No outro dia cedo avó a levou a missa, fazia anos que Ana não entrava em uma igreja, depois foram a feira, havia várias barracas de frutas, legumes e verduras, todos pareciam conhecer sua avó, muitos quando avó a apresentava a abraçavam e falavam de como ela era criança, Ana não lembrava nem mesmo de conhecer todas essas pessoas.
O sol estava quente e a avó ainda tinha energia para andar pela feira, depois seguiram para um restaurante não muito longe do centro e compraram comida, Beto que as levou estava esperando em frente a igreja, Ana notou que ele aparentava a idade de seu pai, talvez uns quarenta e poucos.
Ana e avó se despediram de Beto e almoçaram juntas, Ana não teve como fugir das perguntas.
- Qual curso você vai fazer? Sua mãe falou que queria que você fizesse direito, acho uma ótima profissão, o filho mais novo do Sr. Eliseu fez direito e hoje ele é o delegado da cidade, vou falar para o Sr. Eliseu apresentar vocês.
- Estou pensando ainda...
-E o seu namorado, como está? Sua mãe me mandou fotos de vocês, ele parece um rapaz muito bonito.
-Então acho que não estamos bem...- Ana realmente queria evitar esse assunto, já fazia um mês que havia terminado, mas para ela ainda era difícil falar sobre isso.
-Por que? – Ana apenas queria sair correndo.
-Acho que somos muito diferentes, principalmente agora... acho que queremos coisas diferentes para o nosso futuro.
-Ana meu bem, relacionamentos são complicados, mas as vezes a gente tem que saber “levar” e ceder algumas vezes para que dê certo, é por isso que os casamentos antigos duravam mais, nós insistimos para dar certo.
Ana apenas confirmou e comeu um pouco da lasanha de queijo, ela havia passado o mês todo muito triste e por isso sua mãe a convenceu a ir para chácara assim que as aulas acabaram, para ela esquecer um pouco, mas por um instante pensou se avó não estava certa, se ela deveria ter insistido mais nos dois.
Como acordou muito cedo Ana estava sentindo-se cansada, após terminar o almoço decidiu deitar um pouco, foi verificar as mensagens no aplicativo, mas seus olhos pesaram e um poucos segundo Ana adormeceu.
Lá estava ela no jardim havia muitas flores e um caminho de pedras que circulava a fonte, que parecia nova, estava limpa e pintada de branco, Ana andou em volta da fonte do outro lado encontrou uma garotinha de cabelos liso e preto, ela usava shorts largos uma blusa com babados branca.
-Ana vamos brincar ?- Perguntou a garotinha puxando a mão de Ana.
Elas subiram as escadas e entraram no casarão, Ana não sabia o porque mas seguia a menininha, elas subiram a escada e foram para o quarto de Ana, estava cheio de ursos de pelúcias e bonecas, a garotinha subiu em sua cama com uma boneca e começou a pentear o cabelo da boneca.
-Ana me dá o espelho?- pediu a garotinha apontando para um espelho na cômoda, ele era redondo, Ana foi pegar, mas notou que a cômoda parecia tão alta, seus olhos estavam da altura da cômoda, ela pegou o espelho e viu grandes olhos verdes, cabelo castanho cacheado e bochechas redondas.
Era o seu rosto, mas de quando era criança, pensou que talvez uns sete ou oito anos, logo ouviu alguém chamar e se virou, havia um garoto, talvez uns dez anos, ele tinha cabelos escuros bagunçado e olhos castanhos claro, usava shorts e camiseta sujos com terra.
-Sofia vamos embora a tia está indo.
-Mas a gente começou a brincar agora.- disse a garotinha.
-Vamos logo!!- a garotinha colocou a boneca deitada no travesseiro e foi em direção a porta.
-Tchau Ana- disse a garotinha – O Igor é um chato.
Disse a garotinha olhando com olhos tristes para Ana, ela quis segurar a mão da garotinha, a garotinha saiu do quarto. Ana piscou e de repente não estava em seu quarto amarelo com cortinas cor de rosa, era um lugar escuro e ouviu um grito e fechou os olhos, acordou, mesmo tendo se assustado com o fim do sonho, ela olhou ao redor e teve a sensação que talvez não fosse um sonho e sim uma lembrança.
Ana depois que acordou foi para sala onde sua avó recebia visitas, duas senhoras que haviam visto na igreja, e novamente Ana teve que responder sobre o namorado e a universidade, e as senhoras mesmo não conhecendo Ana não se importaram de fazerem muitas perguntas pessoais, perguntando de seu pai, porque ele não vinha visitar os pais, porque ela não vinha visitar os avós, entre outras.
Ana não sentia-se a vontade em compartilhar sua vida com estranhos, sabia que era comum em cidades pequenas perguntas indiscretas, mas queria sair correndo da sala, mas aguentou as senhoras jantaram e ficaram até tarde, depois que foram embora Ana ajudou avó com a limpeza, limpou a sala de jantar e ajudou com a louça, sua avó contava sobre a vida das duas senhoras animada, uma o marido a traía constantemente com a dona da padaria e a outra um dos filhos a roubou e fugiu da cidade, Ana não gostava muito de fofoca, mas apenas continuou escutando e rindo da animação da avó.
Ana tomou banho, desceu e encontrou com Elena na cozinha, sua avó dormia cedo.
-Oi.
-Oi, hoje você ficou no plantão noturno?-
-Sim, na verdade o filho de Mélia está doente e ela perguntou se podíamos trocar o plantão.
-Nossa, você deve estar exausta.- disse Ana.
-Um pouco cansada, já estou acostumada, trabalhei em hospitais onde tinha muitos pacientes, era uma loucura, é até calmo ter apenas um.
As duas tomaram chá e comeram biscoitos juntas, depois Ana foi para seu quarto, planejava assistir um filme em seu notebook, mas assim que começou foi sentindo-se sonolenta, parecia que desde que chegara na chácara estava sentindo-se cansada.
Ana foi a banheiro e escovou os dentes, quando saiu viu alguém no fim do corredor, parecia parado na frente do quarto da avó, deu dois passos para frente e a pessoa sumiu, Ana piscou e coçou os olhos, pensou se era o sono tinha o formato de uma pessoa baixa, mas parecia mais uma sombra.
Ana voltou para cama, desligou o notebook e decidiu dormir, pensou que devia estar cansada para estar imaginando coisas, mas também chegou a tocar na cicatriz em cima da orelha direita, tentou se lembrar das sequelas após o acidente, lembrava de ver embaçado mas fazia anos que não sentia nenhuma sequela mas decidiu que iria ver seu médico assim que voltasse para casa.