03

1327 Palavras
03 - Juliana Narrando Eu sabia que ele estava olhando. Eu sentia o peso do olhar do Diego nas minhas costas desde o momento em que pisei no pagode. Naquela noite, eu não saí de casa para brincar. Eu estava cansada de ser a "Juliana da lojinha" que só trabalhava e ouvia sermão da mãe. Tomei aquele banho demorado, passei o creme que deixava a pele brilhando e coloquei um cropped branco que destacava a marquinha do bronze que eu tinha feito no telhado no domingo. O shortinho jeans era curto o suficiente para me fazer sentir poderosa, mas não tanto que eu não pudesse sambar. — Ju, hoje o Urso vai infartar — a Manu brincou enquanto a gente subia a ladeira pro evento. — Deixa ele infartar. Eu não sou propriedade de ninguém — respondi, mas meu estômago deu um nó só de imaginar a cena. Chegamos e o pagode estava fervendo. Cerveja gelada, o som do tantã batendo no peito e aquela fumaça de churrasquinho no ar. Eu estava na mesa com as meninas, rindo, bebendo minha caipirinha, mas meu radar estava ligado. E aí ele chegou. Diego não entrou, ele "anunciou" a presença sem dizer uma palavra. Ele estava um nojo de tão gostoso, que ódio! A regata branca deixava os braços tatuados e enormes de fora, o cordão de ouro grosso brilhava contra a pele escura e o cheiro do perfume dele era um amadeirado forte parecia que ia até onde eu estava. Ele estava de bermuda bege, o radinho na cintura bem discreto, e aquele jeito de quem é dono de cada tijolo daquele morro. Ele não veio falar comigo. Ficou lá no canto dele, cercado pelos seguranças, encostado numa coluna. Ele segurava o copo de uísque, fumava o cigarro dele e só olhava. Não era um olhar de quem queria me dar uma cantada barata. Era o olhar de quem estava esperando. Ele não sorria, não acenava. Só me vigiava enquanto eu bebia, enquanto eu dançava com as minhas amigas. A música "Depois do Prazer" começou a tocar e o clima pesou. Eu tentei ignorar, virei de costas, mas eu sentia os olhos dele queimando na minha nuca. A tensão entre a nossa mesa e o canto dele era tão grande que parecia que ia sair faísca. — Ele não tira o olho de tu, Ju — a Manu sussurrou. — O homem tá hipnotizado. Eu dei um gole longo na bebida, senti o calor subir e, por um segundo, o medo de me envolver com ele foi menor que a vontade de saber como era o toque daquelas mãos grandes. Eu sabia que, se eu olhasse de volta, não teria mais volta. E eu olhei. Diego inclinou a cabeça de leve, deu um sorriso de canto aquele sorriso de quem já ganhou o jogo e fez um sinal quase imperceptível com a mão, me chamando. Minhas pernas tremeram. O "não" que eu sustentei por anos estava se desintegrando ali mesmo, no meio do pagode, sob a luz amarela da Penha. Eu continuei ali, firme, fingindo que o sinal que ele fez com a mão não tinha me abalado. Mas o Diego não é homem de aceitar vácuo. Quando ele viu que eu não ia arredar o pé da minha mesa, ele mudou a estratégia. O clima do pagode deu uma variada e o cantor parou o som por um segundo, limpando a garganta no microfone: — Alô, atenção aqui! Essa próxima agora vai a pedido do nosso mano, o Chefe. É pra alguém especial que tá na área... solta o som! O cavaco começou a chorar as primeiras notas de "Lua e Marte", do Vitinho. Meu coração deu um solavanco na mesma hora, meu Deus que ódio desse garoto. Olhei de relance pro canto e lá estava ele. O Diego não estava mais bebendo; ele estava com o celular apontado na minha direção, com um sorrisinho de lado, como se tivesse registrando cada reação minha. Eu senti minhas bochechas queimarem. Joguei o cabelo pro lado, tentando manter a pose de marrenta, mas por dentro eu estava toda boba. — Amiga, para de ser doida! — a Manu, minha melhor amiga, começou a berrar no meu ouvido por causa do som alto. — Olha o que esse homem tá fazendo por você no meio de todo mundo! Dá uma chance, Ju. Se tu não for, depois vai ficar aí sofrendo arrependida. Ele é doido por tu, cara! Antes que eu pudesse responder, o garçom veio abrindo caminho entre as mesas. Ele não trouxe pouca coisa, não. Chegou com dois baldes de gelo lotados de cerveja e um copo de drink gigante, todo decorado, daqueles que brilham no escuro. — Que isso? Eu não pedi nada disso não — falei, já pronta pra mandar voltar. — Presente do homem, Ju — o garçom falou, colocando o balde na mesa e entregando o copo na minha mão. — Ele disse que é pra você aproveitar a noite. Eu olhei pro copo, dei um gole e, nossa... era exatamente o que eu gostava. Docinho, mas forte. A bebida começou a subir, misturando com a adrenalina da música e os gritos da Manu na minha orelha. Eu já estava num nível de felicidade que não conseguia mais esconder o riso. Olhei pra ele de novo. O Diego continuava lá, igual uma estátua de ébano, lindo naquela regata branca, me vigiando. Ele não precisou dar um passo. Com aquele drink e aquela música, ele tinha acabado de derrubar o último muro que eu tinha levantado. A Manu tinha razão. O que faltava pra eu entender? O perigo era real, mas o desejo que eu estava sentindo naquele momento era muito maior que o meu medo. A Manu e as outras meninas pareciam que tinham ganhado na loteria, gravando Stories, apontando o dedo pra mim e cantando o refrão do Vitinho a plenos pulmões. Eu ria, mas tentava não dar o braço a torcer. Não olhei pro Diego nenhuma vez diretamente, mas de r**o de olho eu via: ele estava lá, rindo do show das minhas amigas, sabendo que tinha me ganhado no cansaço e no drink. Quando o gelo do copo já estava estalando no fundo e a cabeça começou a dar aquela leve balançada gostosa da bebida, eu dei um basta. — Gente, chega! Vou no banheiro, me deixem em paz um minuto, por favor! — falei, levantando e tentando manter o equilíbrio com elegância. Saí cortando o povo, sentindo o suor do pagode e o cheiro de fumaça, querendo só um pouco de água no rosto pra baixar a adrenalina. O banheiro ficava num corredor mais afastado, meio escuro, onde o som do tantã chegava mais abafado. Eu m*l tinha colocado a mão na maçaneta quando senti um puxão firme no meu braço. Não foi bruto, mas foi certeiro. Antes que eu pudesse gritar, fui empurrada para dentro do banheiro e ouvi o estalo da porta sendo trancada. Meu coração saltou pela boca. — Ai! Que susto, c*****o! — dei um grito contido, levando a mão ao peito, sentindo o pulmão arder. — O que que foi? Tá querendo me matar, Diego? Você é maluco? Olhei pra cima e ele parecia um gigante naquele espaço apertado. O branco da regata dele brilhava na luz fraca do banheiro e o cheiro do perfume dele inundou tudo. Ele não disse nada de primeira, só ficou ali, bloqueando a porta, com aquele olhar de "agora você não tem pra onde correr". — Olha aqui, quase que eu tive um treco agora! Olha o meu tamanho e olha o seu, Diego! Tá doido? — eu continuei ralhando, tentando esconder que minhas pernas estavam tremendo mais do que quando eu vi o drink chegando na mesa. Ele deu um passo pra frente, encurtando a distância, e eu senti o calor que saía do corpo dele, junto com o perfume maravilhoso que ele tinha tava me deixando toda molhada.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR