— Me deixa em paz, Fruste! - o homem alto disse raivoso olhando para ele.
— Fruste? -Nikolai olha o homem confuso e sorri. - ooownt, não me chama de desprezível que eu gamo. -Nikolai ri com escarnio.
— Quem é ele? - pergunto em um sussurro para Nikolai e olho para o homem que foi jogado em minha cama.
— Seu anjinho da guarda, Yu. - O mesmo me responde cantarolando. - Se apresenta para ele Thanie.
— Não me chame de "Thanie", seu obnubilado. - O homem o responde com uma voz de desprezo.
Eu estava totalmente perdido diante de toda situação, Fruste? Thanie? O QUE É ISSO? Quando eu olhei para o homem que havia sido supostamente sequestrado, eu pude olhar para ele mais calmo e perceber seus traços. Aos poucos olhando cada detalhe do rosto angelical do homem pude o reconhecer, ele é o mesmo que eu acabei vendo em meu sonho. O meu provável sonho.
— Você... Você é aquele anjo, não é? - pergunto me aproximando curioso e o homem olha para mim erguendo a sobrancelha.
— Ele consegue nos ver, ainda não entendeu isso? -Nikolai pergunta para o homem de forma cansada.
— Mas... Ele não deveria nos ver. - O homem dita olhando em meus olhos.
— Mas eu consigo. - Dou de ombros. - Não sei como, ou porque, mas eu consigo. - Acabo dando um suspiro longo. - Como é seu nome, hein?
— Agradeceria se você não falasse comigo. - O homem fala calmo caminhando até a janela.
— Ele sempre foi chato assim? - pergunto para Nikolai.
— Sim, principalmente quando se trata de humanos. -Nikolai comenta e pega um livro aleatório em minha prateleira. - Mas ele se chama Ethan Collins. - Conta com falta de interesse. - Acredite, ele era mais legal quando era vivo.
— Vai começar com esse papo de novo, LeBlanc? - Ethan pergunta ofendido. - Eu nunca te conheci, Céus! - Ele exclamou erguendo as mãos um pouco.
— Vocês já foram vivos? - pergunto curioso.
— Aham, Ethan e eu éramos muito próximos quando éramos vivos... Sinceramente, eu não lembro o ano que nós estivemos vivos, mas eu lembro que Ethan se tornou padre na nossa vida passada. -Nikolai conta com o livro em mãos. - Assim que ele se tornou padre nos afastamos, e acabamos morrendo juntos... Eu não lembro como. Mas assim que esse cara aí foi para o céu, o Javé tirou as memórias dele em uma forma de "purificar" sua alma.
— como você sabe que ele foi purificado? - pergunto tirando meu livro de sua mão.
— Lilith me contou. - Me respondeu de forma totalmente simplista, como se dar informações assim fosse algo totalmente normal para ele ou como se ele realmente não se importasse com isso.
— Eu vou enlouquecer se ficar aqui com vocês. - Ouço o alarme do meu celular soar e Ethan se assusta.
— Calma... - riu nasalado por sua reação. - é só meu alarme... Eu tenho que ir tocar piano. - Digo me levantando da cama.
— Piano? - Ouço a voz de Ethan soar interessado.
—Sim, desde os quatro anos eu tenho que tocar piano. - Digo calmo. - Minha Mãe é professora de música, e eu tenho que tocar para ela, principalmente quando ela está irritada. - Digo olhando para minhas mãos. - Ao menos eu sou muito bom nisso, eu amo tocar. - Digo sorrindo e caminho para fora do quarto.
— Sua mãe se estressa fácil? -Nikolai pergunta me seguindo ao lado de Ethan.
— Sim... e quando ela se estressa é um perigo, ela tem TEI severo, sabe? No caso, TEI é transtorno explosivo intermitente. - Digo me lembrando de seus ataques que iam além de agressão verbal.
Quando eu iria descer as escadas, eu vejo rastros de minhas lembranças, é como se fosse Hologramas apenas mostrando o que eu já vivi, mas em um tom mais amarelado, e com a voz mais distante. Eu segurei no corrimão e fiquei observando a cena, Era eu e minha mãe, quando ainda éramos próximos, algumas semanas antes deles mudarem drasticamente comigo, eu só tinha cinco anos, eu era inocente de mais. Mesmo que meus pais nunca cuidaram muito bem de mim, ali eles ainda eram um pouco ruins, mas não tanto, eles nunca foram bons pais, mas eles eram boas pessoas.
"Mamãe." o pequeno eu havia ido correndo até minha mãe. "Olha meu desenho, é eu, você, o papai, e o Semyaza." ditei sorridente.
"Woah, que desenho lindo meu filho." Ela ditou acariciando os fios do pequeno. "Quem... é Semyaza, meu anjinho?" ela ditou olhando assustada para meu desenho, mas ainda sim tentando disfarçar.
"é o tio que cuida de mim." A respondi de forma inocente. " Ele sabe de tudo, mamãe, ele é tipo um sábio." ditei sorrindo.
"Ele tenta fazer algo com você, meu filho?" Ela perguntou me olhando.
"Não, mamãe, ele só desenha, e cuida de mim, principalmente quando você e o papai estão dormindo, ou... indo para fora de casa e demorando um montão para voltar." o pequeno eu sorri de forma ampla. "E ele vive me dizendo coisas."
"Coisas? que tipo de coisas?" ela me olha.
"Ele diz que suas balinhas são muito fortes, e você só não vira uma estrelinha lá no céu porque ainda seu tempo não acabou." dito e pego meu livro de desenhos. "Tenho que ir mamãe, ele ‘ta me chamando." Então sai correndo, em menos de 10 segundos meu pai chega, e minha mãe olha séria para ele.
"Precisamos conversar."
A lembrança se esvai pelo ar, e eu olho para Nikolai e Ethan, Nikolai que sussurrava "Como caralhos ele conhece o Semyaza?", Ethan estava apenas anotando em um caderno o que ele via, Nikolai quando percebeu apenas sussurrou no ouvido do anjo:
— Você sabe muito bem que isso não deveria acontecer, e se você contar para seu Deus que isso está acontecendo... -Nikolai passa a ponta de seus dedos de forma delicada nas costas dos anjos. - Você que irá pagar... Sabe, você vai perder algumas penas de suas lindas asas, anjinho. - Assim que ele termina de sussurrar, eu olho para ele.
— O que estão sussurrando? - pergunto curioso tentando ouvir direito.
— Nada, nada, humaninho. -Nikolai ri e se apoia no ombro de Yuri. - Onde fica seu piano, baixinho? - perguntou com falso interesse, mesmo eu percebendo o tom de desinteresse me dei o trabalho de o responder.
— Ele fica na sala de música. - O respondo apontando para a sala.
— Certo, vamos lá, quero lhe ouvir tocar. -Nikolai disse me empurrando para a sala, de soslaio pude ver Ethan parado no meio das escadas pensativo.
— O que aconteceu com ele? - pergunto de certa forma preocupado.
— Nada, baixinho, vamos, toque - ele continuou me empurrando até o piano.
Suspirei e assenti, não ousaria contestar um demônio, ou... Sei lá o que o Nikolai realmente é. Toquei em algumas teclas aleatórias apenas para me acostumar e aquecer meus dedos. Em poucos segundos sinto a presença de Ethan entrar no local.
Fecho os olhos e respiro de forma calma. Então começo a tocar a primeira música que vinha em minha mente, e assim veio.
A primeira tecla ser tocada.
A segunda tecla ser tocada.
A terceira tecla ser tocada.
Talvez
as
últimas
teclas
quê
eu
tocarei.
Assim veio "Franz Liszt – La Campanella", eu sentia como se fizesse parte do piano, meus dedos percorriam por cada tecla de forma hábil, é como se milhares de peças produzidas com diferentes matérias-primas tais como: madeira, tecidos, adesivos, resinas, metais, o piano em si, tenha sido feito para ser tocado por mim. Cada som, cada mínimo som, seja dó, seja ré, todos saiam em sincronia perfeita, não importa qual música fosse. Não importava quanto tempo passasse, nunca cansaria da melodia linda que vinha do instrumento musical, eu amava isso.
Essa era a única coisa perfeita que eu conseguia fazer.
O piano...
É minha vida.
A música acabou.
Assim que a música acabou eu olho para os mesmos que estão impressionados, Nikolai sorri e se aproxima de mim, ele estava com um sorriso totalmente travesso, eu estava assustado ainda, ainda pensava que eles realmente não estavam aqui. Eu com certeza não deveria reagir de forma tão pacifica quando dois homens vem até mim totalmente do nada, mas algo não me deixa reagir, como se eu reagisse eu estivesse cometendo o pecado mais brutal que eu já poderia ter feito. talvez o homem a minha frente tenha me encantado para eu não poder reagir? Ou talvez eu estivesse tão acostumado a ver e passar por coisas paranormais que eu deixei de sentir medo quando vejo algo que se pareça humano ou até vivo. Nikolai passa suas mãos quentes por meu rosto, em seguida toca em meu queixo e me faz olhar em seus olhos. Seu rosto estava tão próximo ao meu que eu podia sentir o seu hálito, eu queria correr, fugir, gritar com eles para ir embora, mas eu não conseguia. Algo me prendia, como se minha própria alma tentasse me fazer parar sem meu consentimento.
— Você toca tão bem, baixinho. - Ele aproxima mais e roça nossos lábios. - e nem precisou fazer um pacto para ser bom assim, em um dia você se tornou tão interessante para mim, baixinho. - Ele sela nossos lábios e eu arregalo os olhos, queria o empurrar, mas eu estava cansado de mais para conseguir pensar nisso de forma tão rápida. - Isso realmente vai ser divertido. - Ele sorri de lado como se estivesse vendo seu brinquedo favorito e eu permaneço estático.
— LeBlanc! - Sinto Nikolai ser afastado brutalmente de mim. - Nunca mais ouse fazer isso. - Ethan dita em um tom ameaçador.
— Ou o que? -Nikolai faz um bico zombeteiro. - Vai contar para o seu papai, Thani? - ele agora se aproxima de Ethan passando a língua em sua bochecha. - Ou quer que eu lhe dê um selar também? - pergunta provocativo.
— Eu nunca iria querer algo de você. - Sinto Ethan segurar meu pulso. - Yuri, seus pais chegaram, sobe para o quarto, anda. - Ethan me avisa e eu subo de pressa para meu quarto, mas algumas vezes eu sou puxado pelos corpos caídos no chão, apenas livro minhas pernas varias vezes consigo chegar em meu quarto sem muita luta.
Assim que entro em meu quarto eu tento raciocinar o que tinha acabado de acontecer. Aquele teria sido meu primeiro beijo? Após alguns segundos eles estavam no quarto também, Nikolai continuava provocante Ethan que apenas o ignorava.
Em alguns segundos vejo minha mãe abrir a porta do meu quarto sem nem ao menos bater, e colocar um prato de comida em minha escrivaninha.
— Coma. - Ela ordenou com a mão na cintura. - Ore e agradeça a Deus pela refeição, e o peça perdão por ter me desobedecido. - A olho confuso. - Acha que eu não sei que você esteve na sala de música, Yuri? Nem tente mentir para mim, eu mandei você ficar em seu quarto. - Apenas assenti e ela saiu de meu quarto.
— Sabe... -Nikolai começa a falar. - Se você matasse seus pais... 90% dos seus problemas estariam resolvidos. - Ele fala sincero e Ethan tampa meus ouvidos.
— Ele não vai matar os pais dele! - Ethan falou rápido.
— Qual é~ os pais dele são um pé no saco. -Nikolai o respondeu se jogando na cama e suspirando ao sentir o conforto da mesma.
— Eu não vou matar os meus pais. - Digo com desinteresse e me sento na cadeira de frente a escrivaninha.
Olhei para o prato de comida e ele não aparentava estar nem um pouco saboroso, minha mãe teria me colocado mais uma vez em dieta, apenas para apresentar para as visitas e conhecidos como o filho é magro e tão talentoso no piano, isso me irritava, isso me deixava para baixo, e não queria isso, mas sempre tive que aceitar e dizer um "obrigado", diziam que eu não podia o envergonhar na frente de visitas, ao parecer tão enorme, e cada vez eu deveria comer menos e menos, talvez até mesmo morrer de fome. Eu não conseguia comer nada, por mais faminto que eu esteja, eu passei odiar me alimentar, odiar de todas as formas possíveis.
Mas minha mãe me entregou um prato.
Um prato com comida, então eu não poderia negar.
Eu tenho que comer, né.