CAPITULO 77

1116 Palavras
SAMUEL'S POV Estava sentado na beirada da cama, com a guitarra no colo, tentando concentrar meus pensamentos na melodia e nos versos que ainda estavam incompletos. O quarto estava mergulhado em sombras, a luz fraca da lâmpada de mesa refletindo no papel amarelado onde rabisquei algumas palavras. "Eu a vejo caminhar, tão cheia de luz... Mas ela não percebe o que há entre nós..." As palavras saíam com facilidade, mas cada verso era uma faca cravada mais fundo. Não importava o quanto tentasse mascarar, a verdade estava escancarada: Lily nunca me enxergaria como eu a enxergava. "Enquanto ela se perde nos braços dele, eu fico aqui, sozinho com a minha voz..." A música fluía, uma mistura de desabafo e tristeza, algo que parecia transbordar de dentro de mim sem que eu tivesse controle. Os acordes suaves da guitarra preenchiam o silêncio do quarto, cada nota ecoando como um grito que eu nunca diria em voz alta. De repente, o som de uma porta batendo quebrou minha concentração. Era o quarto de Lily. Algo estava acontecendo. Levantei-me, deixando a guitarra de lado, e fui até a porta do meu quarto. Quando saí, vi que havia uma movimentação vinda do quarto dela. O coração bateu um pouco mais rápido. Algo dentro de mim sabia que eu não deveria me meter, mas a preocupação — ou talvez a curiosidade, quem sabe — foi mais forte. Abri a porta dela, entrando sem pensar muito, e encontrei Lily de costas para mim, tirando o vestido azul que usou para a missa. Ela se virou rapidamente, os olhos faiscando de irritação, o rosto corado, como se a minha presença fosse a última coisa que ela esperava. “Você não sabe bater, Samuel? Sério?” ela perguntou, cruzando os braços sobre o peito, o tom de voz afiado como uma lâmina. Engoli em seco. "Sinto muito, Lily. Eu só queria ver se você estava bem." Ela bufou, visivelmente irritada, e me encarou com um olhar furioso. “Eu estou ótima, tá bom? Pode sair.” A raiva dela parecia uma muralha impenetrável, mas eu não conseguia simplesmente virar as costas. Encostei-me à porta, cruzando os braços também, tentando não parecer abalado. “Como foi na casa do Aidan?” perguntei, sem rodeios, embora minha voz carregasse um tom leve de provocação que ela conhecia muito bem. Os olhos dela se estreitaram ainda mais. "Eu não tenho tempo para suas piadinhas sobre o Aidan, Samuel." Eu suspirei, levantando as mãos em sinal de rendição. “Não estou brincando. Eu realmente quero saber. Foi bem tratada pelos Lewis? O que achou? É isso que um irmão mais velho faria, não é?” Lily ergueu uma sobrancelha, claramente desconfiada. "Irmão mais velho? De onde você tirou isso? Que m***a é essa?" O comentário me atingiu, mas eu já esperava a reação. A verdade é que eu estava tentando me afastar, pelo menos de certa forma. Eu sabia que ela estava se afastando emocionalmente, e talvez fosse hora de aceitar o que éramos agora: meio-irmãos. Eu suspirei, sentindo o peso da decisão. "Você estava certa, Lily. Não podemos continuar como estávamos. Pelo bem da família, pelo bem de todos, é melhor aceitarmos a situação. Somos irmãos agora." Ela me olhou com uma expressão entre o choque e a raiva contida. "Meio-irmãos," corrigiu ela, mordendo os lábios, ainda irritada. Balancei a cabeça. "Ainda assim, irmãos. E eu só quero uma chance de me redimir, de fazer isso certo." Por um momento, o silêncio reinou. Lily parecia pensativa, avaliando minhas palavras como se buscasse algum truque escondido nelas. Finalmente, ela assentiu devagar. “Tudo bem,” disse ela, a raiva esmaecendo um pouco, mas ainda presente em sua postura rígida. Sentei-me na cama dela, o que a fez franzir o cenho, mas não disse nada. "Então, como foi o almoço?" perguntei, tentando soar casual, como se aquilo não estivesse me corroendo por dentro. Ela suspirou, os ombros relaxando levemente. "Foi legal. A família de Aidan foi muito receptiva. O almoço foi ótimo, tudo perfeito." "Perfeito?" repeti, tentando esconder o desconforto crescente no estômago. "E o Aidan? Ele foi legal com você? Respeitoso?" Lily mordeu os lábios de novo, um gesto que ela fazia sempre que estava nervosa. "Sim, Aidan foi... muito legal," ela disse, a voz mais baixa, como se as palavras pesassem mais do que queria admitir. Levantei-me da cama, sentindo um nó se formar na garganta, mas me obriguei a sorrir. “Que bom. Fico feliz por você, Lily.” "Obrigada," ela respondeu, mas não parecia exatamente agradecida. Eu caminhei em direção à porta, sentindo o peso de cada passo. Eu sabia que estava certo em me afastar, que isso era o melhor para nós dois. Ela merecia ser feliz, e, por mais que doesse, eu sabia que não seria ao meu lado. Quando cheguei à porta, me virei uma última vez. Lily estava ali, respirando fundo, os olhos fechados por um breve segundo, como se estivesse aliviada. A dor daquela visão me atingiu como um soco no estômago, mas eu não disse nada. Apenas fechei a porta e voltei para o meu quarto. Sentei-me na cama, peguei a guitarra de novo, mas agora, em vez de tocar, apenas fiquei olhando para o papel à minha frente. Peguei o lápis e, com a mente tomada por pensamentos sobre Lily, escrevi os versos que eu sentia profundamente, mas que jamais poderia dizer em voz alta: "Toda vez que ela me conta sobre o amor, eu finjo que estou bem, mas que grande ator. E ela brilha tão forte, mas ele não vê, o que daria pra ela, ele nunca vai ser." As palavras saíram com facilidade, como se sempre estivessem ali, esperando o momento certo para serem registradas. Elas expressavam tudo o que eu nunca poderia dizer diretamente a ela. Como poderia dizer a Lily o que eu realmente sentia, quando ela agora pertencia a um mundo ao qual eu nunca mais teria acesso? A dor estava ali, pulsando em cada acorde, em cada verso que eu escrevia. Eu sabia que esse amor nunca seria correspondido da forma que eu queria. Ela nunca me veria como eu a via. Mas pelo menos, através da música, eu poderia deixar esses sentimentos existirem, mesmo que apenas por mim. Toquei as primeiras notas e comecei a cantar baixinho, para ninguém além de mim ouvir. Essa era a única forma de lidar com o que eu sentia, de tentar seguir em frente, mesmo que o coração dissesse o contrário. Lily poderia nunca entender o que eu sentia, mas através da música, pelo menos, eu poderia manter uma parte dela comigo. Mesmo que, no fundo, eu soubesse que isso nunca seria o suficiente.
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