LILY’S POV
A cozinha estava mergulhada em silêncio, exceto pelo som suave da água saindo da torneira enquanto eu enchia meu copo. O relógio na parede marcava quase meia-noite, e a casa parecia em paz, mas minha mente não estava. Enquanto tomava um gole, ouvi vozes vindas da sala. Samuel e Samantha estavam conversando.
A princípio, não dei muita atenção, mas algo no tom deles me prendeu. Encostei-me à bancada, tentando ouvir melhor sem me fazer notar.
— Você está falando sério? — A voz de Samuel soou, surpreendentemente animada.
— Sim, três deles vão ouvir vocês na sexta-feira — respondeu Samantha, com um tom firme, mas carregado de algo que parecia preocupação.
— Isso é incrível ! — A resposta de Samuel foi seguida por um som abafado, como se ele tivesse abraçado Samantha.
Minha expressão suavizou. Fiquei feliz por ele. A The Wild Ones era incrível, e se alguém merecia reconhecimento, era a banda deles. Mas, então, Samantha continuou falando, e suas palavras me pegaram de surpresa.
— Se os três produtores derem feedback negativo... você vai para Juilliard.
Juilliard? Minha mente girou. Samuel havia sido aceito em Juilliard? Era uma revelação que me atingiu com força. Como eu não sabia disso? Eu achava que conhecia Samuel, achava que sabia tudo sobre ele. Afinal, eu era fã da The Wild Ones desde o começo, acompanhava os lançamentos, os shows... mas, pelo visto, estava enganada.
Enquanto terminava de encher o copo com água, não conseguia parar de pensar. Em breve, Samuel não dividiria mais aquela casa comigo. Fosse pelo sucesso da banda, que era inevitável, ou pela oportunidade em Juilliard, ele partiria. Nova York estava a quilômetros de Chicago, e seja qual fosse o destino dele, a verdade era que nossos caminhos deixariam de se cruzar.
Talvez nos víssemos em datas comemorativas, mas eu duvidava que Samuel voltaria para casa de verdade. Ele nunca pareceu sentir que aquele lugar era dele, e agora teria uma desculpa perfeita para não olhar para trás.
Eu queria estar bem com isso, aceitar que ele seguiria sua vida, mas não conseguia. Meu peito apertava com a ideia de não o ter por perto, de não ouvir mais as provocações dele, de não compartilhar o mesmo espaço, mesmo com todas as brigas. Era errado sentir algo por ele. Errado, mas impossível de ignorar.
Era nisso que eu pensava quando senti uma mão em meu ombro. Sobressaltada, deixei o copo cair, e ele estilhaçou no chão com um barulho alto.
— Lily? — Era Samantha. — Você está bem?
Coloquei a mão no peito, tentando acalmar meu coração acelerado.
— Sim, só vim pegar uma água. — Abaixei-me para recolher os cacos.
Samantha observou-me por um momento antes de colocar sua taça de vinho na pia, pensativa.
— Está tudo bem? — perguntei, tentando mudar o foco.
Ela suspirou, os olhos distantes.
— Sim. Só estava conversando com Samuel sobre o futuro dele e da banda.
Levantei-me com os cacos na mão, fingindo casualidade.
— E como foi?
— Marquei com alguns produtores para ouvirem a The Wild Ones.
Fingi surpresa e sorri.
— Isso é ótimo! Eles são perfeitos. Quer dizer, sou suspeita para falar porque sou muito fã, mas ainda assim...
— Fã, é? — Samantha arqueou uma sobrancelha, parecendo intrigada.
— Sim. — Dei de ombros, sorrindo. — Fui ao último festival que teve em Chicago, escondido. Não conte para o meu pai, por favor.
Samantha riu suavemente.
— Seu segredo está seguro comigo.
Eu ri, aliviada, mas logo fiquei séria novamente.
— Estou feliz que você esteja pensando na banda. Você não vai se arrepender por apoiá-los.
— Assim eu espero — respondeu Samantha, mas seu tom estava diferente, mais pesado.
— O que está te preocupando? — perguntei, com cautela.
Ela ficou em silêncio por um momento antes de responder.
— Esse não era o futuro que eu esperava para Samuel. Eu sempre quis que ele fosse para Juilliard. Esse era o plano. Ele se tornaria um maestro, como eu e o pai dele havíamos planejado.
Fiquei quieta, sem saber o que dizer.
— Depois que o pai dele morreu, Samuel mudou. Ele pareceu... se perder. Mas, se eu puder, farei de tudo para que ele volte ao plano original.
Samantha olhou para mim, como se esperasse uma resposta, mas eu não tinha palavras. Era estranho ouvir aquela vulnerabilidade vinda dela, e eu não sabia como reagir.
— Chega de te encher com as minhas divagações — disse ela, sacudindo a cabeça. — É melhor você ir descansar.
— Só vou terminar de limpar os cacos. — Abaixei-me novamente, mas Samantha me interrompeu.
— Deixe isso comigo. Vá dormir. Você tem aula amanhã.
— Tudo bem. — Levantei-me, hesitando antes de sair da cozinha.
Enquanto subia as escadas, minha mente estava cheia de pensamentos sobre Samuel, sobre a banda, sobre Juilliard. Ele tinha tantas opções, tantos caminhos. E, de alguma forma, todos eles pareciam me afastar ainda mais dele.
Deitei na cama, encarando o teto. Eu precisava deixar de gostar dele. Não podia continuar alimentando algo que era impossível, que era errado. Mas como?
Meu celular vibrou na mesa de cabeceira, interrompendo meus pensamentos. Peguei-o e vi uma mensagem de Aidan.
"Me desculpe, Lily."
Suspirei, sentindo a ironia da situação. Havia uma saída para meus sentimentos por Samuel. E ela estava bem ali, na mensagem de Aidan.
Eu digitei uma resposta, decidida. Talvez a única forma de esquecer Samuel fosse colocar outra pessoa em seu lugar.
A resposta veio quase instantaneamente, como se ele estivesse esperando por mim.
"Eu não deveria ter agido daquele jeito. Você não merece isso. Queria poder me redimir."
Os minutos que se seguiram foram marcados por uma troca constante de mensagens. Ele me contou sobre como andava pensando em mim, como queria que as coisas fossem diferentes. Eu respondi sem muita emoção, mas o suficiente para manter a conversa fluindo.
Aidan era gentil, sempre fora. Ele tinha uma forma de dizer as coisas que me fazia sentir especial, mesmo quando eu sabia que não deveria colocar tanta fé nele. Mas, naquele momento, eu não queria analisar o que sentia. Só queria seguir em frente, apagar os pensamentos que giravam em torno de Samuel.
"Podemos nos encontrar amanhã na escola?" A mensagem de Aidan piscou na tela.
Hesitei por um momento antes de responder.
"Acho que sim. Podemos falar sobre isso amanhã."
"Obrigado, Lily. Boa noite."
"Boa noite, Aidan."
Coloquei o celular de lado e apaguei o abajur, mergulhando o quarto na escuridão. Apesar da troca de mensagens, o peso ainda estava no meu peito. Samuel ainda rondava meus pensamentos, como uma melodia que se recusava a sair da cabeça.
"Isso vai passar", pensei, tentando me convencer. Fechei os olhos e me virei na cama, determinada a deixar Samuel para trás. Ele estava a caminho de um futuro que não me incluía, e eu precisava aceitar isso.
Aidan era o caminho certo, eu sabia disso. E, naquele momento, decidi que faria o possível para seguir em frente. Por mais difícil que fosse, eu deixaria Samuel no passado. Era isso ou continuar sofrendo por algo que nunca poderia ser.
Respirei fundo, e a escuridão finalmente me envolveu, levando-me ao sono com uma decisão cravada na mente: eu iria esquecer Samuel.