Luísa
Depois do dia que tive, a noite de sono frágil e a conversa difícil com a tia Rosa, eu finalmente terminei a minha jornada daquela semana. Foi com alívio que desci do palco.
Como todas as noites, eu corri pelo corredor depois da minha apresentação, fugindo do monstro que eu sabia que tinha ali, mas hoje, não consegui escapar do gerente.
- O noivo quer uma dança particular. - Ele estava na porta do que ele chamava de camarim, com os braços cruzados e uma expressão venenosa. Os olhos dele dançaram pelo meu corpo e eu senti a urgência de me cobrir.
- Não faço danças particulares, JJ. - Respondi, mas eu sabia que isso era apenas uma desculpa para ele se aproximar de mim. - Você sabe disso.
- Sei, mas não sou idiotä. Ele ofereceu bastante dinheiro pra ter a sua bundä na cara dele.
- Eu não estou interessada. - Ele deu um passo na minha direção e eu, um para trás. - Estou atrasada. - Falei, desesperada para sair dali.
- Além da sua casinha de merdä na favela, duvido que tenha outro lugar para ir. - Eu senti a minha garganta fechar de pânico.
O homem diante de mim já chegou bem perto de me tocar além do aceitável. E revidar era inútil, uma vez que o meu emprego sempre era usado como barganha por ele.
- Preciso acompanhar a minha tia até o hospital. - Menti, e ele levantou as sobrancelhas de surpresa, antes de se mover. Ele colocou as mãos na minha cintura e apertou com força, e eu congelei completamente com o toque. Repulsa, medo e nojo me invadiram de uma vez, e pensei o quanto eu precisava daquele emprego, pensei no plano de saúde da tia Rosa, nas parcelas da moto e até na TV que eu planejava comprar ainda esse ano, tudo para não acertar um soco nele.
- Poderíamos nos divertir, se você deixasse.
- JJ, preciso mesmo ir! - A minha voz quase não passou de um fio. - Me deixe ir, por favor.
Ele sorriu diante das minhas palavras desesperadas. Ele sabia exatamente o quanto me deixava em pânico e usava isso a seu favor sempre.
- JJ, o padrinho do noivo está te convocando! - A voz do Montanha foi como um bote salva vidas.
- Mande ele esperar! - O JJ respondeu com raiva pela interrupção, as mãos nojentas e frias apertando mais a minha cintura.
- JJ, ele está descontrolado, ameaçando chamar a polícia se não falar com o responsável pelas dançarinas, agora! - O JJ se afastou, finalmente me soltando, quando ouviu a palavra polícia.
Ele me deixou ali, e correu pelo corredor, e eu precisei de alguns segundos para conseguir respirar.
Entrei no camarim e me movi de forma automática, tentando, sem sucesso, não pensar como ele chegou perto de fazer alguma coisa irreparável! Bastava me empurrar para dentro do quartinho e ninguém viria em meu socorro, mesmo que eu gritasse.
Depois de vestida, eu corri pra fora, e assim que senti o ar quente do calçadão, me obriguei a relaxar.
Não consegui.
Os meus nervos estavam em desespero com o risco que acabei de correr, e eu ainda sentia a lembrança do toque pegajoso dele na minha pele. Eu o odiava com todo o meu coração, e desejava, com uma frequência surpreendente, que ele morresse.
Não era um segredo que as demais dançarinas saiam com ele, ou, davam para ele nos muitos cantos da boate, apenas por alguma vantagem financeira.
E eu era a única que me recusava a isso. Mas, ele era perverso, e eu sabia do que ele era capaz.
Sentei em um banco, no calçadão e encarei o mar escuro, deixando o vento secar as lágrimas que corriam pelo meu rosto. Eu me sentia suja, violada e não sabia como lidar com isso.
E toda vez que eu pensava em mudar de emprego, eu calava essa ideia com o argumento de que um monstro conhecido ainda é melhor do que um monstro desconhecido.
Chorei por algum tempo, sentada ali, abraçada na minha bolsa, e deixei toda aquela amargura sair do meu coração, pelo menos o tanto que me permitisse respirar de novo.
Era completamente assustador eu nunca ter sido tocada por homem nenhum, e ser obrigada a lidar com o JJ. Os poucos beijos que troquei na vida, foram no auge de bebedeiras, que eram sempre artifícios para que eu pudesse esquecer que eu era uma garota sem passado, sem memória e sem ninguém. Eu precisava resolver isso, antes que fosse tarde. Antes que o dia em que eu não conseguisse fugir do JJ, chegasse.
A decisão de procurar outro lugar para dançar foi fácil, mas sempre tinha o medo do desconhecido que me impedia de fazer isso imediatamente, e resolvi que depois de um banho quente e uma boa noite de sono, eu pensaria com mais certeza sobre como agir.
Só quando comecei a caminhar até a moto, eu senti alguém me seguindo.