna, cê tá liberada para o seu setor. Vaza! — Arregalo os olhos e não seguro a risada. — Essa daí tá doida para mudar de setor, amiga! Cuidado hein... — Ela dá uma pausa rápida. — Senta aí. Elizabeth aponta para uma cadeira de frente para a mesa dela, e faço o que me pede. — Beleza, Maria? Vai trabalhar como secretária, né? — Ela analisa a ficha que Tony lhe entregou. — Bom, eu tenho duas notícias para lhe dar: a boa e a má, qual você quer primeiro? — Franzo o cenho. — Sério mesmo? Manda a boa primeiro, porque aí nada me abala. — Ela gargalha. — Gostei de você, garota — ela sorri genuinamente. — Bom, a notícia boa é o salário. Você ganhará bem, mas em compensação... — O quê? — É que você trabalhará diretamente com o CEO da empresa. E ele é bem egocêntrico! — Egocêntrico, como...? — Digamos que ele é bem exigente no trabalho... A Marla também não fica atrás, e outra: ela e o senhor Collins tem algo, então, vá se acostumando com o quanto a mulher pode ser possessiva e enjoada. Todas as mulheres para ela são alvo em potencial desde que gostem da mesma coisa que ela... — Sério? Isso soa como desespero. — E é. — gargalha. — Trouxe os documentos solicitados? — Faço que sim com a cabeça, e ela continua: — Então, me passe logo para que eu consiga adiantar a papelada. Depois de tudo acertado com a Beth, sou encaminhada a recepção em que trabalharei. Beth é uma ótima profissional. Pelo que entendi, ela é braço direito de Tony e faz todo o procedimento de admissão e demissão da empresa. Ela me mostra tudo o que preciso fazer diariamente e me ensina algumas ferramentas que estão no computador, que precisarei usar com frequência. Nada muito diferente do que já fazia no banco, o que me facilita muito. Conversamos sobre coisas aleatórias e, em algum momento, ela menciona o nome do seu filho de 5 anos: o Samy, que, pelo o que ela diz, é um rapaz introvertido, inteligente e pouco carismático. Beth é uma mãe solteira e auto se intitula feliz, uma vez que hoje em dia não precisa mais se preocupar com homens. Entramos numa conversa sobre o sexo oposto, no quanto são uns idiotas quando querem, namoros frustrados e casamentos unilaterais, e desabafo sobre a minha relação com Gustavo. Ela me olha perplexa por tudo o que ele já aprontou comigo e me encara, parecendo estar com raiva, quando digo que ele ainda está tentando voltar para mim. Quando ela menciona exatamente isso, digo: — Pois é, o pior é que estou me sentindo péssima hoje, fiz algo que não sei se consigo me perdoar — digo, vendo-a se ajeitar no balcão. Ela encosta-se nele e cruza os braços franzinos e pálidos. — O que houve, Maria...? — emendo: — Pode me chamar de Duda. — Ela assente, voltando a fazer a mesma pergunta. Suspiro alto e continuo: — Ele apareceu lá em casa ontem e eu estava pronta para enxotá-lo de casa, porém, no final, não consegui. — Envergonhada, desvio os olhos. — Isso não é o fim do mundo, Duda. — Como, não? Ele apronta comigo, pisa nos meus sentimentos e depois volta como se nada tivesse acontecido para no fim eu ainda t*****r com ele? — Fecho os olhos, balançando a cabeça para ambos os lados. — Eu sou uma i****a mesmo! Você deve estar me achando uma menininha ridícula, que ainda chora pelo ex. — Eu não acho nada! Quem sou eu para te julgar? As pessoas erram, é normal, basta querermos acertar. E de mais a mais, eu nem sempre fui forte assim. Já cedi várias vezes para o meu ex; até eu perceber que era melhor sem aquele traste. Ela dá de ombros e faz uma careta engraçada. — Sério? — Vê-la confirmar com a cabeça, me faz sentir um pouco de esperança. — E o que aconteceu com ele? Com vocês dois? — Ele é só mais um babaca que aparece de “vez em nunca”, traz um litro de leite, uns pacotes de biscoitos, tira algumas selfies e as coloca nas redes sociais. O famoso pai de "selfie". Nem mesmo o Sam pergunta por ele. — Nossa, essa situação deve embaralhar a cabecinha do seu filho — falo com sinceridade. — Nem me fale.... Eu o levo no psicólogo, porque meu filho é muito retraído. Ele não se interessa por nada, nem ninguém. A psicóloga disse que, com o tempo, ele vai mudar. Pensei até que ele tivesse algum grau de autismo, mas, graças aos céus, ele não tem. E se tivesse, eu iria bancar, porque sou dessas! Sorrio, e ela continua: — Bom, vou te deixar em paz agora. O senhor Collins está em uma reunião e só deve sair depois de sua hora de almoço. Então, não se preocupe, meio-dia você pode sair para almoçar. Vai comer na rua ou trouxe comida? — Ela pergunta, já se levantando para ir embora. — Na verdade, vou ter que comer na rua. Vou usar o cartão-refeição que você me deu. — Ela assente. — Sim, ele não é o definitivo, depois vai vir um bonitinho com o seu nome. Esse é apenas para os novos funcionários, pois o senhor Collins não gosta que esperem muito até o cartão definitivo chegar. Acredito que, em uma semana, o novo chegará. Assim que isso acontecer, você me devolve esse aí! — assinto. — Ah, e caso receba alguma ligação de um dos seus chefes, veja o que deseja e qualquer coisa me liga. Lembre-se dos números dos ramais que estão colados na sua mesa. — Olho para os telefones listados num papel, que está colado em meu balcão. — E se a pessoa apenas desejar uma xícara de café, ligue para a copa e peça para alguém trazer imediatamente. E outra, quem entrega é você, ok? — Confirmo com a cabeça. — A sala de reunião fica dentro da sala do senhor Collins, bate duas vezes na porta e entra. Não precisa esperar. — Ok! — E os documentos estão listados por pastas no computador, é só verificar com calma. Depois, vai abrindo uma por uma para memorizá-las. Você aprende rápido, daqui há um mês estará cansada de fazer sempre as mesmas coisas. Ah, e temos festinhas, e elas são ótimas! — Franzo a testa ao vê-la bater palminhas e dar pulinhos animados. Ela se parece com uma criança que ganhou um pirulito. — Agora me deixe ir, antes que o Tony venha aqui pessoalmente e me arraste de volta para o escritório. Eu te ligo meio-dia. — Ela dá uma piscadela e some ao virar o corredor. Respiro fundo e faço exatamente o que disse: olho arquivo por arquivo para memorizá-los com rapidez. Ligo o som ambiente e coloco na playlist da Adele. Toca a música "Someone like you", fato que me faz lembrar de Gustavo. Fecho os olhos conforme aprecio a letra, porém abro-os abruptamente quando escuto o telefone tocar. Tremo dos pés à cabeça ao atendê-lo. — Presidência! — falo conforme Beth me auxiliou. — Senhorita Teixeira! — Uma voz imponente e um pouco rouca soa em meus ouvidos e tento não focar no quanto ela me parece sexy. — Sim, doutor, bom dia! — Bom dia! Estamos em reunião, peça cinco xícaras de café e se direcione para a sala de reuniões. A senhorita Elizabeth já lhe passou suas tarefas diárias? — ele pergunta rápido demais, e reparo que as palavras parecem um pouco emboladas. Reparo que, por seu sotaque, ele provavelmente não é brasileiro. — Sim, Dr. Collins, estarei providenciando. Posso solicitar uma jarra de água fresca? — Me adianto em perguntar observando-o fazer uma pausa, aparentemente, pensando na resposta. — Providencie! — diz, simplesmente, desligando o telefone na minha cara. Ele disse cinco cafés, certo? Apresso-me em ligar para a copa e faço o pedido com urgência. Lembro da jarra de água e dos cinco copos de vidro. São cinco, mesmo, não são? Aff. Noto que o telefone treme em minha mão, assim como o meu corpo. Bernadete, uma das moças que trabalha na copa, traz o que peço com rapidez, e me apresso em passar tudo para o carrinho de inox, que repousa ao lado do balcão onde trabalho. Direciono-o até a porta da sala do meu chefe e percebo que continuo tremendo e sentindo uma ansiedade horrorosa tomar conta do meu corpo. Bato duas vezes, antes de entrar na antessala, ouvindo vozes altas que vêm de outra sala fechada. Olho rapidamente ao redor e noto que o escritório é rico em detalhes e todo ornamentado em madeira. Vejo-me como reflexo no grande espelho pendurado num painel de madeira e reparo que na parte inferior há uma lareira, aumentando a sua sofisticação. Há uma grande estante de livros grossos que, provavelmente, são de inúmeros códigos penais. Observo que a mesa espaçosa não possui nenhum objeto pessoal ou de família; nem mesmo um único porta-retratos. Dou um pulinho assustado quando ouço uma voz impaciente gritar e a reconheço de imediato: a mesma voz que gritava enquanto eu saia da sala da senhora Ferraz, no dia anterior. — Ah, Dr. Marcus, não irei discutir sobre isso com ninguém nesse momento! É sobre a minha empresa que estamos falando, acredito que a Marla já tenha lhe explicado isso — rosna. — Claro, Dr. Collins, eu sei, mas mesmo assim... — outra voz reverbera, porém, é entrecortada: — Sem, mas! — Ouço uma batida alta na mesa, e me retraio. — Eu não vou ceder o futuro de minha empresa para um i****a qualquer, ele que não queira... Merda! Ótimo momento para café. Respiro fundo e decido se vai ser agora ou nunca. Sem mais alternativas, lembro-me de bater duas vezes na porta, como Beth já havia me falado, e aguardo. — In between! — Meu chefe grita pedindo-me para entrar na sala, e sou obrigada a fazer exatamente isso. Assim que abro a porta, empurro o carrinho com todo o cuidado para dentro do cômodo e percebo cinco pares de olhos me encararem quase que automaticamente. — Excuse me, brought the coffee. — Também resolvo informar em inglês que trouxe café, uma vez que ele já havia falado nesse idioma comigo. Olho para um homem qualquer, que está sentado em volta de uma mesa retangular, e foco todo o meu nervosismo nele. Não quero nem me preocupar com os outros. Há um silêncio irritante na sala, e sei que sou o centro das atenções. Sirvo o primeiro homem, que sorri de orelha a orelha para mim como se não tivesse todos os dentes amarelados e tortos na boca. — Obrigada, mocinha... — O segundo responde com os olhos castanhos piscando rápido demais. O terceiro parece emburrado e recusa a minha xícara de café severamente. Ótimo! Menos um para encher o meu saco! O quarto diz que adorou a nova secretária, e eu encaro o piso de porcelanato. Ele tem uma cor tão bonita! Louca para me livrar da última xícara, pingo três gotas de adoçante — conforme Bernadete havia me explicado —, e seguro-a bem em meus dedos até a ponta da mesa, tentando equilibrá-la com o máximo de cuidado. Olho para o líquido flamejante com receio de derramá-lo em meu primeiro dia de trabalho. Eu sempre fui boa na faxina, mas servir bebidas e comida nunca foi a minha praia. Noto as ondas escuras da bebida quase derraparem para o pires, quando os meus sapatos tocam o chão cada vez que dou um passo à frente. Céus, que demora! Assim que chego no meu destino e ao levantar a minha cabeça a fim de cumprimentar o meu mais novo chefe, arregalo os olhos, deixando a xícara cair automaticamente de minhas mãos. Seus olhos, de um azul feito da cor do céu, parecem petrificados também. Entreolhamo-nos, porque não faço ideia do que fazer nesse momento. Faz dois anos desde que nos vimos pela última vez, mas nunca esqueceria seu rosto esguio e sua pele aveludada; seus cabelos longos e dourados, feito ouro maciço; sua boca em forma de coração e avermelhada. O senhor Collins, na verdade, é o mesmo Andrew que é o melhor amigo e meio irmão de Nikolas Delamont, marido de Laura e meu antigo chefe. O mesmo Andrew que me ajudou a apadrinhar Laura e Nick no casamento deles e ao Nick Junior. O mesmo Andrew que Luce vive fazendo piadinhas. E agora ele está aqui; na minha frente, e para melhorar a situação, ele ainda é o meu chefe.
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