NOITE DE TERROR

1541 Palavras
URSO NARRANDO 17 ANOS ANTES Os fogos começaram a estourar no céu às cinco e meia da manhã. Acordei com o estrondo ecoando pelas paredes da laje, o som seco de rojão avisando o que todo mundo já temia: a polícia tava subindo. Era o tipo de som que não dava tempo nem de pensar. O coração já vinha na frente, disparado. Eu só puxei o colete, peguei o fuzil encostado no canto e gritei: — Desce todo mundo pro beco! É invasão — O eco da minha voz se misturou com o barulho dos rádios estourando na frequência, cada soldado passando a mesma notícia pra outro canto do morro. Em segundos, parecia que o chão tremia. Gente correndo, cachorro latindo, o choro de criança vindo das casas. Aquilo ali já era o inferno começando antes do sol nascer. O Tavinho chegou esbaforido, com o fuzil pendurado no peito. — Urso, o helicóptero já tá rondando a parte de cima da Penha! — Eu sei. — Falei com raiva. — Mas não era pra ser hoje. — Os caras mudaram o esquema, irmão. Falaram que tão vindo com dois mil homens. Dois mil. A palavra bateu seca na minha mente. Era mais do que a gente imaginava. Aquilo não era operação, era caçada. A favela parecia respirar junto comigo, pesada, abafada. O cheiro de pólvora já tomava o ar mesmo antes do primeiro tiro. A gente sabia que a tropa vinha de três lados, e o único jeito de sair vivo era segurar o máximo possível pra abrir tempo e fugir pela mata dos fundos. Olhei pro Tavinho, que apertava o colete e prendia o boné virado pra trás. O cara era meu braço direito. Irmão de vida, de crime, de sangue. A gente se conhecia desde moleque, quando ainda vendia balinha no sinal e sonhava com moto. Hoje, o sonho era outro: sobreviver até o fim do dia. — Urso, a parte da carga tá lá embaixo da laje da Nina, — ele disse, se abaixando pra pegar o rádio. — Mas e se eles vierem com blindado? — A gente não vai segurar blindado, não. — Respondi rápido. — É só pra ganhar tempo. O drone já tá pronto? O moleque do drone acenou, ligando o controle improvisado. O bicho era uma gambiarra feita com pedaço de brinquedo e câmera colada com fita, mas o Tavinho tinha arrumado um jeito de prender granada caseira nele. Aquilo era loucura, mas a gente tava acostumado a trabalhar com o impossível. Quando o primeiro helicóptero cortou o céu, o vento levantou poeira e papelão do chão. O som das hélices ecoava nas vielas, e a gente ouviu os estampidos secos dos primeiros disparos vindo lá de baixo — Atira não, segura o dedo! — gritei. — Deixa eles subirem mais O drone subiu, pequeno, barulhento, meio torto, mas foi. De lá de cima, vi a fumaça subir quando a granada improvisada caiu no meio da linha dos policiais. O barulho foi ensurdecedor. Os rádios da gente estouraram de gritos: — Pegou! Pegou, p***a! — Mas a comemoração durou segundos. A resposta veio com força. Tiro de fuzil varando parede, pedaço de laje caindo, vidro estourando. Os meninos começaram a cair. Um, dois, três… o chão virando lama de sangue e cimento. Corri pelo beco, tentando puxar os que ainda estavam de pé. O Tavinho vinha logo atrás, ofegante. — Urso, recua! Eles tão vindo pela mata também! — Eu parei, sem acreditar. — Pela mata? — É, c*****o! Cercaram geral! — Era o pior cenário possível. A gente tava encurralado. O sol já começava a despontar entre os barracos, pintando o céu de laranja sujo. E no meio daquele caos, o único som constante era o das balas cortando o ar. Quando fui correr pra trocar de posição, senti a pancada. Um impacto seco, forte, na perna esquerda. A dor veio em seguida, como fogo subindo até a virilha. Caí de lado, o fuzil escapando da minha mão. — Urso! — a voz do Tavinho ecoou, desesperada. — Tu levou, irmão! Ele correu até mim, me puxou pelo colete, tentando me colocar de pé. O som dos helicópteros passava raspando em cima dos barracos. A poeira e a fumaça cobriam tudo. — Levanta, p***a! — ele gritou. — Vai, c*****o! Eu seguro aqui! — respondi, mas a voz saiu fraca. A perna latejava, e eu sentia que não ia conseguir correr direito. Mesmo assim, o Tavinho passou o braço no meu ombro e me puxou. A gente começou a subir o beco mancando, tropeçando em escombros e nas carcaças de moto queimadas. O cheiro de pólvora e fumaça queimava o nariz. Puxei o rádio, ainda ofegante. — Aqui é o Urso. Escuta bem o que eu vou falar. Fecha o Rio. Fecha tudo. — Repete, Urso, não entendi… — veio a voz chiada do outro lado. — Fecha o Rio! — gritei. — Tô liberando geral. Quem quiser matar, mata. Quem quiser roubar, rouba. É pra parar o estado! Queima pneu, atravessa ônibus, bota fogo nos carros. Eu quero o Rio de Janeiro em chamas, escutou? Silêncio. Depois, a resposta firme de outro vapor: — Entendido, patrão. Hoje o inferno desce pra rua. — Aquela ordem não era por vaidade. Era tática. Se o caos tomasse a cidade, a polícia ia dividir atenção, tirar tropa da Penha, aliviar o cerco. Era a única chance da gente sair dali respirando. O rádio começou a estourar de mensagens. Fogos em bairros diferentes, sirenes no fundo, gente gritando que os ônibus estavam atravessados nas pistas. A estratégia tava funcionando. Mas o barulho dos tiros ainda era constante, seco, pesado, vindo de trás. — Tão segurando lá embaixo, — Tavinho disse, arfando. — Os meninos tão aguentando firme. A gente continuou se arrastando, entrando pelo corredor da pedreira. As pedras úmidas escorregavam, e a mata logo começava a aparecer, densa, abafada. O sol tentava furar as copas das árvores, mas o céu parecia coberto de fumaça. Atrás da gente, dava pra ouvir os estampidos ecoando, a tropa vinha chegando. — Mais rápido, irmão! — gritei. — Se eles fecharem a pedreira, a gente morre aqui! O Tavinho virou pra mim, suado, o rosto coberto de fuligem. — Tu ainda vai conseguir correr assim? — Nem que eu vá me arrastando, mas eu saio. — Ele riu fraco, sem humor, e continuou puxando o meu braço. O som de galhos quebrando veio de algum lugar à direita. Um clarão, e depois o estampido. Foi rápido demais pra reagir. Tavinho parou. Olhou pra mim com os olhos arregalados, como se tivesse esquecido de respirar. As mãos dele tremiam, e eu vi o sangue escorrer pela camisa dele. — Tavinho! — Ele caiu de joelhos, a respiração pesada, tentando segurar o fuzil, mas os dedos já não obedeciam. Corri pra segurar ele, mesmo com a perna gritando de dor. — Fica comigo, irmão! Vamo sair dessa, vamo sair, p***a! Ele tentou falar, mas a voz vinha fraca, falhando. — Urso… me escuta… — Aproximei o ouvido. — Fala, c*****o. Fala. — A Raquel… minha menina… a Radassa… promete… cuida dela pra mim — Balancei a cabeça, negando. Eu respirei fundo, sem saber o que responder. Criança, pra mim, era sinônimo de fraqueza. Nunca quis ter uma por perto. Mas ali, vendo o Tavinho com os olhos perdendo brilho, eu soube que não dava pra negar. A gente tinha vivido coisa demais junto. Aquela promessa valia mais do que qualquer juramento de igreja. — Eu prometo, Tavinho. — falei, com a voz firme, mesmo sentindo tudo desabar por dentro. Ele assentiu devagar, um meio sorriso se formando. E aí os olhos dele se perderam no vazio. Por alguns segundos, tudo ficou mudo. O barulho dos tiros virou ruído distante. A única coisa que existia era o peso do corpo dele nos meus braços. Fiquei parado, respirando fundo, e depois levantei. Meu corpo inteiro tremia. Mas eu sabia que ele não ficaria ali. Não o Otávio Passei o braço dele pelo meu ombro, segurei o fuzil com a outra mão e comecei a andar. Cada passo era um inferno. A perna ardia, o corpo dele pesava, mas eu não ia abandonar. Um dos vapores veio correndo, ofegante. — Urso! Deixa ele! Eles tão vindo! — Sai da frente! — gritei. — Meu irmão vai ter um velório, p***a! Ninguém vai deixar ele apodrecer aqui! O moleque ficou quieto, sem saber o que fazer. Eu continuei, cambaleando, arrastando o Tavinho nas costas, o fuzil pendendo no peito. A pedreira parecia infinita. Cada pedra que eu subia escorregava, e o sangue escorria pelo chão, marcando o caminho. Mas eu não parava. Dentro da cabeça, só uma coisa repetia: “ele vai ser lembrado como força.” Cheguei na entrada da mata, onde o ar era úmido e frio. Lá dentro, o som do tiroteio diminuía. O silêncio da floresta era quase dolorido depois de tanto barulho. Encostei o corpo dele numa pedra grande. Olhei pro rosto do Tavinho parecia dormindo, mas o corpo já começava a ficar rígido. Fechei os olhos dele com a mão, respirei fundo e falei baixo: — Descansa, irmão. Tu fez tua parte. Agora deixa o resto comigo. CONTINUA..
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