O sol estava alto quando Dante reapareceu na varanda principal da casa. Vestia uma camisa branca com as mangas dobradas e as calças jeans coladas às botas sujas de barro. O cabelo castanho, levemente bagunçado, brilhava sob a luz intensa. Mas não era a aparência dele que fazia os outros empregados abaixarem a cabeça ao vê-lo passar — era o silêncio carregado de autoridade que o seguia.
Alana o observava de longe, fingindo varrer a varanda. Seu coração batia como um tambor descompassado. Ele parecia um estranho com olhos que enxergavam demais. Desde a discussão com o pai, havia algo em Dante que a intrigava… e aterrorizava.
— Você vai ficar parada aí me olhando? — A voz dele cortou o ar como uma lâmina morna.
Alana se assustou, derrubando a vassoura com um baque seco que ecoou no alpendre silencioso da fazenda. O som pareceu mais alto do que deveria, como se anunciasse algo que nem o destino ousava nomear.
Ela instintivamente abaixou a cabeça, os olhos fixos no chão de madeira gasta. Seu coração disparou, batendo tão forte que ela quase pôde ouvi-lo nos próprios ouvidos. Tentou recuar, mas seus pés pareciam enraizados. As mãos tremiam. O medo, antigo companheiro, agora era acompanhado por uma nova sensação — quente, estranha, pulsante.
Mas era tarde. Os passos dele já estavam ali.
O som das botas de couro pesado contra o chão parecia lento e c***l. E quando Dante parou diante dela, o ar pareceu rarefeito. Alana não ousou levantar o rosto, mas sentiu. Sentiu a presença dele como uma sombra quente e sufocante sobre seu corpo magro.
O silêncio entre eles era cortante. Ela apertou os olhos por um segundo, esperando um grito, uma ordem, um toque rude. Mas o que veio foi pior.
— Está com medo de mim? — ele perguntou, com voz baixa, arrastada, quase... provocadora.
O tom não era o de um senhor bravo. Era o de um homem curioso.
Alana não respondeu. Seus lábios estavam entreabertos, mas secos demais para formar palavras. E foi então que ele fez aquilo.
Com dois dedos apenas, Dante tocou o queixo dela. Levantou devagar, como se pesasse o mundo inteiro naquele gesto.
Ela o encarou pela primeira vez.
Os olhos dele eram escuros, quase negros. Não havia bondade neles. Mas também não havia crueldade pura. Havia tormento. Desejo. E um tipo de solidão que ela reconhecia — porque também carregava.
O tempo pareceu parar.
Um trovão distante anunciou a tempestade que se aproximava, mas ali, entre eles, o ar já era de furacão.
— Você não devia estar aqui — ele sussurrou.
E então soltou seu rosto.
Alana respirou com força, como se estivesse voltando à vida. Mas não havia alívio. Havia um peso novo dentro dela. Um calor que não era dela... e um medo que não era mais só do pai dele.
Era de si mesma.
Porque, naquele breve toque, ela soube: não haveria como sair ilesa daquele homem.
Dante parou a menos de um metro dela. O olhar dele era como uma brasa viva — que não queimava, mas hipnotizava.
— Qual é o seu nome? — ele perguntou.
Ela engoliu seco.
— Alana...
Ele estendeu a mão, como se quisesse tocar o rosto dela. Mas parou no ar, hesitando. Um músculo da mandíbula dele se contraiu.
— Você tem medo de mim?
Ela não respondeu. O silêncio dela era sua única defesa.
Dante riu, mas não havia humor naquele som. Havia amargura.
— Ótimo. O medo mantém as pessoas vivas nessa casa.
Antes que ela pudesse se afastar, ele estendeu o dedo e tocou o queixo dela. Um gesto mínimo. Mas em Alana, explodiu como uma corrente elétrica. Foi o primeiro toque.
Frio.
Curioso.
Marcado por uma intensidade que ela não sabia nomear.
— Você não pertence a este lugar — ele disse, mais para si mesmo do que para ela.
Então, afastou-se. Sem mais uma palavra.
Alana permaneceu imóvel, o rosto ainda queimando onde ele havia tocado. O peito apertado. A alma dividida.
Ela deveria odiá-lo. Ele era um Oliveira. Filho daquele que a comprou como se fosse gado.
Mas havia algo no olhar dele… algo quebrado, sombrio e atraente. Algo que mexia com partes dela que estavam adormecidas desde a morte da mãe.
Naquela noite, deitada em sua cama dura, ela fechou os olhos… e o rosto dele foi a primeira coisa que sua mente desenhou.
Não era amor.
Nem desejo.
Era o início de algo proibido e perigoso.
Era o primeiro medo disfarçado de atração.
E ele já estava dentro dela, mesmo sem saber.
Alana cambaleou um passo para trás, tentando se afastar daquele olhar que a despia sem encostar. Mas o corpo dela — frágil, assustado, tão habituado a se proteger — agora respondia com sensações que ela nunca havia sentido.
Como ele podia causar isso com apenas um olhar? Um toque?
Dante permaneceu parado, observando-a como um predador que não tem pressa. Seus olhos passeavam pelo rosto dela com intensidade desconcertante. Aquilo não era simples curiosidade — era fome. Algo sombrio e incontrolável.
— Qual é o seu nome? — ele perguntou, a voz mais grave do que antes.
Alana engoliu em seco. Sentia a garganta seca, como se falar fosse rasgar a alma. Mas não podia ficar muda diante dele.
— A-Alana...
O nome saiu como um sussurro frágil. Quase infantil. Ela odiou o som da própria voz. Soava pequena. Vulnerável. Fraca.
Dante franziu o cenho, como se testasse o nome nos próprios pensamentos. Seus olhos desceram lentamente pelo corpo dela, percorrendo o vestido simples, sujo de poeira. Não havia nada de provocante em sua aparência, e mesmo assim... ele a olhava como se ela fosse feita de pecado.
— Nunca ouvi meu pai falar de você.
Ela abaixou o olhar, apertando os dedos um contra o outro.
— Cheguei tem poucos dias...
— Hum.
Ele se aproximou mais um passo.
Agora, ela podia sentir o cheiro amadeirado e picante do perfume que ele usava. Era enjoativo e delicioso ao mesmo tempo. Sua respiração falhou, e ela fechou os olhos por um segundo. Queria desaparecer.
Queria ficar ali.
Queria fugir.
Queria... ser tocada de novo.
"Não, Alana. Não sinta isso." — gritou uma voz dentro dela.
Mas o corpo não ouvia a razão.
Dante percebeu o tremor nas mãos dela e algo dentro dele se acendeu. Um misto de raiva e prazer. Ele gostava do efeito que causava. E odiava gostar.
— Não precisa ter medo de mim — ele mentiu.
Alana ergueu os olhos de novo. Só por um instante.
— Mas eu tenho.
A sinceridade dela o atingiu como um soco. Ele não respondeu. Apenas virou-se devagar, como se não quisesse assustá-la mais, e se afastou, com o mesmo som firme das botas contra o chão.
Mas antes de sumir pelo corredor, ele falou sem olhar para trás:
— Então me evite, Alana.
Ela ficou ali, estática, o corpo ainda vibrando com o calor do toque e o arrepio do olhar.
Mas algo dentro dela já sabia...
Evitar Dante seria impossível.