Caminho por mais algumas ruas até que finalmente encontro aquele bendito lugar.
Suspiro fundo sentindo o corpo querer vacilar, mas então me obrigo a continuar caminhando. Me dou o gatilho que Dean pode estar lá em cima, e isso me faz sentir vontade de ir até lá para resgatá-lo.
As conversas vindo de pontos não reconhecidos, música distante, crianças chorando e cachorros latindo é a trilha sonora daquele lugar.
Os postes de luz amarela iluminando apenas as partes mais abertas, enquanto passo entre aquelas passagens mais escuras e apertadas. O mau cheiro da falta de saneamento básico de qualidade é algo realmente o que consegue incomodar mais.
Não sei até onde ir, mas apenas continuo subindo e subindo até que chega um momento que penso se estou chegando no céu, no caso aqui, o inferno.
Paro por uns instante acreditando ter feito uma coisa i****a e que o Dean não estaria ali, e então olho para cima e vejo dois homens descendo. Tinham cara de mandões, e senti rapidamente uma sensação r**m.
Me encostei no muro e encarei o chão fixamente, precisava esperar que ou eles passassem, ou me barrassem.
Mas não passaram, me barraram.
— E aí, gatinha. — Os dois pararam em minha frente fazendo meu corpo tremer em repulsa, encaro os dois tentando manter o rosto firme.
— E aí. — Levantei a sobrancelha de leve.
— O que faz aqui, e o que tem na mochila? — O outro se aproximou pondo um braço de cada lado meu, fazendo o rosto ficar próximo do meu.
Soando feito um porco, sabia o que isso significava.
— Acabei de sair da escola. — Respondi virando o rosto para o outro lado tentando afastar meu nariz daquele cheiro de suor, álcool e cigarro que vinha dele.
— Ah, o uniforme. — Ele riu fraco se dando conta, passa a ponta dos dedos no meu cabelo o afastando suavemente e dando uma olhada na minha camisa. — Nunca tive a oportunidade de ir à escola.
— Nem eu. — O outro respondeu.
— Sinto muito. — Falei tentando ser educada, mas sem nenhum calor no tom de voz, o mantendo neutro.
O homem se afastou de mim me fazendo suspirar de alívio, deu alguns passos para trás e pude sentir seu olhar sobre mim de cima a baixo.
— Abre a mochila. — O outro homem que não se aproximou de mim ainda ordenou me fazendo encará-los assustada.
— Abre. — O que estava soando feito um porco intensificou a ordem.
Deslizei as alças da mochila pelos braços, e os entreguei.
— Só tem livros aí dentro, e umas roupas.
— Queremos ver.
Abriram o zíper e reviraram tudo ali dentro.
— É, só tem livros… shorts, blusas… — Riu fraco. — Calcinhas.
Eu as vezes não tenho tempo de me arrumar em “casa”, é difícil chamar aquele lugar de casa. Então ponho roupas na mochila para me arrumar em algum posto de gasolina perto do ponto de ônibus.
— Está bem, pronto? — Elevei o tom de voz já ficando sem paciência.
— Por que a estudante subiu aqui? — O outro homem que ainda não havia se aproximado de mim, agora se aproxima.
— Estou procurando meu namorado. — Respondo enquanto olho para o outro homem mexendo na minha mochila, pegando uma calcinha minha e colocando no bolso. — Ei, p***a!
— Oh, Pedro. Devolve a mochila dela! — O homem em minha frente grita em tom de ordem fazendo o outro fechar o zíper e estender a mochila para mim. — E por que acha que ele estaria aqui? — Ele riu.
— Não sei, é o único lugar que ele poderia ter ido. — Dei de ombros.
— Esse teu namorado tem nome?
— Dean. — Respondi, e então os dois se entreolharam diferente me fazendo sentir voltar a esperança de que Dean estivesse aqui. — Ele é amigo do… tesoureiro, sei lá como chama. Amigo do Jason, por isso achei que estivesse aqui.
— Vem com a gente. — Ele gesticula com a cabeça para o lado e começam a andar.
Caminho atrás deles enquanto eles vão subindo, e subindo ainda mais.
Presto bem atenção para não pisar em falso em um daqueles batentes irregulares, mas também olho desesperada para cima com medo de perder eles de vista.
— Vem, garota! — Me chamaram como pedido para que eu me apressasse.
Consegui acompanhá-los, eles viraram a direita e subiram por uma escada.
Os batentes não eram tão irregulares, então eu consegui subir correndo.
Quando cheguei no topo, notei que era um bar. As mesas e cadeiras vermelhas, azuis, brancas e amarelas, daquelas de marca de cerveja.
O bar não era muito bem rebocado, era uma área coberta com o bar, e o restante do espaço as mesas, ao redor era meia parede que dava uma visão de boa parte da comunidade e lá no final da cidade. Das diferenças de realidade.
Dou uma olhada por aqueles homens e meu coração acelera feliz. Suspirei aliviada quando vejo Dean sentado em uma das cadeiras, estava de cabeça baixa e a mesa cheia de litros de Vodka, sim. Mas ele estava lá. Era isso o que importava.
— Dean! — O chamo em um suspiro de alívio, me aproximando e segurando seu rosto nas mãos para ver seu rosto.
Atrás dele tinha uma mulher alisando ele, me olhou torto quando eu cheguei e resmungava baixo.
— Dá para tirar as mãos de cima dele? — Empurrei o peito dela para longe a fazendo tombar para trás.
— Qual o teu problema, pirralha? — Ela começou a caminhar para cima de mim com os braços firmes mas um daqueles homens a segurou.
— Ela só veio buscar o aspirador aí, relaxa. — O tal Pedro falou enquanto a afastava para longe.
— Aspirador? — Murmurei franzindo o cenho sem entender.
— Teu namorado, parece um aspirador de pó. Se é que me entende. — Sorriu de canto.
Encaro Dean esmorecido, com os olhos fechados e cabeça baixa. Notando que ele está bêbado e drogado, meu coração aperta.
Me ajoelho ao seu lado segurando seu rosto nas mãos, dando tapinhas no seu rosto e ele nem sequer responde. Meus olhos começam a lacrimejar, olho em volta e estão os três nos olhando como se só estivessem curiosos mas sem intenção de ajudar, e realmente era só curiosidade.
— Dean! — O chamo chacoalhando seus ombros e ele nem sequer se mexe. — Dean, p***a! Olha para mim. Acorda!
— Ele não ia sair daqui vivo de qualquer forma, com as dívidas que ele tem aqui. — Aquele homem comentou dando de ombros me fazendo encará-lo cheia de raiva. — O Jason ainda está sendo paciente.
— Esse i****a não iria matar o Dean, são amigos. — Retruquei.
— O Jason não tem amigos, garota. Aqui não é como lá embaixo, quando o calo dói a gente se livra do sapato.
— Dean? — Ignorei continuando mexer nele na esperança de que seus olhos abrissem.
— Ele tinha parado, talvez o corpo desacostumou e ele exagerou. Resultado, não resistiu.
— Vai se f***r, seu i****a! — Gritei chutando a mesa totalmente fora de mim.
Então escutamos uma respiração muito alta, aquela de quando passamos um bom tempo sem respirar e finalmente respiramos. Todos se assustaram encarando Dean pondo a mão no peito e respirando ofegante.
— Ah, graças a Deus. Você me assustou, seu i*****l irresponsável. — Seguro seu rosto vendo que ele realmente havia acordado e lhe dou um beijo no topo da cabeça.
Dean estava acordado? Estava. Mas parecia tão aéreo, nem sequer falava uma palavra. Mas tudo bem, isso é coisa para se preocupar quando estivéssemos em casa.
— Vem, se apoia em mim. — Me abaixei um pouco, segurei a sua mão colocando em volta do meu pescoço e levanto fazendo ele levantar da cadeira. Dean estava tão molenga que levantei com facilidade. — Vamos.
Quando demos alguns passos aqueles três se puseram em nossa frente criando uma barreira não nos permitindo passar.
— Qual foi? — Questionei já desanimada.
— Ele não pode sair daqui até o Jason chegar. Vai ser o Jason que vai dizer o que vai fazer com ele. — O Pedro falou com aquele sotaque ignorante.
— Quanto que o Dean está devendo? — Perguntei já desesperada tentando não demonstrar.
— Quem sabe disso é o Jason, mas assim de cabeça talvez uns 3. — Sorriu de canto.
— Diz para o Jason que ele resolva comigo, dou a minha palavra. Agora nos deixem ir, por favor. — Tentei passar por eles com o Dean mas puseram o braço na frente.
— Não é assim que as coisas funcionam, cacheada. — Pedro falou em um tom ameaçador.
— Na verdade, meu cabelo é ondulado. — Forcei um sorriso rápido.
— Não é simplesmente chegar aqui dá a palavra que vai dar o dinheiro e ir embora. Prometer não é fazer, está entendendo? — O outro homem empurrou meu tronco para trás me fazendo recuar.
Eu estava sem escolha, me meti aqui e agora não tinha o que fazer. Também eu não podia ficar aqui presa com ele, a Raquel infartaria se ficar assim sem notícias sabendo para onde eu tinha ido sozinha.
Sento Dean novamente na cadeira, me abaixo no chão desamarrando o meu cadarço.
— O que está fazendo? — A mulher questiona incrédula.
Apenas ignoro. Tiro o pé de dentro do sapato, levanto a sola e pego o dinheiro que tenho juntado durante meses, dinheiro esse que a Ruth nunca pode saber.
Eles ainda não haviam visto o dinheiro e me encaravam cheios de desconfiança enquanto todos caminhavam alguns passos para trás.
Eu tinha opção? Não. Depois eu daria um jeito, ela não pode ir para a rua novamente, ela precisa mais do que eu.
Escondo uma cédula debaixo da manga do casaco caso eles também queiram tomar o pouco que vou guardar, e conto uma parte do dinheiro depois guardo poucas notas no bolso da saia.
— Se eu der mil de antecendência vocês nos deixam ir? — Questiono determinada, confiante como a Ruth me ensinou, com confiança você conquista qualquer coisa.
Os três se entreolharam e pensaram por longos segundos.
Eu escondi uma cédula com medo de me tomaram o restante que guardei, mas com a demora que eles estão pensando, vão esquecer em segundos do pouco que guardei de volta no bolso.
— É quase metade do dinheiro, para vocês verem como podem confiar em mim. — Estendi as cédulas dobradas entre os dedos para eles enquanto os encarava com as sobrancelhas erguidas. — Digam ao Jason que foi a Rubi que deu, ele me conhece muito bem. Não se preocupem, somos bons amigos.
O outro homem que parecia o mais próximo de um líder coçou a nuca e então pegou o dinheiro.
Suspirei aliviada, me abaixando, envolvendo o braço de Dean em volta do meu pescoço novamente e levantando com ele.
Eu estava tão desesperada, e com tanto medo que nem estava o sentindo pesado.
— Vamos, Dean. Por favor, me ajuda. Faz um esforço e anda direitinho. — Ofeguei enquanto descia com ele o segurando em uma mão e a outra na parede para não cairmos.
Olhava de relance para trás vez ou outra vendo aqueles três caminharem devagar nos olhando como se estivessem nos acompanhando.
— Hum… — Dean resmunga depois de uns minutos, e então ri baixinho.
— O que foi? — Questiono franzindo o cenho com sua estranheza.
— Parece que estou voaaaaaando. — Sim, ele deu ênfase no a.
Sorria igual um i****a.
— Eu acho que conheço você. — Ele ergueu a outra mão segurando meu queixo e o puxando para o lado para me olhar, enquanto eu me concentrava para não cairmos naqueles degraus irregulares. — Você é bonita.
Sua fala me atinge, e sinto vontade de chorar vindo. Ele está zangado comigo, e só está agindo assim porque está muito doido.
— Sou, é? — Forço um sorriso divertido, mas sai triste.
— É. — Ele está com o tom de voz lento, com sotaque de bêbado.
— Vamos fazer o seguinte… — Olhei para trás vendo aqueles três lá para cima ainda descendo atrás de nós.
— Hum?
— Agora é plano, sem mais degraus. Então vamos dar tudo de nós, e vamos correr. Tudo bem, posso contar com você? — Encarei fixamente seus olhos, os seus com a pupila dilatada me encarando de volta.
— Como você se chama? Eu realmente acho que conheço você, mas está tudo tão embaçad…
— Dean! — Gritei perdendo a paciência.
— Está bem, está bem. Vamos. — Balançou a cabeça assustado.
— No três. Vamos lá… — Olhei para trás novamente vendo eles cada vez mais próximos. — Um… dois… três, agora!
Começamos a correr, passamos da entrada e finalmente estávamos na rua fora daquele lugar.
— Só mais um pouco, Dean. Vamos. — Pedi.
Olho para trás novamente vendo que não tem ninguém.
Corremos mais um pouco, e mais um pouco até que eu não aguentasse mais segurar o Dean enquanto ele tentava correr.
Caímos na beira da calçada, quase na praça do centro onde estava mais movimentado.
Dean se ajeitou em cima da calçada e esfregava o rosto com as mãos.
O sofrimento ainda não tinha acabado, se passasse uma viatura perto de nós iam ver o estado dele e iriam querer nos revistar.
Corro para mais no meio da rua e encaro um lado e outro, até finalmente vim um táxi. Acenei balançando as mãos e pude respirar mais leve quando ele parou.
Abri a porta de trás, levantei o Dean novamente já sentindo o efeito de carregar essa criança para um lado e para o outro.
Coloquei ele no banco com cuidado, colocando a mão na cabeça dele para não bater no teto quando estivesse entrando.
Sentei ao seu lado e bati a porta. Só depois de conferir se o dinheiro estava dentro da minha manga ainda e dentro do bolso que relaxei de verdade.
— Estavam na balada não é rapaziada? — O taxista questionou em um riso dando partida no carro.
— É. — Ri falso. — Já falei para ele não beber diversas vezes, mas ele é um cabeça dura. Ele tem problemas sérios com bebida.
— É normal, adolescentes são teimosos assim mesmo. Tenho um filho de 15 anos que já não me escuta mais.
— Boa sorte. — Ri falso novamente.
Apoiei a cabeça no banco do carro tentando regular a minha respiração, o coração quase pulando do peito e a garganta seca.
Já passei por muitas coisas, mas nunca fiquei tão nervosa como fiquei hoje, talvez eu estivesse com muito medo de que matassem o Dean ou eu só amoleci para essas coisas mesmo.
— Eu te amo. — Dean murmurou enquanto estava com os olhos fechados, parecendo cochilar apoiando a cabeça no meu ombro.
Fechei os olhos com força e suspirei bem forte. Apoiei minha cabeça na dele também, alisando sua mão apoiada na própria perna.