*Sophia Hale POV*
Pelo menos pensei que fosse o nosso jantar.
E era.
Só não veio sozinho.
Brandon Thompson surgiu logo atrás do estafeta, com aquele sorriso educado e prestável, ajudando a Lily com os sacos como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Eu odeio visitas surpresa. E tanto ele como Lily sabiam disso.
“Eu convidei-o”, disse ela depressa, antes que eu abrisse a boca. “Desculpa. Esqueci-me de te avisar.”
Resmunguei algo incompreensível, tirei um dos sacos das mãos de Brandon e fui direta para a cozinha. Estava com fome. E sem paciência.
Se Lily era a princesa desta história, Brandon era o príncipe encantado: gentil, atento, sempre no lugar certo, com o sorriso certo. O tipo de homem que faz as pessoas acreditarem em finais felizes e domingos partilhados.
Enjoativo.
Senti o olhar dele sobre mim enquanto entrava na cozinha atrás da Lily. Era bonito, concedo-lhe isso. Cabelo castanho-claro, olhos azuis, ar de nerd inteligente. Combinava perfeitamente com ela. Demasiado perfeitamente.
Não tenho nada contra o Brandon. Não mesmo. Pelo menos não por enquanto. Mas só namoravam há quê… cinco ou seis meses? Não importa. Esta bruxa má não está interessada no príncipe. Claro que, se ele algum dia magoar a princesa, não posso garantir que o vá deixar em paz.
Dei por mim sentada à mesa da cozinha, com aqueles dois à minha frente a tirarem-me o apetite. Evito constantemente ser a vela desta relação, mas volta e meia dou por mim nesta exata cadeira a levar com sorrisinhos cúmplices, toques subtis e aquele tom de voz doce que devia vir com aviso de saúde pública.
Não estou a ser invejosa. Não com a Lily. Ela foi a única pessoa que conseguiu infiltrar-se na minha vida e ficar. Às vezes penso que teria sido mais simples se, anos atrás, eu não tivesse intervindo quando a vi a ser alvo de bullying na escola. Devia ter continuado a andar e ignorado tudo.
Convenci-me de que só voltei atrás porque odeio gente que se acha superior e gosta de esmagar quem considera mais fraco. Não contei com o facto de a Lily se colar a mim. Insistentemente. Até eu desistir de a mandar embora e simplesmente… a aceitar.
De alguma forma, aquela nerd, aquela professorazinha, tinha tornado a minha vida mais interessante. Mais divertida. Nem que fosse a castigar quem se atrevia a tratá-la m*l. Ela tinha um íman estranho.
Enquanto Lily falava animadamente e Brandon assentia com atenção quase devocional, a minha mente traiu-me. Foi para outro sítio. Para outro tipo de homem.
Para o grandalhão.
Ele tinha aquela vibração de lobo mau. Perigoso. Os perigosos. Os que mordem. Os que olham como se pudessem partir-te em dois sem pedir licença. Os que não prometem nada além de problemas — e cumprem.
Definitivamente não nerds amorosos.
Suspirei, irritada comigo própria. Era imprudente. Eu sabia disso. Mesmo assim… queria ser desafiada. Queria desafiá-lo. Uma parte de mim queria que ele me encontrasse. E odiava-me um pouco por isso.
Empurrei a comida no prato, pouco entusiasmada, mas comia. Lily tinha encomendado do nosso restaurante favorito, o meu prato favorito. Ainda assim, não me sabia bem. Como se tivessem mudado de cozinheiro.
“ Ah! Tenho uma surpresa.” disse Brandon, orgulhoso. “Consegui entradas para o Atlas. Está impossível entrar lá sem convite.
Tirou um envelope do bolso das calças e abriu-o com cuidado exagerado. Três bilhetes. Porque raio me estava a incluir naquela saída?
“O Atlas? A sério?” Lily quase saltou da cadeira. “Dizem que só pessoas famosas e cheias de dinheiro entram lá!”
Revirei os olhos por dentro. Conhecia bem a fama do Atlas. Clube, bar, discoteca — escolham o rótulo. Novo, exclusivo, seletivo. Aquele cliente tinha ido parar à equipa preferida do diretor.
Os melhores clientes iam sempre para eles. Não queria acreditar nos rumores de favores trocados. Afinal, também inventaram coisas sobre mim. Ainda assim, o cliente não era pequeno. Um magnata cheio de dinheiro, influência e rumores à sua volta.
Mas não me ia chatear com isso agora, tinha outro nome que eu queria e não era o do dono do Atlas. Era Erik Brooks.
Ator. Reputação péssima. Dinheiro antigo. Imagem desastrosa. Um menino mimado da indústria cinematográfica. Um problema ambulante. Exatamente o tipo de cliente que dá trabalho — e prestígio — a quem o consegue limpar.
Eu queria aquele projeto. A minha equipa precisava daquele projeto. E eu não estava disposta a ficar de braços cruzados desta vez.
“Então vamos os três? O convite é para amanhã.” disse Brandon, claramente satisfeito consigo próprio.
Não os imaginava entusiasmados com a ideia de irem para um antro de música alta, corpos colados e álcool caro. Mas estava enganada. Sabia que a Lily gostava de dançar, de sair, de se perder um pouco na multidão. Já o nerd Brandon… isso surpreendeu-me.
“Ok. “respondi. “Pode ser interessante.” Talvez encontre o Erik Brooks.
“Como é que conseguiste os convites?” ouvi a Lily perguntar.
“A minha equipa recebeu como prémio pelo desempenho deste mês.” — explicou ele.
Fiquei a olhar para o Brandon, a tentar lembrar-me do que raio ele fazia exatamente e em que empresa trabalhava. Tinha a certeza absoluta de que era algo estável, previsível e profundamente aborrecido.
“O Brandon entrou no mês passado para a Rowan Enterprises.” informou Lily, como se eu tivesse perguntado alguma coisa. Como se eu quisesse no fundo saber. “Eles são donos do Atlas.”
Suspirei por dentro. Eu sei. Eu sei.
Era suposto, trabalhando na Verity Agency, eu saber quem eram os magnatas da cidade, os herdeiros, os nomes que valiam dinheiro e escândalos. Provavelmente devia fazer como a Lily e não deixar passar uma única revista de cusquices, em vez de estar atenta apenas às flutuações das minhas ações e investimentos.
Mas não vejo grande utilidade em decorar a vida de quem não é meu cliente. Se não for meu cliente… qual é, afinal, o interesse?
Além disso, tenho sempre a Lily para me manter atualizada. Embora admita que só presto verdadeira atenção quando há algum interesse real. Aí, sim, o meu cérebro liga-se às vidas dos afortunados. Quem se casou. Quem se divorciou. Quem caiu em desgraça.
Os Rowan.
Não consegui impedir-me de revirar os olhos enquanto ela divagava sobre a história que tinha lido algures: a empresa agora nas mãos do filho mais novo, a morte estranhamente conveniente do pai, o irmão mais velho desaparecido.
Porque raio eu haveria de querer saber a história dos Rowan quando nem sequer são meus clientes neste momento? Só se os quisesse roubar à equipa adversária.
Oh.
Bem… talvez.
Se jogarem sujo e me tiraram o Brooks, então é uma ideia. Encostei-me na cadeira, pensativa. Nunca foi do meu feitio aceitar perder. Talvez estivesse na altura de prestar mais atenção aos Rowan.