102 — Juliana Narrando O silêncio do posto de saúde era cortado apenas pelo barulho baixo do soro pingando e pela respiração pesada do Pedro. Olhei para o lado e vi uma cena que, se me contassem ontem, eu diria que era impossível: o Urso, o homem mais temido daquele complexo, estava sentado num banco de plástico, imóvel, com o Pedro encaixado no peito dele. O Diego parecia uma estátua de pedra tentando proteger um cristal. Ele não piscava. Olhava para o filho como se estivesse tentando decorar cada poro da pele do menino, uma mistura de fascínio e dor que eu nunca achei que veria naqueles olhos. Me aproximei devagar. O ar ali estava gelado por causa dos aparelhos que ele mandou instalar na marra, mas o corpo do meu filho ainda exalava um calor preocupante. Estiquei a mão e toquei a test

