Capítulo 21

1493 Palavras
Vegas on O teto estava manchado de mofo, e as paredes, descascadas, denunciavam o abandono. O ar era quente e parado, pesado como o silêncio que tomava o lugar. Vegas estava sentado na beira do colchão velho jogado no chão, a mão apoiada no joelho, o olhar fixo numa rachadura na parede. O quarto era improvisado, montado às pressas numa das casas abandonadas que usavam como rota de fuga. Nenhum luxo, nenhum conforto. Só o necessário pra passar a noite sem serem encontrados — e mesmo isso era incerto. Mas ali, naquele espaço apertado, ele tinha deixado Pete se aproximar mais do que deveria. Atrás dele, Pete ainda dormia. De lado, com os cabelos bagunçados e o rosto sereno, alheio à guerra que Vegas travava dentro de si. O lençol amassado cobria apenas parte do corpo dele. Havia marcas nos ombros, no pescoço. Vestígios da noite anterior. Vegas passou a mão pelos lábios, como se ainda pudesse sentir o gosto da pele de Pete. Era errado. Tudo aquilo era errado. Mas também era inevitável. — Você me desmonta e nem percebe — murmurou para si mesmo. Ele se levantou devagar, evitando qualquer barulho que pudesse acordar Pete. Caminhou até a pequena janela coberta por um lençol velho. O sol começava a se erguer, e com ele, os fantasmas voltavam a sussurrar. Vegas sabia que a realidade estava esperando do lado de fora. E ela não tinha espaço para sentimentos. Não depois do que Nabin fez. Não depois do que ele prometeu a si mesmo. Mas então ele olhava Pete... e tudo desmoronava um pouco. Vegas odiava aquilo. Odiava como Pete olhava pra ele — como se ainda houvesse algo em Vegas que valesse a pena. Como se ele não fosse uma bomba-relógio prestes a explodir no colo de quem ousasse se aproximar demais. O silêncio que se seguiu àquela última frase foi ensurdecedor. Ele podia ver nos olhos de Pete o impacto daquilo. Podia sentir a respiração do outro ficando mais pesada, e isso o fez querer socar alguma coisa. Ou alguém. Talvez a si mesmo. Por que ele continua aqui? Por que, mesmo depois de tudo, ele ainda me escolhe? Vegas passou a mão pelos cabelos, tentando afastar a confusão que martelava sua cabeça. Ele estava cansado — e não era o tipo de cansaço que se resolvia com sono. Era um esgotamento da alma, como se estivesse lutando contra o próprio coração há tempo demais. Cada vez que se permitia sentir algo por Pete, era como trair a memória do pai. Como trair a própria dor. Mas aí vinha a lembrança da noite anterior. Do jeito que Pete sussurrava o nome dele, não por prazer, mas como quem chama alguém de volta pra vida. Do calor dos braços dele, da forma como segurava seu rosto como se fosse algo precioso. Vegas não sabia lidar com isso. Ele sempre soube ser c***l, sabia matar, manipular, enganar — mas amar? Não. Isso era território inimigo. Um campo minado onde qualquer passo em falso podia destruí-lo. E no fundo, ele sabia: Pete era sua maior fraqueza… mas também a única coisa que ainda o mantinha humano. Vegas deu mais um passo à frente, olhando Pete como se quisesse gravar aquela imagem na pele. Ele sentia o peso da própria promessa. A vingança que jurou. O sangue que ainda precisava ser derramado. Como é que eu vou fazer isso… e ainda olhar pra você depois? E, pela primeira vez, Vegas teve medo de não conseguir. Pete se moveu no colchão, sentando-se devagar. Os olhos estavam sonolentos, mas atentos. Vegas já conhecia aquele olhar — calmo por fora, insistente por dentro. — Você sempre foge depois, né? — Pete disse, a voz baixa, sem acusação. Era só constatação. Vegas cruzou os braços, o corpo tenso, como se se defender fosse a única forma de continuar de pé. — Eu não fujo. Eu só… penso melhor longe de você. Pete soltou um riso curto, seco. Se levantou, puxando a calça jeans do chão e vestindo-a com movimentos lentos, contidos. — Engraçado… você parece mais perdido quando tá longe de mim. Vegas não respondeu. Só encarou o chão por um segundo, depois ergueu os olhos. Havia uma tempestade prestes a cair ali dentro — e era dele. — Você acha que isso aqui é simples, Pete? Que dá pra viver isso como se a gente fosse dois caras normais? Eu não sou normal. Eu não posso ser. Pete se aproximou, ficando a poucos passos dele. Seus olhos eram calmos, mas firmes. — Eu não quero normal. Nunca quis. Se eu quisesse alguém fácil, previsível… não seria você. Vegas deu uma risada amarga, sacudindo a cabeça. — Eu vou matar seu pai. O silêncio foi imediato. Denso. Mas Pete não recuou. — E eu sei disso. Você já me disse isso mil vezes. E mesmo assim eu fiquei. Vegas engoliu em seco. Queria gritar, socar a parede, fazer Pete ir embora. Mas ele também queria puxá-lo de volta pro colchão e pedir — mesmo que fosse em silêncio — pra ele não soltar sua mão. — Isso aqui vai acabar machucando você, Pete. Mais do que já machucou. — Eu não tô com você pra sair ileso, Vegas. Tô com você porque… — ele hesitou por um segundo — …porque eu vi quem você é quando para de se esconder. Vegas prendeu a respiração. Aquilo era demais. Era intenso demais. E perigoso. — E se eu me perder? — ele perguntou, quase num sussurro. Pete chegou mais perto, encostando a mão no peito de Vegas, sentindo o coração acelerado debaixo dos dedos. — Então eu te trago de volta. O toque de Pete no peito de Vegas era quente, firme, direto — como tudo nele. Vegas sentiu os dedos pressionando devagar, não com força, mas com uma intensidade que era mais difícil de suportar do que qualquer confronto físico. Ele podia afastá-lo. Bastava um passo, uma palavra fria, e Pete recuaria. Ele sabia disso. Mas não se mexeu. Pete ficou ali, em silêncio, encarando-o como se estivesse vendo além da fachada, além da dor, além da raiva. Como se enxergasse um Vegas que nem ele mesmo conhecia — ou que já tinha esquecido que existia. — Quando eu era criança, meu pai dizia que sentir demais era fraqueza. Que um líder não pode se apegar. Que qualquer vínculo vira uma arma — Vegas falou de repente, a voz rouca, o olhar perdido por um instante antes de voltar aos olhos de Pete. — Eu cresci acreditando nisso. Aprendi a matar antes de aprender a confiar. Pete não disse nada. Só escutava. Do jeito que Vegas nunca soube ser escutado. — Aí você aparece. Filho do homem que destruiu minha vida. E ao invés de fugir, você fica. Me encara. Me desafia. Dorme comigo num colchão imundo no meio de um esconderijo como se fosse o lugar mais certo do mundo. Vegas riu, um riso abafado e amargo, passando a mão no rosto. — Isso não faz sentido, Pete. Nada disso faz. Eu devia odiar você com cada fibra do meu corpo. — E odeia? — Pete perguntou, com a voz baixa, quase num sussurro. Vegas hesitou. — Não. Eu odeio o que você faz comigo. O jeito que você me faz duvidar da minha própria raiva. O jeito que você olha pra mim e me desmonta, sem precisar dizer nada. — Ele respirou fundo. — Eu devia te afastar. E ainda assim, toda vez que você chega perto, eu quero ficar. O peito de Pete subia e descia devagar. Ele parecia lutar contra as próprias emoções, mas segurava firme. — Eu não sou seu inimigo, Vegas. Vegas desviou o olhar, encarando o chão. — Mas seu pai é. E eu ainda vou terminar o que comecei. — Então termina — Pete disse, e Vegas ergueu os olhos com surpresa. — Faz o que você acha que precisa fazer. Eu não vou implorar pra você mudar por mim. Mas enquanto você não apertar o gatilho, eu vou estar aqui. Pra te lembrar de quem você é… e do que mais você pode ser, se quiser. Vegas sentiu o estômago revirar. Aquilo não era uma promessa. Era uma maldição. Porque, agora, cada passo que ele desse em direção à vingança teria o rosto de Pete entre as sombras. Ele se aproximou lentamente. Pegou o rosto de Pete com as mãos, os polegares tocando a pele quente, sentindo a respiração dele misturar com a sua. E por um instante — um único e maldito instante — Vegas desejou que o mundo sumisse. — Você vai me destruir, Pete. — Talvez — Pete respondeu, quase sem voz. — Mas pelo menos você vai sentir. Vegas encostou a testa na dele. Fechou os olhos. E, pela primeira vez em muito tempo, deixou o muro cair. Só por um momento. Porque por mais que odiasse admitir… Ele não queria mais lutar contra o que sentia.
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