Afinal de contas, o que um escudeiro fiel é? O melhor amigo de alguém importante ou a sombra de alguém importante?
Não quero ser amigo de um príncipe, mas me recuso a ser chamado de melhor amigo quando na verdade eu estou aqui simplesmente para protegê-lo.
O balançar da da carruagem já estava me deixando enjoado, mas um homem viril não pode ser sensível e se entregar a um simples enjôo. Por outro lado, o príncipe Magnus continuava se queixando do enjôo. E é claro, falando da princesa.
— Achei as atitudes dela, bem atitudes de uma dama. Mas o olhar dela mostrava rebeldia, não quero me casar com uma rebelde mimada. O Rei a mima muito, nem precisa prestar muita atenção para notar...
E Magnus continuava falando e falando e falando, e falando um pouco mais. Minha vontade era de vomitar nele.
— Achei sua futura esposa adorável. — Comentei enquanto virava o pescoço para a pequena janela escondendo meu sorriso.
— Como?
— Nada! — Balancei a cabeça o olhando fingindo confusão.
— Gosto de mulheres que se colocam em seus lugares, e que abaixam a cabeça quando tem que baixar. — Magnus prosseguiu. — Tenho absoluta certeza de que essa mulher não sabe nem ao menos como tratar um marido.
— A Rainha deve ter conversado com ela, Magnus. Relaxa, cara.
— Não consigo. Eu não quero me casar com essa pirralha, e Frances não abre excessões já cansei de insistir.
Frances é irmão de Magnus, herdeiro do trono Eldoria.
— Você será Rei de Eratos, não deve ser tão r**m assim. — Retruquei.
— Você sabe que meu coração pertence a Emília.
— A camponesa? Você é o príncipe de Eldoria, logo herdeiro do trono Eratos, e só consegue pensar em uma simples camponesa?
— Ela não é uma simples camponesa. — Magnus deu de ombros. — O castelo está logo alí, estamos chegando. — Ele começou a se arrumar, desamassando a roupa e arrumando alguns detalhes perfeitos da roupa.
Pela janelinha pude ver o castelo Eratos novamente, revendo alguns detalhes nos quais eu vi há algumas semanas atrás.
A carruagem parou, e então descemos. Enquanto caminhávamos até o castelo pude notar as duas princesas junto a rainha provavelmente nos esperando na frente do castelo.
Caminhamos lentamente, no tempo de Magnus. Ele caminhava cavalheiramente, como um homem fino e por questão de segundos duvidei se era o mesmo homem que vinha todo torto e sem postura na carruagem junto comigo.
— É a segunda vez em Eratos e eu não aguento mais. — Magnus resmungou entre os dentes.
— Se controle. Você um dia será o Rei de Eratos.
A princesa mais jovem vestia um longo vestido branco florado, a Rainha usava um vestido amarelo brilhante, e a princesa noiva de Magnus um longo vestido verde claro destacando bem o tom da sua pele.
O sorriso dela agora não parecia tão feliz como o da última vez, apesar de que ela estava disfarçando. Provavelmente sua mãe lhe mostrou como odiar a idéia de casar a prendendo rigorosamente dentro de um espartilho, ou testando um milhão de penteados, ou até mesmo que tipo de perfume Magnus gosta.
A princesa tem postura, queixo erguido, como Magnus falou ela tem postura de mulher que não abaixa a cabeça. Seu olhar demonstra mesmo rebeldia.
Não sei de que Magnus está reclamando, sua noiva é bem bonita e robusta. Me permiti analisá-la começando dos pés até chegar na sua cintura lindamente bem marcada provavelmente por causa do espartilho, subi os olhos até seu b***o tentando não olhar muito já que possa parecer desrespeitoso secar a noiva do meu suposto amigo. Parei em seu rosto notando que ela estava me olhando, e é claro que estava me olhando incrédula. Sorri de canto e desviei o olhar para o jardim do outro lado.
— Rainha Eratos. Princesa Amice e Princesa Emma. — Magnus as cumprimentou enquanto se curvava diante delas.
— Família real. — Me curvei as cumprimentando.
— Estávamos esperando por vocês. Venham, vamos jantar, pedi para Amélia preparar um banquete. — A Rainha nos convidou para entrar.
Noto que a Princesa e a Rainha deixam um pouco de espaço ao lado de Amice, provavelmente para que Magnus caminhe ao lado dela. Mas é claro que ele se mantém o mais longe possível como se estivesse com medo dela.
Lanço um olhar incrédulo para ele, mas parece não adiantar.
Frances deveria estar aqui, para que Magnus não destrate a coitada da Amice. Se o Rei de Eldoria estivesse aqui, Magnus estaria agindo como deve.
Caminhamos por alguns corredores, as mulheres conversam com classe e riam com classe. Sempre admiro como tudo o que as mulheres da realeza fazem parece certo.
Enquanto ainda estávamos no caminho as criadas levaram nossas malas e então entramos em uma porta revelando uma mesa de jantar.
— Magnus! — Eratos ergueu os braços como se fossem se abraçar, mas bateram o peito um no outro dando tapinhas nas costas e se largaram. Cumprimento viril e masculino.
— Rei Eratos! — Magnus chamou seu nome também enquanto se largavam.
Quando se afastaram entre seus corpos vi Amice lá atrás. Sorri de canto brincando com ela que revirou os olhos e sentou à mesa.
— Cadman. — O Rei me cumprimentou, então me curvei minimamente em sua frente. — Vieram definitivamente? — O Rei questionou a Magnus.
— Quase isso. — O tom de voz de Magnus era alegre, mas para quem realmente o conhece sabe que na verdade é desespero.
Sentamos à mesa nos acomodando alí esperando que as criadas trouxessem o jantar.
— Como foi a viagem, Príncipe de Eldoria? — Eratos continuava tentando conversar com Magnus.
— Um pouco exaustiva, mas valeu muito a pena. Eratos é realmente um Reino incrível, muito bonito. — Senti a falsidade no tom de voz de Magnus.
O cabelo ruivo dele grudava na testa, e os seus fios claros quase faziam os fios brancos passarem despercebidos.
— Está tudo bem, Senhor Drake? — Emma que estava sentada ao meu lado questionou.
— Como?
— Você parece um pouco abatido.
— Ah... Estou. Só estou um pouco tonto da viagem.
— Emma! — Um sussurro repreendor ecoou baixinho, olhei para o outro lado ao lado de Magnus e vi Amice repreender a irmã. — Pare de atazanar Drake.
— Está tudo bem. — Respondi.
Era notório como tudo em nossa volta foi feito exclusivamente para que Amice e Drake se aproximassem. As cadeiras em que estão sentados quase em cima uma da outra, os talheres alguns centímetros mais próximos do que os outros estão.
Me deixa incomodado o fato de que Magnus é um garotinho mimado no corpo de um homem de quase 40 anos. Não que eu me importe, mas quando você está a todo momento na sombra de alguém, você passa a se sentir incomodado com qualquer ação dele.
Sinto vontade de rir ao ver como ele está visivelmente incomodado na presença de uma Princesa, e então lembro de como ele fica posturado na presença de prostitutas. Ele é só um mimado que nunca deixou de ser um garotinho, está com medo das responsabilidades.
Afinal de contas, quais responsabilidades? Ele apenas está pensando que será poderoso e terá quantas prostitutas quiser, mas em troca teria que carregar um grande fardo. E que grande fardo, Magnus sofrerá muito.
— Quando o casamento pode acontecer? — Rei Eratos fala mais com ele mesmo do que com Magnus.
— Por mim, no tempo em que o Senhor achar necessário... E que, é claro, quando minha noiva achar melhor. — Magnus respondeu sorrindo para Amice que sorriu de volta.
Franzi o cenho vendo essa cena, notando que Magnus ou está debochando da família Eratos, ou está realmente tentando fazer com que isso dê certo.