*Jace Rowan POV*
O Atlas estava cheio. Cheio demais. E a noite ainda m*l tinha começado.
Luzes baixas, música pesada, corpos caros a fingirem que não estavam ali para serem vistos. Todos queriam algo naquela noite: atenção, estatuto, convites, favores. Eu controlava tudo isso.
Este era o meu espaço mais ambíguo, onde o legal e o ilegal se cruzavam sem pedir licença.
Olhava para a multidão no piso inferior através da janela do meu escritório. Via tudo sem ser visto. O vidro escuro e espelhado fora projetado exatamente para isso: visão total, privacidade absoluta. Também tinha uma sala VIP no andar de baixo com o mesmo sistema, além de outras áreas mais reservadas, salas feitas para festas… e para segredos.
Observava tudo com um copo de whisky puro na mão. Do melhor. Tinha dado apenas um gole.
Mulheres bonitas não faltavam. A maioria modelos, famosas, escolhidas a dedo. Vestidos caros, olhares treinados, sorrisos calculados. Conhecia bem aquele tipo de fome. Era previsível. Entediante.
Nada daquilo me interessava.
Ainda assim, sempre que uma mulher loira entrava, os meus olhos iam automaticamente para ela. Acreditava que a ia reconhecer m*l colocasse os meus olhos nos dela. Ainda não a tinha encontrado.
A frustração acumulava-se. O mais frustrante era perceber como ela simplesmente desapareceu sem esforço, como se tudo se tivesse alinhado a favor dela. Mas não ia desistir. Ninguém me fazia isso e continuava a respirar tranquilamente depois.
Não era só vingança. Era correção. Era ensinar-lhe o erro de ter achado que podia brincar comigo. O insulto de me ter prendido e deixado lá. Exposto. Para ser encontrado daquela forma pelos meus homens.
As imagens da receção do hotel eram uma piada. Qualidade péssima. Só consegui apanhar o perfil dela. Insuficiente para identificação. Depois, a câmara da entrada — ainda pior.
Vejo-a sair calmamente. Confiante. O cabelo loiro apanhado pela luz. O ângulo da câmara não ajudava. Nunca o rosto inteiro. Caminha até ao outro lado do passeio. Até uma mota.
Na imagem, veste o casaco, calça as luvas, coloca o capacete. Monta a mota com uma facilidade irritante. Sexy para c*****o.
Sempre que me lembro de como o vestido subiu com o movimento, o meu maxilar aperta. Arranca. Sem matrícula visível.
Lucas anda a tentar aceder às câmaras dos estabelecimentos comerciais à volta. Até agora, nada de útil. Tentámos as câmaras de tráfego. Inexistentes naquela zona. Muitas saídas antes de qualquer ponto com vigilância. Não ia ser fácil encontrá-la. Mas eu tinha homens a tratar disso.
Sabíamos o intervalo de horas. Só precisávamos da direção.
E aquele i****a do diretor da escola revelou-se uma perda de tempo. O quarto do hotel estava em nome dele, mas jurou que tinha acabado de conhecer a mulher num bar. Um bar com câmaras, claro. Que coincidência estar em manutenção naquele dia. Sorte para ela. Outra vez. Como se o mundo conspirasse a favor dela.
Idiotas.
E o número dela… um pesadelo.
Sempre que o ligava, não estava no mesmo sítio nem ligado tempo suficiente para uma triangulação limpa. Mesmo assim, conseguimos confirmar presença na escola do diretor. As imagens que o fizeram cair vieram daquele número.
O meu hacker é bom. Muito bem pago. Por isso não fazia sentido ela continuar a escapar-me.
Só estava à espera que voltasse a ligar o telemóvel.
Não lhe mandei mais nenhuma mensagem. Estava convencido de que a encontraria em menos de vinte e quatro horas. Já tinha passado uma semana.
Talvez devesse mandar-lhe outra. Fingir que estava perto de a encontrar. Provocar uma resposta. Talvez mantê-la ligada tempo suficiente. Talvez fazê-la esperar. Dar-lhe a ilusão de controlo.
Mais uma loira entrou de mãos dadas com um homem. Não era ela. Não era a minha loira. Consegui notar um visível desconforto, típico de quem não tem confiança suficiente para aquele tipo de ambiente. Mesmo estando acompanhada, mesmo tendo alguém em quem se apoiar. E o vestido preto abaixo do joelho, quase regatado, inocente. Não parecia o tipo de mulher que subiria a uma moto de salto alto e vestido curto.
Logo atrás, em completo contraste, uma morena de vestido vermelho ligeiramente justo. O tecido abraçava-lhe as curvas sem esforço. Era do tipo que chamava a atenção sem parecer que tentava.
O meu olhar deteve-se nela um segundo a mais do que devia. A forma altiva como observava o espaço. Confiante. Parecia no ambiente dela. O tipo de mulher que entra num espaço como se fosse dela. As luzes não me deixavam ver-lhe bem o olhar, mas parecia varrer a multidão, avaliando tudo à sua volta. Interessante.
Aquela arrogância sim fazia lembrar a minha loira.
Devia preocupar-me por pensar nela como minha? Não, claro que não. Minha para me vingar. Minha para castigá-la. Minha para lhe fazer ceder. “Isso é uma ameaça?” foi como se ouvisse a voz dela novamente na minha cabeça. Enfrentou-me. Não lida bem com ameaças.
Pois bem. Ia deixar de ser apenas ameaça quando a encontrasse. Um bater à porta fez-me desviar o olhar da morena e dos meus pensamentos.
Lucas entrou antes mesmo de eu terminar de murmurar um “entra”. Serviu-se de um copo e colocou-se ao meu lado, olhando para o piso inferior. Para a pista de dança e os corpos amontoados um nos outros.
“Vais usar a sala VIP?”
Não respondi. Ultimamente, a sala VIP tinha servido para um único propósito: enterrar-me numa loira qualquer enquanto pensava naquela que realmente queria. Pareciam-se com ela. Mas não eram. Assim que os nossos olhares se cruzavam, eu sabia. Não tinham aquele olhar. O desafio. “Sê bonzinho, grandalhão!” A voz dela surgiu-me novamente. Ela ia ver com diabólico posso ser.
Talvez devesse esquecer as loiras por algum tempo. Até encontrar a certa. Entretanto… talvez uma morena num vestido vermelho me pudesse entreter esta noite. A postura dela lembrava-me a loira. Se bem que conhecia aquele género. Pareciam gritar superioridade, intocáveis, mas era tudo fachada. Num piscar de olhos cediam ao poder, ao dinheiro, a mim. Eu adorava as quebrar.
Cediam depressa demais.
O meu olhar varreu a multidão de corpos à procura dela novamente. Apontei na direção dela quando a encontrei a dançar demasiado sedutora na pista de dança. Senti as minhas calças apertarem. Sim ela seria uma bela distração hoje.
“Aquela do vestido vermelho.” disse a Lucas. “Convida-a para a sala VIP.”
Ali não precisava de descer, não precisava de seduzir. Bastava o meu nome. Bastava a menção da sala VIP para elas se derreterem e virem até mim convencidas de que eram elas as escolhidas, as especiais. E sei que aquela não seria exceção. Movidas por curiosidade, jogos, dinheiro, poder, o que fosse, elas sempre vinham.
“A morena?” perguntou ele, num tom surpreendido. Despois de nos últimos tempos só ter escolhido loiras, admito até eu me surpreendia. Já me sentia obcecado. Limitei-me a assentir, terminando o conteúdo do meu copo e preparando-me para descer.
“Oh!” ouvi Lucas exclamar.
“O que foi?” questionei, voltando a colocar os olhos do piso inferior, nela.
“Ela está com a professorinha.”
Voltei a focar o olhar. Ao lado da morena estava a loira que vi entrar á frente dela e o homem, provavelmente namorado, mantinha a mão na cintura dela, mas o olhar denunciava outra coisa — estava claramente preso à morena. Não o podia condenar ela mexia-se bem a dançar. Com ritmo, mas de uma forma hipnotizante. Dava ideias todas para maiores de 18 anos.
Ergui uma sobrancelha, à espera de que Lucas continuasse.
“Aquela loira é professora na escola do diretor que tu… bem tu sabes…” explicou. “Falei com ela ontem… disseste que não era ela. Olhos azuis.” Fez uma pausa. “É bonita.”
O tom dele carregava interesse demais para o meu gosto, mas não me importava com quem ele se envolvia. Desde que não me trouxesse problemas.
“E o i****a colado a ela…” continuou. “Tenho quase a certeza de que o conheço de algum lado.”
Observei o trio. A dinâmica. O casal ainda na pista de dança e a morena saia para ir até ao balcão. m*l se aproximou-se do bar o empregado veio ter com ela. Ficou de costas para mim. Costas expostas, não me tinha apercebido daquele pormenor no vestido. Achei-lhe mais apetitosa. Vi um homem se aproximar dela, não era concorrência para mim.
“Trata do idiota.” Olhei de relance para Lucas. Apontando para o homem que se aproximava do que eu tinha escolhido para mim hoje. “Podes convidar a loira também… pareces interessado.”
“Ela tem… aquele idiota.” Respondeu-me. Encolhi os ombros. Saímos ambos do meu escritório. Eu para a sala VIP e Lucas para ir buscar a minha distração desta noite.
A morena sensual de vestido vermelho. Ela parecia o tipo de mulher que montaria uma mota com classe.
Eu não tinha mota. Isso não ia ser um problema.
Sorri.