12 Ruby

2467 Palavras
— Oi. — Sorri fraco enquanto caminhava até a cozinha vendo Raquel. — Oi. — Ela devolveu o sorriso desprendendo a atenção da mesa e focando em mim. — Ele dormiu? — Sim. — Tem lasanha no microondas, fique a vontade. Pode pegar mais alguma coisa na geladeira ou na dispensa se quiser. — Disse com o rosto entre as mãos suspirando em um murmúrio. Raquel tirou as mãos do rosto e me encarou. Caminho até ela observando seu rosto e como suas expressões estavam tensas. Fui até o quarto mexendo em minha mochila e pegando meu frasco de comprimidos para dor dentro da mochila. Tiro um comprimido e levo um copo de água para Raquel que me olhou sem entender. — Para a sua dor de cabeça. — Expliquei e ela abriu a boca sem som entendendo. — Obrigada. — Ela pegou o comprimido e engoliu. — Dean vai acordar de madrugada morrendo de fome revirando a cozinha inteira. Coloquei comida no prato e sentei de frente para ela para comer. Meu cabelo estava úmido e o vento gelado da noite ajudava a deixar a minha temperatura refrescante. Dou uma garfada na lasanha e o queijo estica no garfo. — Você parece ser uma boa garota, seus pais não se importam que você passe a noite fora ou que suba o morro? — Raquel questionou me analisando. Eu já esperava por essa pergunta uma hora ou outra, era óbvio que ela iria querer saber mais sobre mim, mais cedo ou mais tarde. E a melhor hora de contar era agora, agora que o Dean já sabia, não tinha mais porquê esconder. Mas sabe de uma coisa? Estou cansada de fingir. No final as coisas sempre vão dá errado mesmo, pelo menos eu fui sincera. — Não tenho pais. — Continuei encarando o meu prato normalmente enquanto comia. — Não? — Não a olhei, mas sei que franziu o cenho. — E quem é responsável por você? — Eu. Me cuido sozinha. — Finalmente a encarei, e algo estava diferente dentro de mim, eu sentia. Não tinha medo, só adrenalina. — Mas, Ruby… — Seu choque era fácil de notar enquanto ela falava. — Você é apenas uma criança, isso não está certo. — Bom, foi minha própria mãe que me expulsou de casa, literalmente. Então acho que vivo melhor sozinha do que com ela. — Dei de ombros enquanto comia. — E como você vive? Onde mora? Tenho tantas perguntas. — Eu meio que trabalho. E também moro em uma boate, eu sou garçonete e um tipo de modelo... — Cocei a nuca tentando afastar o desconforto de mim ao falar sobre isso. — Tipo uma animadora de festa. A dona me dava o necessário, consegui sobreviver por dois anos. — Dei de ombros novamente. — Como assim? Como realmente seu trabalho funciona, Ruby? — Raquel ergueu a sobrancelha. Fiquei em silêncio travando o rosto enquanto encarava o prato e continuava comendo. — Ruby? — Raquel pedia para que eu falasse. — Ele não é seu filho de verdade, não é? Você é muito jovem para ser a mãe dele. — Tentei mudar de assunto atacando em um outro ponto. — Dean é meu sobrinho, a mãe dele era minha irmã e morreu no parto. Cuidei dele como meu filho, mas isso não vem ao caso. O que aconteceu? Deve ter sido algo realmente grave para que o Dean tenha surtado e você ter ido atrás dele daquele jeito. — A dona daquela merda queria me leiloar como uma garota de programa, e o Dean ficou sabendo. Pronto? — Levantei da mesa erguendo os braços irritada colocando de volta o prato na pia. — Você é garota de programa? — Ela questionou surpresa. Virei meu corpo na direção dela irritada com isso pela milésima vez, por que todos tem essa mania de me chamar de garota de programa? Eu não sou! — Não! — Resmunguei. — Eu só… danço, desfilo… sou só… — Tudo bem. Foi apenas uma pergunta. — Ergueu as mãos em sinal de rendição. — Desculpa. — Suspirei. — Está tudo bem. Você deve estar cansada. Ficamos em silêncio com aquele clima chato, as duas encarando pontos distantes totalmente desnorteadas. — O Dean gosta de você, e hoje percebi que você é uma garota forte apesar de ser apenas uma adolescente. Você enfrentaria qualquer coisa por ele, e acho que é disso que ele está precisando. — Raquel falava enquanto eu a observava tentando ver até onde ela chegava. — Se eu puder ajudar você em alguma coisa, Ruby. Me diga. Você pode morar aqui com a gente, consiga um emprego de verdade e todos nós podemos nos sair bem juntos. O Dean escuta você, e podemos cuidar dele juntas o que é até bom, porque eu não aguento mais cuidar dele sozinha. Podemos ser a família que não teve, Ruby. A encaro sentindo a sensação de um alívio ideológico, e por um tempo até quase parece que as coisas podem se resolver de verdade, mas então eu lembro que não é bem assim. Ainda tenho uma dívida, que acabou de aumentar, ainda preciso enfrentar a Ruth porque essas dívidas ainda são um elo entre nós. Seria muito legal para ser verdade, eu entrando na família do Dean. Almoços em família no domingo, pessoas boas a minha volta e noites de sono normais sem pessoas seminuas, sem bebidas e drogas espalhadas por uma boate. Mas o dinheiro que eu preciso um emprego de salário mínimo não paga, mas a ideia de ter uma família é tentadora. — Eu… eu… é complicado, Raquel. — Coço a nuca tentando procurar uma resposta para ela. — Tudo bem, mas saiba que eu estaria disposta a te ajudar. — Sorriu fraco sem mostrar os dentes. — Obrigada. — Devolvi o sorriso e andei novamente em direção ao quarto. Entrei no quarto de Dean., fechei a porta e me escorei nela em meio ao escuro. A única luz vinha da janela, uma meia luz que vinha da rua. Vi Dean ali dormindo, daquele jeitinho dele da mesma forma que deixei. Caminhei até ele e deitei ao seu lado, observando o seu rosto. Apoiei a cabeça em seu peito e fiquei ouvindo o som do coração e da respiração leve. Agarrada em seu tronco, me embriagando com o cheiro de banho recém tomado dele, sorri fechando os olhos. Meu corpo estremece quando sinto a mão dele alisar minhas costas, a ponta dos dedos suavemente deslizando sobre minhas costas. Levanto o rosto olhando para o dele de olhos fechados e os abrindo quando levantei, pisquei devagar e selei nossos lábios. Tudo tão singelo, tudo em nossa volta sumindo, você sabe quando ama alguém e nunca foi só sobre o amor, mas sim a pessoa. Seguro a lateral do seu rosto firmando nossos rostos, tão animada com ele, com a beleza dele, com o olhar dele, com o toque dele, com ele por completo. Eu percebia que poderia fazer qualquer coisa por esse garoto se ele me permitisse ficar ao seu lado. Dean separa nossos lábios e descansa sua testa na minha com os olhos fechados, entorpecida tento novamente unir nossos lábios, porém ele segura meu queixo me mantendo longe. Encaro seus olhos mas ele não me olha, apenas me tira de cima dele e vira o rosto para não manter mais contato visual comigo. — Dean… — Eu m*l falei o seu nome e ele já me cortou. — Vai embora. — O tom de voz dele foi ríspido, sem um pingo de calor, não continha nada além de frieza. — Dean… — Chamei pelo nome dele novamente. — Vai. Embora. — Outra vez o tom de voz dele foi mais ríspido ainda, com uma entonação mais forte e pausado, para soar mais significativo, e assim eu senti. O ponto final que eu não queria aceitar de jeito nenhum estava agora ali, eu querendo ou não. — Dean, me escuta. — Você não ouviu? — E outra vez o tom de voz dele congelado, sem calor algum me dando um choque de realidade me fazendo ter que aceitar. — Eu subi aquele lugar por você. — Falei quase em um sussurro. — Foi uma merda, sabia? Eu achei que não iríamos conseguir sair daquele lugar inteiros, é claro, e eu passei por tudo sozinha porque você estava chapado e entupido de álcool. Ele esfregou o rosto e levantou caminhando de um lado para o outro enquanto não me encarava de maneira alguma. — Não vai dizer nada? Eu praticamente arrisquei a minha vida por você, e você não diz nada? — Eu não obriguei você a ir, você foi porque você quis. Então não venha pôr culpa em mim por uma escolha sua. — Dean gritou comigo. Gritando alto, elevando mesmo o tom de voz irritado. Fiquei em silêncio olhando para ele, estava me sentindo magoada? Mas que p***a. Eu não quero ser aquelas idiotas que ficam magoadinhas porque o i****a insensível, o protagonista par romântico delas mudaram com elas, mas estava difícil. — Então é isso? — Ri falso sentindo os olhos quererem arder, a garganta querendo queimar também e o estremecimento tomando conta, porém, esse estremecimento é de mágoa mesmo. — Nem um “obrigado”, ou um pedido de desculpas? Dean me encarou por alguns segundos e quando terminei de falar ele elevou o tronco novamente, porque ele tinha até mesmo abaixado um pouco para gritar comigo. Senti que ele estremeceu também, o olhar dele de decepção consigo mesmo era perceptível. Mas ele apenas balançou a cabeça e assentiu, parecia não mudar a própria percepção. — É você quem está magoada agora? Esqueceu que você mentiu sobre si mesma? E agora é você quem está magoada? — Ele riu irônico. Riu mesmo, um longa risada de 5 segundos. O encarei franzindo as sobrancelhas, não o reconhecendo mais. Como ele saiu daquele garoto incrível, e se transformou nesse i****a? Mas eu já devia estar esperando, não é? Um garotinho amargurado desse, viciado em drogas e tem problemas com a mãe. O que eu deveria estar esperando? Acho que era esse o problema, eu esperei demais dele. — Por que não me disse, Ruby? Por que não contou para mim? — Questionou com o tom de voz cheio de indignação. — Porque você não iria entender. — Respondi simples. — Ninguém leva a sério, eu já aprendi isso na minha última escola. Eu não podia correr o risco de que acontecesse tudo de novo nessa. — Escondendo até mesmo de mim? — Riu novamente cheio de mágoa. — Dean, não acha que é algo realmente muito íntimo para se contar? — Poderíamos ter dado um jeito, eu tiraria você de lá. A gente dava um jeito juntos, acharíamos uma solução. Mas prefere esconder as coisas de mim? — Eu não entendo você, sério. — Mas você eu entendo perfeitamente, você é só uma menina imatura tentando se passar por madura. Quer dar conta de tudo sozinha e não aceita ajuda de ninguém. — Dean começou a ME dar esporro agora, igual ao que todo homem faz. Transformando o problema que era para ser ele, e fazendo parecer que eu era o problema. — Chega, para, para, para! — Cobri os ouvidos sentindo a minha cabeça doer, as lágrimas querendo brotar nos olhos e o corpo derreter. Fico pensando comigo mesma, sozinha, enlouquecendo, afundando nos meus próprios pensamentos e levando em consideração que eu disse que o Dean pensa demais, mas notando agora mesmo que sou eu quem está pensando demais agora. — Você não é essa garota que acreditei que fosse. Agora eu vejo você e só consigo... não consigo ver você da mesma forma que via antes. — O tom de voz dele continha mais dor do que a que ele estava sentindo, porém ele era bom em conseguir fingir não sentir. Estava quase imperceptível. — É sério, Dean? Porque você me viu naquele lugar? — Há dois anos atrás, você era diferente. Era uma vagabunda que m*l ia a escola, dava para qualquer um e só vivia em festas com homens que acabava de conhecer. Você não era como... Como agora. As lágrimas começaram a descer automaticamente como se o meu corpo soubesse apenas produzí-las e expulsá-las. O modo como ele falava me machucava, ele sentia, quando se é uma pessoa que a gente ama, dói muito. — Não era bem assim, De... — Ouvi histórias sobre você… — Murmurou entre as minhas palavras me interrompendo. — Você, aqueles homens que vi naquela merda de boate… merda! — Ele deixou a raiva transparecer e ele saiu chutando tudo. — Está querendo dizer que transei com aqueles homens por dinheiro? — Questionei tentando elevar a voz, mas não conseguia muito. — E não foi? Você era mesmo virgem? — Começou a ironizar fazendo meu corpo ferver de raiva, eu estava tremendo muito. Quando me vi já estava partindo para cima dele, o acertando vários golpes no peito enquanto chorava feito uma criança. — Você acha mesmo que eu menti para você? — Choramingando caindo de joelhos no chão. — É claro que ele não acreditaria em mim. — Ri falso com a intenção de ironizar. — Existe uma grande diferença entre ser uma vagabunda, e ter fama de vagabunda, Dean. — Você não merece ser amada, Ruby. O que você queria comigo? Você nunca namorou com nenhum cara, não é? O que ia fazer, hum? Me dar até cansar de mim e depois ir atrás de outro? — Ele sentia que precisava falar, não conseguia mais controlar. Precisava colocar essas palavras para fora, não acreditava nelas mas precisava vomitá-las para fora. — Por isso que foi tão fácil t*****r com você, não é? Uma garota tímida, nerd e na dela como eu achei que você fosse, jamais daria a virgindade dela para qualquer um como você fez. — Você não é qualquer um! — Elevei o tom de voz. — Eu transei com você porque gosto de você, seu i****a! — Bati em seu peito o fazendo tombar para trás. Ele apenas me encara cheio de raiva, imóvel. — Fala isso para todos os caras que quer dar sua b****a? — É automático, ele não parece conseguir controlar. Também não consigo, somos dois loucos imaturos tentando ferir um ao outro. O acerto um tapa no rosto e vários golpes, bato em seus ombros fazendo com que ele caminhe para trás até encostar na porta. Ele fica lá em silêncio, encostado sem me olhar. Então ele se virou, abriu a porta mas antes de sair ficou uns segundos em total silêncio. — Quando eu voltar não quero ver mais você aqui, pela última vez… vai embora! — Então ele saiu e bateu a porta me deixando lá sozinha.
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