Um dia. Dois dias. Uma semana.
Já estava ficando preocupado, o Alexandre não me atende e não vai à praia, será que eu fiz alguma coisa? Custava atender a m***a do celular? Será que aconteceu alguma coisa com ele? Eu me fazia várias perguntas, eu estava triste, destruído por dentro, não entendia o porque, por essas e outras que eu odiava me apaixonar, odeio a sensação de dependência e eu estava sentindo isso, eu estava dependente dele. Ele poderia ao menos mandar uma mensagem, um sinal de fumaça, qualquer coisa.
—Math, você tem que superar esse cara. – disse Allan que estava deitado do meu lado, estávamos no meu quarto e eu contava minhas incertezas a ele – Vai se arrumar que vamos sair mais tarde!
—Não estou com cabeça pra isso. – disse carrancudo.
—Não te dei a opção de escolha. – falou se levantando – Passo aqui às 7, vamos sair pra beber.
Desci junto com ele e enquanto ele se encaminhava pra ir pra casa, eu ia pra cozinha, esse era meu modo de amenizar a tristeza, comendo. Me contentei com um pote de sorvete e me sentei no sofá, peguei meu celular e vi 70 ligações feitas, e fiz mais uma, chamou uma, duas, três e logo em seguida caixa postal. Desisto, pensei. Não era possível, se eu tinha feito alguma coisa ele podia simplesmente me falar, que m***a, o pior é que nesse tempo todo nunca me interessei em saber onde ele morava, mas ai lembrei de uma coisa, É CLARO, O CENTRO. Deixei pra ir lá amanhã e corri pra me arrumar.
Quando chegamos no bar ficamos abismados ao ver que estava lotado, era um enorme bar karaokê no centro de Salvador, tivemos a sorte e achamos uma mesa, logo Allan pediu uma garrafa de Campari e uma cerveja, vocês podem achar loucura sair pra beber no meio da semana, mas se a gente for parar pra pensar nessas coisas não viveremos nada, e não tem nada melhor que afogar as magoas numa garrafa de CAMPARI, um beijo pra quem não gosta.
A noite estava ótima, eu me divertia muito com o Allan, resolvemos cantar e modéstia parte eu e Allan sempre levamos jeito pra coisa, apesar de ninguém nunca dar nada na gente, depois de muito pensar escolhemos “Duas vidas num só ideal” do Exaltasamba, na verdade nunca tinha visto Allan cantar pagode, queria tanto que Bruno estivesse ali, seria cômico vê a cara dele com Allan e eu cantando pagode, na verdade eu amo, nas Allan tem mais essa coisa voltada pro Pop.
Quando cantamos os primeiros versos da música todos aplaudiram de pé, minha voz era suave e Allan dizia que, no canto minha voz era muito feminina, já a dele era um pouco mais grossa e grave que o normal e a junção das nossas vozes era uma combinação perfeita, ficou mais perfeito ainda quando no refrão todo mundo cantou junto, aquela não era uma das mais conhecidas do Exalta, mas era sem dúvidas a mais bonita.
“Eu sou capaz de fazer ela feliz, e nada é capaz de me impedir, não tem regras pro amor, não tem classe crença ou cor…”
Allan continuou, dividimos a música a nossa maneira.
“O preconceito, eu sei, é natural, mas quando existe amor entre o casal, tudo fica tão banal, duas vidas num só ideal.”
Nós dois sabíamos brincar com nossa voz isso era nítido, mas acho que o mais surpreendente para aquelas pessoas foi a voz grave do Allan, eu estava vestido como um… Digamos, afeminado e as roupas do Allan não eram um poço de masculinidade, e acho que isso foi oque mais chocou, nunca ligamos pra isso de afeminado ou não, na verdade nos temos um certo nojo de gay GGGG e heteronormativo que gosta de desmoralizar gays afeminados, na verdade todos os gays desse mundo deveriam agradecer aos gays afeminados, as trans, e os travestis que dão sua cara a t**a todo dia e enfrenta muito mais o preconceito da sociedade que os GGGG que acham que por serem mais masculinizados são menos gays que os outros, apenas nojo desse tipo. Mas enfim, terminamos a música e fomos ovacionados, todos aplaudiram de pé e não é pra menos, realmente arrasamos e tive que rir quando Allan disse no microfone que a versão da gente ficou melhor que a oficial e todos gritaram e bateram mais palmas ainda.
Voltamos pra mesa rindo e logo um senhor de mais ou menos 45 anos se aproximou e se sentou na nossa mesa.
—Vocês são maravilhosos! – disse com um largo sorriso – Já pensaram em seguir carreira?
—Não, pretendo ser advogado e processar cada homofóbico dessa cidade em breve. – disse arrancando uma risada do homem – Mas, até lá vou apenas me contentar em afrontar a família tradicional. – e piscando pro homem completou – Temos que mudar o mundo uma lantejoula de cada vez.
—HAHAHA! Você é ótimo!…?
—Allan. – disse estendendo a mão – E esse é meu amigo Math!
Também apertei a mão do homem e conversamos durante a noite toda, descobri que ele era dono do Bar, mas no meio da conversa meus pensamentos ficaram confusos quando vi o Alexandre saindo do bar, meu corpo todo ficou gelado, borboletas dançavam no meu estômago, pensei em não ir atrás dele, mas antes que pudesse pensar em mais alguma coisa já estava passando pela porta do bar gritando o nome dele.
—ALEXANDRE! – ele parou, mas não olhou pra trás, segui ate ele e o abracei, ele não retribuiu mas deixou ser abraçado – Por que você não atende minhas ligações? Por que sumiu?
—Porque eu não tinha nada pra falar… – disse fechando a cara.
—QUAL A m***a DO SEU PROBLEMA? – gritei raivoso – O QUE ACONTECEU COM VOCÊ? FOI ALGO QUE EU FIZ?
—FOI ALGO QUE VOCÊ FEZ, SIM! – gritou me prensando na porta do carro dele – VOCÊ, COM ESSE SEU JEITO.... d***a! – se afastou rapidamente.
—Você está apaixonado por mim! – disse sacando tudo e com um sorriso imenso no rosto – Você está apaixonado por mim! – repeti sem acreditar.
—Estou! Satisfeito? – disse carrancudo.
—Muito! – disse alegremente – Eu também…
—Eu sei que você também, mas não podemos ficar juntos! – disse sem olhar pra mim.
—Porque? Qual o problema? – ele continuou calado – QUE m***a ALEXANDRE! QUE d***a, VOCÊ FAZ EU ME APAIXONAR POR VOCÊ E DEPOIS QUER PULAR FORA, VOCÊ É UM…
—Eu tenho HIV!