Quando eu entrava na sala de cirurgia, era como se o mundo desaparecesse ao meu redor. Meus problemas ficavam do lado de fora; naquele instante, só existia o paciente e a precisão dos meus movimentos. Minhas mãos se moviam com tanta leveza que eu m*l as reconhecia. Eu já havia realizado aquele procedimento milhares de vezes, mas sempre me impressionava com a fragilidade de um coração exposto. O dele, então, estava particularmente vulnerável: o tiro tinha destruído parte de uma veia arterial, responsável por levar o fluxo sanguíneo diretamente ao coração. Ainda assim, eu sentia aquele velho fascínio tomar conta de mim — a sensação de ter em minhas mãos um órgão pulsante, costurando cada detalhe e devolvendo à vida o que a violência quase tirara. Graças a Deus, a cirurgia correu bem. Mas, do

