URSO NARRANDO
17 ANOS ANTES
Os fogos começaram a estourar no céu às cinco e meia da manhã.
Acordei com o estrondo ecoando pelas paredes da laje, o som seco de rojão avisando o que todo mundo já temia: a polícia tava subindo.
Era o tipo de som que não dava tempo nem de pensar. O coração já vinha na frente, disparado. Eu só puxei o colete, peguei o fuzil encostado no canto e gritei:
— Desce todo mundo pro beco! É invasão — O eco da minha voz se misturou com o barulho dos rádios estourando na frequência, cada soldado passando a mesma notícia pra outro canto do morro. Em segundos, parecia que o chão tremia. Gente correndo, cachorro latindo, o choro de criança vindo das casas. Aquilo ali já era o inferno começando antes do sol nascer.
O Tavinho chegou esbaforido, com o fuzil pendurado no peito.
— Urso, o helicóptero já tá rondando a parte de cima da Penha!
— Eu sei. — Falei com raiva. — Mas não era pra ser hoje.
— Os caras mudaram o esquema, irmão. Falaram que tão vindo com dois mil homens.
Dois mil.
A palavra bateu seca na minha mente.
Era mais do que a gente imaginava. Aquilo não era operação, era caçada.
A favela parecia respirar junto comigo, pesada, abafada. O cheiro de pólvora já tomava o ar mesmo antes do primeiro tiro. A gente sabia que a tropa vinha de três lados, e o único jeito de sair vivo era segurar o máximo possível pra abrir tempo e fugir pela mata dos fundos.
Olhei pro Tavinho, que apertava o colete e prendia o boné virado pra trás.
O cara era meu braço direito.
Irmão de vida, de crime, de sangue.
A gente se conhecia desde moleque, quando ainda vendia balinha no sinal e sonhava com moto. Hoje, o sonho era outro: sobreviver até o fim do dia.
— Urso, a parte da carga tá lá embaixo da laje da Nina, — ele disse, se abaixando pra pegar o rádio. — Mas e se eles vierem com blindado?
— A gente não vai segurar blindado, não. — Respondi rápido. — É só pra ganhar tempo. O drone já tá pronto?
O moleque do drone acenou, ligando o controle improvisado. O bicho era uma gambiarra feita com pedaço de brinquedo e câmera colada com fita, mas o Tavinho tinha arrumado um jeito de prender granada caseira nele. Aquilo era loucura, mas a gente tava acostumado a trabalhar com o impossível.
Quando o primeiro helicóptero cortou o céu, o vento levantou poeira e papelão do chão.
O som das hélices ecoava nas vielas, e a gente ouviu os estampidos secos dos primeiros disparos vindo lá de baixo
— Atira não, segura o dedo! — gritei. — Deixa eles subirem mais
O drone subiu, pequeno, barulhento, meio torto, mas foi.
De lá de cima, vi a fumaça subir quando a granada improvisada caiu no meio da linha dos policiais. O barulho foi ensurdecedor.
Os rádios da gente estouraram de gritos:
— Pegou! Pegou, p***a! — Mas a comemoração durou segundos.
A resposta veio com força.
Tiro de fuzil varando parede, pedaço de laje caindo, vidro estourando.
Os meninos começaram a cair. Um, dois, três… o chão virando lama de sangue e cimento.
Corri pelo beco, tentando puxar os que ainda estavam de pé.
O Tavinho vinha logo atrás, ofegante.
— Urso, recua! Eles tão vindo pela mata também! — Eu parei, sem acreditar.
— Pela mata?
— É, c*****o! Cercaram geral! — Era o pior cenário possível. A gente tava encurralado.
O sol já começava a despontar entre os barracos, pintando o céu de laranja sujo. E no meio daquele caos, o único som constante era o das balas cortando o ar.
Quando fui correr pra trocar de posição, senti a pancada.
Um impacto seco, forte, na perna esquerda.
A dor veio em seguida, como fogo subindo até a virilha.
Caí de lado, o fuzil escapando da minha mão.
— Urso! — a voz do Tavinho ecoou, desesperada. — Tu levou, irmão!
Ele correu até mim, me puxou pelo colete, tentando me colocar de pé.
O som dos helicópteros passava raspando em cima dos barracos. A poeira e a fumaça cobriam tudo.
— Levanta, p***a! — ele gritou.
— Vai, c*****o! Eu seguro aqui! — respondi, mas a voz saiu fraca.
A perna latejava, e eu sentia que não ia conseguir correr direito. Mesmo assim, o Tavinho passou o braço no meu ombro e me puxou. A gente começou a subir o beco mancando, tropeçando em escombros e nas carcaças de moto queimadas. O cheiro de pólvora e fumaça queimava o nariz.
Puxei o rádio, ainda ofegante.
— Aqui é o Urso. Escuta bem o que eu vou falar. Fecha o Rio. Fecha tudo.
— Repete, Urso, não entendi… — veio a voz chiada do outro lado.
— Fecha o Rio! — gritei. — Tô liberando geral. Quem quiser matar, mata. Quem quiser roubar, rouba. É pra parar o estado! Queima pneu, atravessa ônibus, bota fogo nos carros. Eu quero o Rio de Janeiro em chamas, escutou?
Silêncio.
Depois, a resposta firme de outro vapor:
— Entendido, patrão. Hoje o inferno desce pra rua. — Aquela ordem não era por vaidade. Era tática.
Se o caos tomasse a cidade, a polícia ia dividir atenção, tirar tropa da Penha, aliviar o cerco.
Era a única chance da gente sair dali respirando.
O rádio começou a estourar de mensagens.
Fogos em bairros diferentes, sirenes no fundo, gente gritando que os ônibus estavam atravessados nas pistas.
A estratégia tava funcionando.
Mas o barulho dos tiros ainda era constante, seco, pesado, vindo de trás.
— Tão segurando lá embaixo, — Tavinho disse, arfando. — Os meninos tão aguentando firme.
A gente continuou se arrastando, entrando pelo corredor da pedreira.
As pedras úmidas escorregavam, e a mata logo começava a aparecer, densa, abafada. O sol tentava furar as copas das árvores, mas o céu parecia coberto de fumaça.
Atrás da gente, dava pra ouvir os estampidos ecoando, a tropa vinha chegando.
— Mais rápido, irmão! — gritei. — Se eles fecharem a pedreira, a gente morre aqui!
O Tavinho virou pra mim, suado, o rosto coberto de fuligem.
— Tu ainda vai conseguir correr assim?
— Nem que eu vá me arrastando, mas eu saio. — Ele riu fraco, sem humor, e continuou puxando o meu braço.
O som de galhos quebrando veio de algum lugar à direita. Um clarão, e depois o estampido.
Foi rápido demais pra reagir.
Tavinho parou.
Olhou pra mim com os olhos arregalados, como se tivesse esquecido de respirar.
As mãos dele tremiam, e eu vi o sangue escorrer pela camisa dele.
— Tavinho! — Ele caiu de joelhos, a respiração pesada, tentando segurar o fuzil, mas os dedos já não obedeciam.
Corri pra segurar ele, mesmo com a perna gritando de dor.
— Fica comigo, irmão! Vamo sair dessa, vamo sair, p***a!
Ele tentou falar, mas a voz vinha fraca, falhando.
— Urso… me escuta… — Aproximei o ouvido.
— Fala, c*****o. Fala.
— A Raquel… minha menina… a Radassa… promete… cuida dela pra mim — Balancei a cabeça, negando.
Eu respirei fundo, sem saber o que responder.
Criança, pra mim, era sinônimo de fraqueza. Nunca quis ter uma por perto.
Mas ali, vendo o Tavinho com os olhos perdendo brilho, eu soube que não dava pra negar.
A gente tinha vivido coisa demais junto.
Aquela promessa valia mais do que qualquer juramento de igreja.
— Eu prometo, Tavinho. — falei, com a voz firme, mesmo sentindo tudo desabar por dentro.
Ele assentiu devagar, um meio sorriso se formando.
E aí os olhos dele se perderam no vazio.
Por alguns segundos, tudo ficou mudo.
O barulho dos tiros virou ruído distante.
A única coisa que existia era o peso do corpo dele nos meus braços.
Fiquei parado, respirando fundo, e depois levantei.
Meu corpo inteiro tremia.
Mas eu sabia que ele não ficaria ali.
Não o Otávio
Passei o braço dele pelo meu ombro, segurei o fuzil com a outra mão e comecei a andar.
Cada passo era um inferno.
A perna ardia, o corpo dele pesava, mas eu não ia abandonar.
Um dos vapores veio correndo, ofegante.
— Urso! Deixa ele! Eles tão vindo!
— Sai da frente! — gritei. — Meu irmão vai ter um velório, p***a! Ninguém vai deixar ele apodrecer aqui!
O moleque ficou quieto, sem saber o que fazer.
Eu continuei, cambaleando, arrastando o Tavinho nas costas, o fuzil pendendo no peito.
A pedreira parecia infinita.
Cada pedra que eu subia escorregava, e o sangue escorria pelo chão, marcando o caminho.
Mas eu não parava.
Dentro da cabeça, só uma coisa repetia: “ele vai ser lembrado como força.”
Cheguei na entrada da mata, onde o ar era úmido e frio.
Lá dentro, o som do tiroteio diminuía.
O silêncio da floresta era quase dolorido depois de tanto barulho.
Encostei o corpo dele numa pedra grande.
Olhei pro rosto do Tavinho parecia dormindo, mas o corpo já começava a ficar rígido.
Fechei os olhos dele com a mão, respirei fundo e falei baixo:
— Descansa, irmão. Tu fez tua parte. Agora deixa o resto comigo.
CONTINUA..