Capítulo 4

817 Palavras
Capítulo 4 CAIRO NARRANDO Eu não gosto de novidade. No morro, novidade quase sempre vem junto com problema. E problema eu resolvo antes de crescer. Por isso eu vejo tudo. Mesmo quando parece que não tô vendo. Eu cheguei na parte da endola mais cedo hoje. Não teve motivo claro, não teve chamada, não teve alerta. Foi só aquela sensação que vem do nada, mas que nunca vem à toa. Eu aprendi cedo a confiar nisso. Aqui, quem ignora instinto não dura. O movimento já tava rodando quando eu entrei. Do jeito que eu gosto. Organizado, sem bagunça, cada um no seu lugar. Não precisei falar nada. Eu nunca preciso quando tá certo. Só de passar já dá pra sentir quando tá alinhado. Os caras me viram. Sempre veem. A postura muda, o olhar ajusta, o corpo entende antes da cabeça. Ninguém anuncia, ninguém chama atenção. Não precisa. Eu fui andando devagar, observando tudo. Quem tá relaxado demais, quem tá tenso demais, quem evita olhar, quem olha demais. Tudo fala. Tudo entrega. É só saber onde olhar. E foi aí que eu vi. Não foi de cara. Não foi impacto. Foi detalhe. Uma peça fora do lugar. Mulher nova aqui dentro. Gostosa pra caralhö, mesmo sentada dava pra perceber. Eu não lembrava de ter autorizado. E se eu não autorizei, alguém autorizou. Isso por si só já bastava pra chamar atenção. Mas não foi só isso. Ela não tava perdida. Não tava rodando o olhar igual quem não sabe onde pisa. Também não tava à vontade. Não tava solta. Ela tava tentando. Tentando não errar. Tentando se encaixar. Tentando fazer tudo certo rápido demais pra quem acabou de chegar. E isso me fez parar. Por dentro. Por fora eu continuei andando. Mas eu olhei. E não foi um olhar qualquer. Foi direto. Ela abaixou o olhar na hora. Instinto. Reconheceu. Mesmo sem nunca ter falado comigo. Mas já era. Eu já tinha visto. As mãos dela tremiam leve. Coisa que muita gente não perceberia. Eu percebi. A respiração tava controlada demais, forçada. O movimento repetido como quem decorou rápido e tá tentando não errar. Não era acostumada. Mas também não era burrä. Eu parei por um segundo. Ninguém percebeu. Mas eu parei. E continuei olhando. Porque isso aqui não era normal. Não era beleza. Não era corpo. Não era nada óbvio. Era o contraste. Ela não pertencia aqui. E mesmo assim tava. E gente que não pertence, mas entra ou vira problema, ou já é problema. E problema eu resolvo antes. Ela levantou o olhar. Um segundo só. Erro. Porque foi nesse segundo que eu vi direito. Ela não abaixou por submissão. Também não sustentou por desafio. Mas tinha consciência ali. Ela sabia onde tava. Sabia quem eu era. E sabia que não devia estar aqui. E mesmo assim ficou. Isso me chamou atenção de um jeito que eu não gostei. Porque coisa que chama atenção sem motivo claro quase sempre dá trabalho depois. Eu não demonstrei nada. Nunca demonstro. Mas também não desviei. Os caras começaram a perceber. Claro que começaram. Eles sempre percebem quando eu foco em alguma coisa. Um passou mais devagar. Outro ficou mais tempo do que precisava. Eu deixei. Não falei nada. Não precisava. Só o fato de eu não tirar o olho já dizia o suficiente. Ela entrou no meu radar. E quando entra não sai fácil. Eu dei alguns passos e passei por ela. Perto de propósito. O suficiente pra sentir a reação sem precisar encostar. O corpo dela travou. Leve. Mas travou. Ela não olhou. Nem tentou. Melhor assim. Eu continuei andando até o fundo, onde um dos meus veio falar comigo. — Patrão, o movimento tá limpo, tá tudo certo. Eu já sabia. — Quem autorizou gente nova. Ele respondeu rápido demais. — Rastaquera. Assenti. — Nome? — Maya. O nome ficou. Grudado. — De onde? — Do morro mesmo. Voltei o olhar nela por um momento. Ela ainda tava lá, fazendo o que tinha que fazer, sem olhar na minha direção, mas consciente. Bem consciente. Mandei ficar de olho. — Quer que tira ela patrão? Eu só olhei pra ele. Pergunta burrä me irrita mais do que erro. — Se eu quisesse tirar, eu mandava. Não mandei. Então não pergunta. Ele entendeu. Todo mundo entende quando eu olho desse jeito. Olhei pra ela mais uma vez. Rápido. O suficiente. Confirmei o que eu já tinha entendido. E virei. Saí da endola do mesmo jeito que entrei. Sem anúncio, sem barulho, sem fazer cena. Mas com uma certeza. Aquela ali não era só mais uma. E eu não gosto de coisa fora do padrão. Ou eu corrijo. Ou eu tomo. E no caso dela eu ainda não tinha decidido. Mas uma coisa já tava definida. Ela entrou. E agora ela tava dentro do meu território. E do meu olhar. E no morro quando isso acontece nunca termina simples.
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