Meu nome é Babi.
Tenho 27 anos e, há mais de oito anos, sou a dona do Morro do Curral, o morro mais temido de Goiás.
Todo mundo que pisa aqui sabe quem manda. Não preciso levantar a voz para ser obedecida. Um olhar meu basta.
Nasci longe desse mundo, mas fui adotada pelo antigo dono do morro. Ele não era meu pai de sangue, mas foi o homem que me criou, me ensinou tudo o que eu sei e me mostrou que liderança não se conquista apenas com armas. Conquista-se com respeito.
Até o dia em que uma grande operação mudou tudo.
Mais de trinta dos nossos morreram naquela madrugada.
Entre eles... o homem que eu chamava de pai.
Enquanto muita gente esperava que o morro mergulhasse no caos, eu assumi o comando.
Era jovem. Mulher. E muitos duvidaram.
Só que aprenderam rápido que eu não estava brincando.
Hoje, faz mais de oito anos que nenhuma operação consegue subir o Curral. Não existe confronto. Não existe guerra dentro da comunidade.
As crianças brincam nas ruas.
As mães sentam nas portas de casa.
Os comerciantes trabalham em paz.
Minha única regra é simples e ninguém ousa desobedecer.
— Nunca fumem. Nunca vendam droga na frente das crianças.
Essa é a única lei que eu trato como sagrada.
Meu pai dizia que criança não podia crescer achando que aquilo era normal.
E eu mantenho o legado dele até hoje.
O resto...
Cada um vive a própria vida.
Meu trabalho é manter a ordem.
Passo meus dias e minhas noites cercada por mais de cinquenta homens armados.
Eles me protegem.
Eu protejo todos eles.
Somos uma família.
Claro que eu sei que muitos me olham diferente.
Seria ingenuidade fingir que não percebo.
Tenho cabelos escuros que quase alcançam a cintura, pele clara, tatuagens espalhadas pelo corpo e um jeito de me vestir que sempre chama atenção.
Uso shorts, calças de cintura baixa e croppeds sem me preocupar com a opinião de ninguém.
Não faço isso por eles.
Faço porque gosto.
Porque sempre fui assim.
Volta e meia algum deles resolve criar coragem.
— Pô, Babi... me dá uma chance.
Outro completa rindo:
— Tu manda no morro inteiro... deixa eu ser mandado por você também.
A gargalhada toma conta.
Eu apenas balanço a cabeça.
— Tá ficando maluco? Vai trabalhar, rapaz.
Eles riem ainda mais.
É assim que funciona.
Existe respeito.
Existe confiança.
E existe a certeza de que nenhum deles cruzaria a linha comigo.
Minha arma quase sempre está presa na cintura. Quando não está, fica ao alcance da mão.
No meu mundo, descuido custa caro.
Eu acreditava que meu destino já estava escrito.
Que minha vida seria para sempre dedicada ao morro, às pessoas que dependiam de mim e ao legado que prometi honrar.
Até que alguém apareceu.
Alguém que teria coragem de enfrentar a mulher que ninguém enfrentava.
Alguém capaz de atravessar minhas muralhas, desafiar minha autoridade e bagunçar todas as certezas que levei anos para construir.
Eu ainda não sabia.
Mas a dona da quebrada estava prestes a descobrir que comandar um morro era muito mais fácil do que comandar o próprio coração